'Carvão' captura hipocrisia de conservadores, com pai de família gay e mãe adúltera

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mesmo com um título tão específico, fruto do contexto no qual a trama se desenrola, "Carvão", que chega nesta semana aos cinemas, inicialmente não tinha qualquer relação com os carvoeiros em cena. Foi só na hora em que Carolina Markowicz foi escolher a locação para as gravações, com uma história que já tinha sete anos debaixo do braço, que o elemento invadiu o filme.

Uma metáfora foi, então, se construindo sozinha. O carvão do nome do filme é como uma pedra no caminho dos anseios mais íntimos da família protagonista e, por outro lado, serve também para ilustrar como os personagens são lançados ao fogo -figurativa e literalmente, dependendo do caso.

"Carvão" surgiu da vontade de Markowicz de expandir o microcosmo do interior paulista, de levar às telas o ambiente pacato, conservador e muito específico no qual a cineasta conta ter crescido. Inicialmente, o filme seria ambientado numa casa qualquer, mas a carvoaria anexada ao pequeno prédio alugado se tornou onipresente.

É nela onde está Maeve Jinkings, atriz que faz a protagonista, na maior parte de suas cenas. Chefe de sua família, diante da inércia de seu marido -machão, mas desinteressado em arrumar um emprego-, ela se divide entre o trabalho, as tarefas domésticas, a criação do filho e o cuidado com o pai acamado.

Quando uma funcionária do posto de saúde próximo chega para trocar o tanque de oxigênio do idoso, ela faz uma proposta indecente --Irene, a protagonista, pode se livrar de uma parcela da rotina extenuante e ainda ganhar uma grana com isso, basta matar o pai e receber, em seu lugar, um traficante foragido. Sem nem pensar muito, ela sela o acordo.

"Hipocrisia é a palavra para esse filme. Falamos de uma família que sustenta uma fachada que não corresponde à realidade", diz Markowicz. "A Irene é uma mulher que segue uma performance social. Seu marido é o chefe de família, mas na verdade ela ganha o sustento. E ela também tem seus desejos e sonhos, quer se divertir um pouco."

É por isso que a protagonista decide receber o estranho em sua casa. Não demora muito para que ela se insinue sexualmente para ele, chegando a colar uma foto sua jovenzinha na parede ao lado de sua cama -sem se preocupar que filho ou marido descubram a intenção de adultério.

Aquela parece ser uma família unida, mas as paredes da carvoaria não apenas escondem um traficante -e a decisão de matar um parente para receber dinheiro-, como também uma mulher frustrada sexualmente, um filho largado e mal educado e um pai que se cobriu de machismo para mascarar sua homossexualidade e que, de tempos em tempos, transa com o vizinho no sofá, num beliche e até na garupa de uma moto.

A ideia de performance social foi bastante presente na infância de Markowicz, que em seu prédio em Bragança Paulista ouvia as fofocas sobre o vizinho que era gay enrustido, por exemplo, entre tantas outras que estavam por trás de um falso moralismo latente.

"O modus operandi das pessoas do interior sempre me fascinou. É um universo muito rico narrativamente, porque dentro de casa as pessoas são diferentes do que elas são na rua", afirma.

"Nos últimos anos, com a escalada conservadora que testemunhamos, essa moral elástica passou a fazer muito mais sentido. Nela, tudo é justificável em prol da família tradicional brasileira e de Deus. Em Bragança havia uma mãe com um filho que foi preso por tráfico e outro que era gay. Adivinha com quem ela não parou de falar?"

A resposta é com o que estava envolvido no tráfico, já que a homossexualidade era uma desonra maior, imperdoável, naquele ecossistema em que, conta a cineasta, o objetivo de todos era se aproximar das famílias de comercial de margarina.

"Carvão" foi exibido no Festival de Toronto, no do Rio de Janeiro e na Mostra de Cinema de São Paulo e, agora que alçou voo, deixou Markowicz com tempo para finalizar um outro filme que se debruça sobre temas parecidos, a ser lançado no ano que vem.

"Pedágio", conta ela, vai se passar em Cubatão, também em São Paulo, e vai acompanhar uma outra mãe que se subordina a absurdos para poder manter as aparências. A personagem não aceita o filho gay e, então, pensa em maneiras de conseguir dinheiro para conhecer um pastor estrangeiro que se diz capaz de "curar" a homossexualidade do rapaz.

É um relato ácido que tenta encapsular toda a perseguição conservadora que vem acontecendo contra a população LGBTQIA+ no Brasil. Os temas se repetirão ainda em "O Funeral", que a cineasta atualmente escreve.

CARVÃO

Quando Estreia nesta quinta (3), nos cinemas

Classificação 18 anos

Elenco Maeve Jinkings, César Bordón e Rômulo Braga

Produção Brasil, Argentina, 2022

Direção Carolina Markowicz