'Cartas da Prisão' usa paixão por serial killers para discutir relações abusivas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O que leva centenas de mulheres a escreverem cartas de amor para um serial killer condenado pelo estupro e morte de 40 vítimas? Quem são essas mulheres e o quanto estão distantes de nós? E o quanto delas está dentro de nós?

A peça "Cartas da Prisão", que reestreia virtualmente em segunda temporada, descortina de forma corajosa os diferentes tipos de abuso presentes nas relações humanas, desde o medo asfixiante da solidão até a alienação dos envolvidos, que passam a normalizar e a justificar a violência.

"Cartas da Prisão" nasceu da vontade da atriz Chica Portugal e da dramaturga e roteirista Nanna de Castro de ajudar uma amiga a sair de uma relação tóxica. A temática não era nova. Desde 2018, Chica pesquisava relacionamentos abusivos --ela criou o projeto À Meia Luz, centrado na violência contra a mulher por meio de várias frentes artísticas.

As amigas se debruçaram em livros e depoimentos reais, e viram que esse tipo de violência não se limita a relações amorosas, mas pode estar presente também na dinâmica entre pais e filhos, no trabalho e entre amigos.

Na peça, apresentada por um vídeo documental cênico dirigido por Bruno Kott, Chica vive quatro personagens. Uma delas é M, de 42 anos, casada, com uma filha e que, na solidão de sua vida, troca correspondências amorosas com um homem que conheceu nos jornais, após ele ser preso pelo estupro e morte de 40 mulheres.

As cartas são inspiradas nas milhares de correspondências enviadas a dois dos maiores criminosos sexuais do país, Francisco de Assis Pereira, o 'Maníaco do Parque' --preso em 1998--, e Tiago Henrique Gomes da Rocha, o 'Maníaco de Goiânia' --preso em 2014.

Outra personagem é Rita, uma jovem atriz frustrada ao ver a mãe sem forças para se insurgir contra as agressões verbais do pai. "O marido nunca bateu nela, mas a depreciava o tempo todo. Todo mundo foi ficando anestesiado", afirma Rita.

"Ainda hoje muitas de nós normatizam os relacionamentos abusivos. É comum acharmos que esta história é da outra, não nossa. A cura de uma relação tóxica vem da compreensão de sabermos que não estamos sozinhas", diz Chica Portugal.

Nanna de Castro conta que a troca de cartas entre mulheres e criminosos sexuais sempre a intrigou. "É como se o abuso fosse não apenas aceito, perdoado, mas acolhido. Não quero e não posso julgar estas mulheres, apenas convidar o público, a partir desta situação extrema, a refletir sobre nossa convivência com a violência e o desrespeito, não apenas no nível pessoal, mas social", diz.

Psicóloga e autora do livro "Os Sintomas e Hematomas do Amor", Liliane Gomes afirma que o fato de o homem estar preso e a única forma de contato ser a carta leva a uma não realização desse encontro. "O que pode favorecer a manutenção do desejo feminino, numa sociedade que diz constantemente que ela não pode ficar sozinha."

Na primeira temporada, foi comum as pessoas verem repetidas vezes essa mesma peça. "O que aproxima as pessoas de forma mais democrática não é o que elas têm em comum, mas é o vazio, a solidão", diz Bruno Kott.

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CARTAS DA PRISÃO

Quando Seg. a qua., às 20h. Sessão extra na quinta (25), às 20h. Até 1º de dezembro

Onde Canal do Projeto À Meia Luz no YouTube

Preço Grátis

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