Carta pede entrega de diários inéditos de Carolina Maria de Jesus a seus herdeiros

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*** FOTO DE ARQUIVO *** 18/11/1960  Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus. (Foto: Acervo UH/Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** 18/11/1960 Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus. (Foto: Acervo UH/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pesquisadores publicaram nesta sexta (19) uma carta de repúdio à declaração de Juliana Dantas, herdeira do jornalista que ajudou Carolina Maria de Jesus a publicar seus escritos, de que não pretende permitir pesquisas no acervo do pai por parte da Companhia das Letras e do Instituto Moreira Salles, o IMS. Enquanto a primeira reedita a obra da autora, o segundo exibe uma exposição sobre ela na sua sede paulistana.

Juliana acusa ambas as iniciativas de terem invisibilizado a atuação de seu pai, Audálio Dantas, na trajetória de Carolina, sem que tenham demonstrado interesse em consultar os herdeiros do jornalista ou em se aprofundar no seu acervo. Lá estão três diários inéditos de Carolina, escritos entre 1960 e 1961, segundo informação que veio a público na última terça-feira (16) em texto o jornalista Tom Farias, biógrafo de Carolina, para o jornal O Globo.

A carta de repúdio, assinada pelo Grupo de Pesquisas Decoloniais Carolina Maria de Jesus, pelo Grupo de Pesquisa Literatura, Alteridade e Decolonialidade (GPLADe), pelo Laboratório de Tradução da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e pelo Grupo de Pesquisa Marginália Decolonial expressa "enorme preocupação e indignação" diante da decisão de Juliana.

O texto afirma que a filha de Dantas ignora "os direitos autorais pertencentes a família VIVA de Carolina de Jesus". E que impedir o acesso das duas entidades ao acervo de Audálio Dantas configuraria um "epistemicídio" e "só reforça a ideia patercolonial de que uma mulher só pode existir a partir de seu senhor, nesse caso, seu 'descobridor', mantidos sob a tentativa de perpetuação de estruturas de poder e dominação". "Por essa razão, exigimos o imediato retorno de tudo o que for de Carolina de Jesus, que esteja em sua posse para as mãos da filha Vera Eunice Lima de Jesus", completa a carta.

Confrontada com a carta de repúdio, Juliana afirmou, em nota, que seu único objetivo é limpar a imagem de seu pai. "Não reivindico centralidade de Audálio Dantas nesta história; a centralidade é, sem dúvida, de Carolina. Porém, não posso tolerar que injustiças sejam cometidas."

"Audálio Dantas não é o antônimo de Carolina Maria de Jesus. E Carolina não precisa de antagonistas para ser protagonista —sua história e sua obra já a fazem grande e inteira. Assim como a história e a obra de Audálio", afirma.

Ela relembra os feitos na carreira de Audálio, que foi "o responsável por denunciar, sob o AI-5, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura" e foi "um dos responsáveis pela reabertura democrática brasileira".

Juliana diz não saber se alguém pode exigir legalmente que os cadernos sejam retirados do acervo do Audálio. "Não brigarei por nada que não seja nosso direito", afirma.

Até o momento, supunha-se que todos os diários de Carolina de Jesus tivessem sido entregues à Biblioteca Nacional, em 2011. Mas Juliana conta que, segundo a sua mãe, Audálio decidiu guardar esses cadernos como prova contra as acusações que recebia do crítico literário Wilson Martins de que teria forjado a escrita da autora. Não se sabe, no entanto, o motivo de o jornalista ter escolhido esses três diários em específico.

Segundo Farias, os diários encontrados reforçam a ideia de que o convívio entre Carolina de Jesus e Audálio Dantas foi marcado por parcerias, mas também por desavenças e disputas por dinheiro. Juliana afirma que os documentos do acervo, que ainda inclui cartas, fotografias, balanços financeiros, contratos, relatos, recortes de jornais e procurações, vêm sendo analisados aos poucos.

*

CONFIRA A ÍNTEGRA DA NOTA DE REPÚDIO E A RESPOSTA DE JULIANA DANTAS

CARTA DE REPÚDIO

"Nós, do Grupo de Pesquisa Decoloniais Carolina Maria de Jesus, GPLADe- Grupo de Pesquisa Literatura, Alteridade e Decolonialidade, Laboratório de Tradução da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e Grupo de Pesquisa Marginália Decolonial, vimos a público manifestar nossa enorme preocupação e indignação com as declarações publicadas a respeito da localização de documentos inéditos de Carolina Maria de Jesus, sob posse da filha do jornalista Audálio Dantas, Juliana Dantas. Essa informação foi publicada como "Com cadernos, relatórios e cartas, acervo inédito da escritora Carolina Maria de Jesus é descoberto" no dia de hoje (17/11/2021) no jornal O Globo que, citando a filha de Audálio, diz que ela, insatisfeita com a forma com a qual seu pai vem sendo retratado, leia-se, sem o devido destaque e centralidade que ela julga que ele deveria ter, se recusa a fornecer três cadernos inéditos, cartas,contratos e fotografias da escritora. São diários escritos entre 1960 e 1961 e que compõem o espólio literário de Carolina de Jesus e que pertencem, portanto, legalmente aos seus herdeiros legais. Mesmo diante da evidência de que registros textuais não possam ser modificados de acordo com interesses particulares, outra vez por processos de compilação e silenciamento da autoria da escritora Carolina Maria de Jesus, a herdeira de Audálio Dantas, vem se manifestando nas redes sociais com frequência, afirmando a necessidade da importância de Audálio Dantas nos debates e nas publicações referentes à autora. E, ignorando os direitos autorais pertencentes a família VIVA de Carolina de Jesus, afirma que irá publicar cadernos manuscritos da autora, documentos estes, que não foram devolvidos à família em 2011, quando o jornalista entregou a maior parte do material dos cadernos de Carolina de Jesus para a Fundação Biblioteca Nacional, contabilizando 14 cadernos autógrafos e algumas fotografias.

No nosso entendimento, esses três cadernos, as fotografias, os contratos com editores e as cartas de Carolina de Jesus não pertencem a ela, mas sim à família da escritora, em primeiro lugar, além de constituir um patrimônio histórico e cultural brasileiro. Como estudiosos e leitores de Carolina de Jesus, entendemos também que qualquer texto da autora mineira é um documento de trabalho e apreciação fundamental de sua literatura. A memória textual da escritora deve receber o devido respeito como todo grande autor ou autora, independente de sua classe, raça ou gênero.

A escritora Carolina de Jesus escreveu para ser lida por um público mais amplo e não para ficar guardada dentro de gavetas a bel prazer do interesse pessoal, alheio aos seus familiares. Carolina de Jesus cedeu de boa fé esses textos para o jornalista Audálio Dantas à época para que ele a ajudasse a publicá-los, mas em momento algum deu esses cadernos para ele. Por essa razão, exigimos o imediato retorno de tudo o que for de Carolina de Jesus, que esteja em sua posse para as mãos da filha Vera Eunice Lima de Jesus.

Essa ação visa sanar uma dívida histórica, não apenas com Vera Eunice e demais herdeiros de Carolina de Jesus, mas com toda população brasileira que aguarda por anos o acesso às narrativas da escritora e respeito a sua produção intelectual. Manter seus escritos engavetados é uma das formas de sua manutenção no ostracismo, no qual a autora já sofreu por décadas. Além disso, configura- se como perpetuação do epistemicídio, como bem nos ensinou Sueli Carneiro, infelizmente ainda tão em em voga no Brasil, e que só reforça a ideia patercolonial de que uma mulher só pode existir a partir de seu senhor, nesse caso, seu "descobridor", mantidos sob a tentativa de perpetuação de estruturas de poder e dominação.

Brasil, 17 de novembro de 2021."

RESPOSTA DE JULIANA DANTAS À CARTA DE REPÚDIO

"Resposta à Carta de Repúdio do Grupo de Pesquisa Decoloniais Carolina Maria de Jesus, GPLADe- Grupo de Pesquisa Literatura, Alteridade e Decolonialidade, Laboratório de Tradução da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e Grupo de Pesquisa Marginália Decolonial

Antes de mais nada, agradeço por ter acesso a esta Carta de Repúdio que amplia a nossa possibilidade de diálogo e esclarecimento dos fatos. Expresso o meu respeito pelo trabalho e luta de vocês.

Não reivindico centralidade de Audálio Dantas nesta história; a centralidade é, sem dúvida, de Carolina. Porém, não posso tolerar que injustiças sejam cometidas.

Tive contato com estes documentos pela primeira vez quando abri a minha casa para acesso irrestrito do Instituto Moreira Salles em 2019, quando havia a ideia de fazer uma exposição sobre Carolina. À época, meu pai havia morrido havia um ano. Lá estiveram João Fernandes, diretor-artístico do IMS, e os dois curadores da mostra que está em cartaz, Hélio Menezes e Raquel Barreto.

Passamos horas e horas de um único dia debruçados sobre estes documentos, num encontro muito agradável, mas que só ocorreu esta vez. Dali, definiríamos uma maneira de inventariar todo o material e entregar para o IMS, para que ficasse à disposição do público, como acreditamos ser o correto.

Esta negociação nunca se concretizou e logo veio a pandemia. Não houve mais contato.

Voltei a me debruçar sobre este material quando houve a necessidade de me defender das insinuações que constam nas novas edições da Cia. das Letras.

A primeira decisão que tomei foi acionar o Tom Farias, biógrafo de Carolina Maria de Jesus e que, ao meu ver, é o profissional que mais entende de Carolina no mundo.

Todo o material está em fase de análise dele, há quase três meses. Não há negligência, é exatamente o contrário. É ele que está catalogando, cruzando informações, datas, contextos. Os três cadernos que temos foram descobertos como inéditos justamente neste processo que está sendo feito pelo Tom. Eu nunca os li.

Eu não tenho a intenção de publicá-los e nem tenho esse direito. A documentação é vasta e, sob orientação do Tom, que eu considero definitiva, tomarei as providências devidas para o encaminhamento futuro dos documentos. É um trabalho que só está começando.

O que disse que não farei é colaborar com instituições que não abriram diálogo conosco ou mesmo fecharam o que já havia.

Saliento que enquanto Carolina foi esquecida por décadas foi Audálio que levou o nome dela adiante. Nunca se recusou a falar a respeito. Dava palestras e entrevistas nacionais e internacionais, para imprensa, para TCCs, para ensino médio, ensino fundamental. Sempre com reverência, respeito e carinho.

Acho excelente que de uns anos pra cá uma coletividade tenha acordado para a importância de Carolina.

Vale lembrar que Audálio Dantas não tem essa única passagem da carreira dele, pelo contrário. Foi, por exemplo, o responsável por denunciar, sob o AI-5, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura. Foi um dos responsáveis pela reabertura democrática brasileira. Dizia de maneira recorrente, entretanto, que a Democracia não havia chegado às comunidades, sobretudo para homens negros e pobres.Audálio foi um homem de luta, de retidão, voltado para os Direitos Humanos e incapaz de se aproveitar de quem quer que fosse.

Audálio Dantas não é o antônimo de Carolina Maria de Jesus. E Carolina não precisa de antagonistas para ser protagonista —sua história e sua obra já a fazem grande e inteira. Assim como a história e a obra de Audálio.

Não tenho interesse algum em esconder Carolina, pelo contrário. Entretanto, me vi no papel de precisar honrar a memória de uma pessoa que teve quase 70 anos de carreira e, agora que morreu há três, está sendo atacada sem a chance de se defender. Tudo o que eu tenho são estes documentos que, em momento oportuno, virão a público.

Estou plenamente aberta ao diálogo, não estamos em lados opostos.

Obrigada pela oportunidade.

Abraços,

Juliana Kunc Dantas

São Paulo, 18 de novembro de 2021"

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