Carne de ganso e festa só em janeiro: veja como é o Natal pelo mundo

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Por: Ronia Alves-Kriskó, colaboração para o Yahoo.

Está chegando o dia mais saboroso do ano, o Natal. Noite de reunir a família e festejar trocando presentes, comendo peru recheado, arroz com uvas-passas (sim!), salpicão, rabanadas e pavê de chocolate e creme. A tradição da ceia brasileira é uma deliciosa mistura das cozinhas dos nossos colonizadores e dos imigrantes. Mas já parou para pensar como data é comemorada ao redor do mundo? Selecionamos alguns países com pratos e costumes bem diferentes dos nossos.

Costela de porco pururucada e biscoito de gengibre na Noruega

Foto: Ronia Alves-Kriskó

A celebração começa no dia 23 de dezembro com almoço em que é servido risengrynsgrøt, conhecido pelos brasileiros como arroz-doce. A receita leva chuva de canela e uma colherada generosa de manteiga. Durante o preparo é adicionado uma amêndoa e o sortudo que encontrá-la no prato ganha de presente um porquinho de marzipã.

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A ceia é na noite seguinte, no dia 24, em cada região do país são preparadas diferentes carnes, como costela de porco, cordeiro ou bacalhau. Na casa da norueguesa Irene Vestrum, em Larvik, a duas horas de Oslo, vão à mesa costela de porco pururucada, rocambole de carne e almôndegas guarnecidas com salsichas, chucrute, repolho roxo, minibatatas e cenouras cozidas. O molho típico dessa época é com Lingonberry, frutinho vermelho da mesma família do cranberry.

Como sobremesa uma fartura de sorvetes e, ainda, os famosos kransekake (biscoitos de amêndoas amontoados em formato de pinheiro), krumkake (fino waffle enrolado e recheado com creme). Também é muito popular a casinha de biscoitos de gengibre, adornada com doces.

Natal na Rússia só em janeiro e com carne de ganso

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O Natal foi banido como feriado religioso na época da União Soviética. Contudo, após a dissolução do grupo, em 1991, a população ficou livre para celebrar a data. Em todo o país, a festividade cristã é comemorada no dia 7 de janeiro. A data é diferente porque a Igreja Ortodoxa Russa segue o calendário Juliano, criado pelo líder romano Júlio César no ano 46 a.C, que está sempre 13 dias atrás do Gregoriano. Segundo a agência russa de notícias Itar-Tass, apenas 6% da população festeja o Natal no dia 25 de dezembro.

O banquete na casa da russa Tatiana Novikova – que vive em Voronej, a 500km da capital Moscou – é regado a carne suína, bifes e assados de aves – como frango e ganso -, escoltados por purê de batata e uma grande variedade de saladas com maionese. Segundo ela, os acompanhamentos mais populares são salada russa (cubos de legumes), salada de arenque (camadas do peixe em conserva, coberto com batata, cenoura e beterraba) e salada mimosa (camadas de conserva de peixe, ovos, queijo e cenoura). Há ainda pratos que levam cereais, grãos e dumplings – massa que se parece com o italiano ravioli – sempre recheado com algum tipo de carne moída.

Como sobremesa, os lares ortodoxos mais rígidos consomem apenas punhado de nozes e frutas secas ou em compota. Mas é possível encontrar biscoitos de gengibre, como o archangel kozulya – em formato de veado, ovelha ou cabra e condimentado com canela, cravo e cardamomo – e pryaniki que combina açúcar mascavo, mel e especiarias.

Na Hungria são três dias de festa com sopa de pescado de água doce e leitão

Na terra da páprika, as festividades duram três dias. Assim como no Brasil, a ceia é na noite do dia 24. O tradicional jantar húngaro é regido por halászlé, uma sopa de ponty (carpa, em português). O pescado de água doce é bem gorduroso, já que sobrevive nos lagos congelados durante o inverno. No caldeirão para o ensopado são adicionados tomates, pimentões e uma generosa porção de páprica picante. As sobremesas importantes e populares são pães embebidos em leite morno e rocamboles, chamados makos bejgli, à base de semente de papoula com cremes de baunilha, nozes ou cereja.

A festa continua nos dias 25 e 26, com fartas refeições com sült malac (leitão inteiro assado) e töltött káposzta (uma mistura de banha de porco, carnes e arroz fechadas em folhas de repolho), escoltados por batatas, legumes cozidos e creme azedo.

Na Índia a festa é singela, mas tem bolo de esponja

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Em comparação a outras celebrações religiosas, o Natal é uma festividade bem pequena, o número de cristão no país não ultrapassa 2,5%. Em 2013, o nativo Goutham Kondappati Chandiran foi convidado a um almoço natalino na casa de um amigo que vive em sua terra natal Madras, no sul da Índia. “O banquete foi singelo com variedade de samosas, macarrão de arroz e curries. A refeição girou em torno do bolo esponja — equivalente ao nosso bolo de pão de ló –, que para os indianos equivale ao tradicional peru”, contou.

Na Inglaterra tem peru e comida regadas com bebidas alcoólicas 

A ceia dos ingleses é servida na tarde do dia 25, seguida pelo feriado Boxing Day, comemorado no dia 26. O rei da festa é o peru recheado, mas há também presunto, carne assada, salsichas envoltas em bacon (que na Escócia são chamadas de salsichas de kilt). Como acompanhamentos, o clássico Yorkshire pudding (um tipo de bolinho salgado feito com farinha de trigo), couve de bruxelas, batatas e pastinaca (parece uma cenoura branca com sabor doce anisado). Tudo isso coberto com molho gravy – feito com o sumo dos assados.

Para finalizar, Christmas cake ou Christmas pudding, os ingredientes são basicamente os mesmos, frutos secos marinados em conhaque ou rum. A diferença entre eles é que o primeiro é assado no forno como bolo e outro cozido no vapor. Há ainda, mince pie (mini-tortinhas recheadas com frutos secos e especiarias) e trifle (camadas de pão de ló embebido em vinho fortificado, combinados com frutas, geleias e topo de chantilly).

Na República da Coreia bolos de sorvete com base de batata-doce

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Há mais cristãos na Coreia do Sul do que em outros países asiáticos, como China e Japão, então o Natal é comemorado amplamente por ali, ficando atrás do Chuseok, Dia de Ação de Graças Coreano.

“É uma festa relativamente nova no país, não há um cardápio de pratos típicos”, diz a coreana de Seul Sabrina Kim. Segundo ela, a data é romântica, como o Dia dos Namorados. Ao invés de reunião familiar, amigos e casais se encontram para comer bolos ou tortas, beber drinques e soltar a voz nos karaokês. “Cheesecake e bolos de sorvete ou à base de batata-doce são os mais procurados”, afirma Kim. O ato litúrgico é entre os adultos que vão à missa na véspera do Natal e na manhã seguinte (25) que é o único dia de feriado.

Na Austrália frutos do mar predominam

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Embora a festa australiana compartilhe semelhanças e tradições britânicas, o verão por ali torna a época festiva uma experiência única com sabores que vêm do mar. Assim como na Inglaterra, a celebração é um almoço dia 25.

Segundo Ricardo Chaves, brasileiro que vive em Sidney, dentre os pratos salgados estão salmão defumado, camarão ao molho, ostras, lagostas e um sem fim de saladas frescas à base de folhas verdes ou macarrão.

“As sobremesas são uma atração à parte”, afirma o brasileiro. À mesa são servidos os britânicos Christmas pudding e mince pie, a australiana pavlova (merengue com frutas vermelhas) e biscoito de gengibre. “Tudo isso regado a muito vinho branco com limonada”, conclui.

Na Polônia sopa de beterraba preparada uma semana antes

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Como no Brasil, a ceia é um jantar no dia 24. O banquete começa com barszcz, uma sopa de beterraba – também amplamente conhecida na Rússia, Romênia e Ucrânia. A receita é preparada com uma semana de antecedência, já que o prato requer uma base ácida. Por isso as beterrabas fatiadas devem ficar de molho em água com alho para fermentação. Depois desse período é adicionado caldo leve de cogumelos e legumes. A sopa é servida com dumplings recheados com cogumelos porcini.

O centro da festa é a carpa, tradição culinária no país desde a Segunda Guerra Mundial. O peixe é escoltado por chucrute, cogumelos secos e salada de legumes. Outra variação do prato foi inserida na Polônia pelos judeus. Uma sopa do pescado com geleia de cebola, amêndoas, uvas-passas e pão.

Os bolinhos pierogi – massa de farinha em formato de meia-lua – entram na ceia em duas versões: salgado com recheio de repolho e cogumelos ou doce com ameixas e sementes de papoula. Entre os doces há também kutia, uma mistura de grãos de trigo cozidos e não processados, papoula, mel, frutas secas ou cristalizadas embebidas em vinho do porto. A massa nozes, amêndoas e grãos de girassol.

Em Israel biscoitos com vinho e licor

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Nos lares palestinos a ceia também é no dia 24. As cozinhas perfumam a casa com assados de costela de cordeiro e de porco, kebab, bifes de frango e kubba – conhecido pelos brasileiros como charuto – mas ao invés de repolho são usadas folhas de uva envolvendo arroz a carne bem temperada. Os acompanhamentos são tahine, tabule, salada árabe, babaganoush, cogumelos, matbucha (cozido de tomate e pimentão assado, alho e pimenta malagueta), batatas fritas e pão.

Como sobremesa biscoitos mamoul e ghraybeh. Ambos são feitos com massa amanteigada de semolina, a diferença é que o primeiro é leva água de rosas e especiarias – e por vezes é recheado com pistache e nozes. Já o outro é aromatizado com flor de laranjeira e nozes.

Uma tradição entre os palestinos é presentear com chocolates em formato de Papai Noel cheios de licor, vinho doce ou arak – um aperitivo de anis alcoólico.

Muito porco na Romênia

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A especialidade da cozinha romena no Natal é a carne de porco. No jantar do dia 24 são compartilhados pratos como toba (estômago recheado com partes gelatinosas dos pés, pele e carne da cabeça do suíno. Todos os ingredientes são cozidos, cortados em pequenos cubos e envoltos em aspic), muschi (carne suína enrolada recheada com bacon e cogumelos), caltabos (salsicha de fígado com arroz, cebola e especiarias), piftie (perna de porco defumada mergulhada em aspic), sarmale (carne moída arroz, cebola e tomate enrolados na folha de repolho). As guarnições passeiam entre polenta, creme de nata ácida e seleção de conservas como pepino, couve-flor, cenoura, pimentão, repolho, tomates verdes ou fatias de melancia. Um dos destaque entre os doces é o pão cozonac, recheado com creme de nozes.