Enredos premiados no Rio e em SP mostram que a essência do Carnaval é a resistência

(Gilson Borba/NurPhoto via Getty Images)

Não se pode dizer que é por falta de animosidade que é realizado, todos os anos, o Carnaval.

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No ano passado, com pouco menos de dois meses no cargo, o presidente da República vociferou contra a festa popular com o famoso vídeo da golden shower, lamentando que os blocos haviam se transformando em correntes de perversão.

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Neste ano, o mesmo presidente fez de tudo para melar a folia enquanto preparava, em sua trincheira, uma ofensiva contra o Parlamento.

Bolsonaro só pensa naquilo. E, aparentemente, não gosta de foliões - que não gostam dele, como se viu em inúmeras manifestações contra as hostilidades e caretices que seu mandato representa.

Durante a festa deste ano, Bolsonaro surgiu aqui e ali em fantasias como a levada à avenida por Marcelo Adnet, que falava de fake news enquanto imitava as flexões igualmente fakes do chefe do Executivo. Entrou para a História da festa.

Mas vem das escolas campeões do Rio e de São Paulo o melhor recado das ruas para os arquitetos da destruição em curso.

Na capital paulista, a Água de Ouro levou o troféu, pela primeira vez, com um enredo que apresentava a evolução do conhecimento humano, da Idade da Pedra até os robôs. Em um dos carros o homenageado era Paulo Freire, educador respeitado no mundo inteiro e que por aqui é chamado de energúmeno pelo presidente que hesita em demitir seu ministro “imprecionante” da educação. Retratado com um boneco e um livro, o legado do filósofo podia ser lido em uma frase: "Não se pode falar da educação sem amor".

A frase deixava claro: o que transborda na avenida é exatamente o que falta nos gabinetes presidenciais. 

Já no Rio, o enredo "Viradouro de alma lavada" trazia a história das Ganhadeiras de Itaupã, uma geração de mulheres que lavavam roupa na Lagoa do Abaeté e faziam diversos serviços em Salvador para comprar a sua alforria.

Era uma mensagem potente e atualizada às mulheres que ainda hoje têm a liberdade, a competência e a integridade contestadas e ameaçadas.

O troféu foi erguido no mesmo dia em que outra jornalista era alvo de milícias virtuais por ter revelado que o presidente compartilhara um vídeo/convocação de atos contra o Congresso pelo WhatsApp.

Como estes, inúmeros recados podiam ser lidos, nas entrelinhas ou de maneira escancarada, pelas ruas durante a folia. 

O Carnaval, contra todas as forças contrárias (ou justamente por conta dela) foi um sucesso, e não é à toa que incomode tanto os que preferem o silêncio. 

Carnaval não é Carnaval sem resistência. E não há nada mais subversivo do que a alegria de uma multidão quando se reúne.

No ano que vem (e no outro, e no outro) essa resistência poderá ser vista novamente, e de novo, e de novo. O bloco passará, com outros temas, outros arranjos, outros recados — que também, um dia, passarão. E seus homenageados serão lembrados apenas como uma passagem desbotada nas páginas infelizes da nossa história.