Carnaval no inverno ameaça reinado dos biquínis na Sapucaí

Célia Costa
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Leo Martins / Agência O Globo

Os biquínis diminutos vão marcar presença, como sempre, mas, no próximo carnaval, vão ter que dividir a Sapucaí com fantasias de veludo e de pelúcia. E carnavalescos garantem que a mistura inusitada não vai atravessar o samba. Para eles, o primeiro desfile oficial no inverno — a apresentação, prevista para fevereiro, foi adiada para julho, caso já haja vacina, por conta da pandemia de Covid-19—, é uma oportunidade para dar espaço a materiais pouco vistos na folia, normalmente vetados por conta do calor.

Alexandre Louzada da Beija-Flor, diz que a criatividade, em 2021, não terá amarras impostas pelos termômetros:

—É sempre um grande trabalho usar materiais alternativos para amenizar o calor dos componentes. No enredo do ano que vem, que fala do orgulho e da representatividade negra, poderei usar a pelúcia, material que eu gosto, mas evito — diz ele, que não descarta, é claro, que muitos integrantes da escola de Nilópolis saiam com pouca roupa. —Vamos ver também muitos corpos morenos arrepiados no alto dos carros alegóricos. E não será de emoção.Será frio mesmo — brinca.

Louzada ainda lembra outra vantagem da festa não acontecer no verão, como foi nos últimos 89 desfiles oficiais:

— Nem sempre em julho faz frio, mas o mês costuma ser seco. Durante as apresentações, tememos sempre as chuvas torrenciais do verão carioca.

Quem também comemora a possibilidade de usar outros materiais é dupla Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira, que assina o carnaval da Viradouro. Para o próximo carnaval, eles escolheram o enredo “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”, que fala da Belle Époque.

— Esse enredo exige um figurino mais elaborado, com roupas da época. Um material que vou usar, e seria considerado impensável em tempos normais, é o veludo. Ele tem um ótimo apelo visual, mas é sempre evitado por causa do calor. — disse Tarcísio Zanon, que continua trabalhando em home office, pois um incêndio destruiu o barracão da escola, que passa por obras.

Edson Pereira, que assina o carnaval da Vila Isabel, está gostando de trabalhar para o desfile de julho:

— Como vivemos em um país tropical, não temos inverno rigoroso. Pouca coisa muda para o desfile, mas fará diferença para os carnavalescos que gostam de figurinos mais requintados. Faço roupas que contam história no enredo. Elas podem pesar mais um pouquinho, o que é muito incômodo no verão de 40 graus.

Faça frio ou calor, os carnavalescos também dizem que a festa será marcada por uma grave crise financeira.

— A data ainda é incerta, porque depende da vacinação. Se vai ser no verão ou no inverno, ninguém sabe. A certeza é de que vai ser um carnaval sem dinheiro — avalia o campeão deste ano, Leandro Vieira, da Mangueira.

Escolas de samba sem dinheiro

Vieira ainda não definiu o enredo do próximo carnaval. Tem ideias guardadas em segredo. A revelação só será feita quando for batido o martelo sobre a data.Uma plenária da Liga Independente das Escolas de Samba já escolheu os dias 10 e 11 de julho, mas a apresentação está condicionada à existência da vacina.

— Será um carnaval de busca de materiais alternativos. As escolas que não têm patronos, como a Mangueira, estão sem dinheiro. Usar pelúcia ou veludo na Mangueira, nem pensar. Isso custa caro — brinca Leandro Vieira, fazendo referência ao material que os colegas usarão.

A rainha de bateria da Portela, Bianca Monteiro, de 32 anos, diz que, apesar da mudança de data, seu figurino continuará exíguo.

— Já enfrentei temperaturas baixíssimas no carnaval da cidade de San Luis, na Argentina, e mesmo assim não mudei a fantasia. Algumas pessoas passaram mal durante o desfile. O frio do Rio não assusta ninguém. Além disso, é só sambar para esquentar o corpo.