Carnaval se tornou midiático e lucrativo, causando elitização da festa

Festa virou lucrativa com o passar dos anos. Foto: José Cruz/Agência Brasil

A cada ano que passa, é possível observar que as festas de Carnaval estão cada vez mais elitizadas e com mais pompa do que antigamente. Evidentemente, existem blocos e eventos que são grátis ou que não custam quase nada para participar. No entanto, até nas festas de rua é possível observar uma diferença entre quem está trabalhando e quem está se divertindo.

Segundo José Maurício Conrado, especialista em Carnaval e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, esse processo que pode ser observado hoje em dia começou há muito tempo. De acordo com ele, essa elitização da festa teve início quando o governo percebeu que a data poderia se tornar lucrativa e a transformou em um evento turístico.

“A gente tem que pensar que o Carnaval é uma festa popular. Então, a História mostra que a igreja católica a trouxe para dentro do calendário dela porque não podia mais controlar. Aí estamos falando desse Carnaval mais medieval. O Brasil recebeu o Carnaval por meio dos portugueses e, quando chegou aqui, ele deu certo”, afirma o especialista.

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Chegando no País, a festa passou a fazer muito sucesso. Porém, Conrado explica que ela passou a sofrer algumas modificações para se tornar mais “civilizada”. “Tinha arremesso de frutas podres, por exemplo. A ideia de usar serpentina e confete já é um traço que a gente percebe esse processo”, explica.

Depois disso, o professor explica que o Carnaval passou por outro processo de adequação com a transmissão da festa pela mídia. “Uma coisa que é óbvia é a madrinha de bateria. Você só vê modelos, famosas… por a escola de samba precisar ter uma certa visibilidade, ela coloca essas pessoas como destaque. Então, você tem todo esse processo também associado à uma transmissão da festa”, diz.

Sendo assim, ele constata que existe um afastamento gradativo da festa em relação às camadas mais populares da sociedade. No entanto, ele lembra que existe a necessidade de pessoas para construir o Carnaval e colocar toda a estrutura de pé para o dia do evento propriamente dito.

“O Carnaval virou um grande negócio. Quando eu transformo a comemoração em algo rentável, só aqueles que têm grana conseguem participar. Como resposta a esse fenômeno, nós temos os blocos de rua, que é uma resposta a isso. É um jeito muito mais barato de você brincar”, afirma o especialista.

No entanto, mesmo dentro dessa alternativa criada de forma espontânea pela população, não é raro ver que a população negra, pobre e periférica aparece nos blocos muito mais para trabalhar do que para curtir a festa. “Mas a gente tem que tomar cuidado para não criar uma polarização. As pessoas que constroem a festa também brincam”, diz.