"Saída do armário" de Carmo Dalla Vecchia se cruza com a minha e a sua história

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Carmo Dalla Vecchia (Foto: Reprodução/TV Globo)
Carmo Dalla Vecchia (Foto: Reprodução/Globo)

Por Matheus Albino

Se olharmos as crianças de hoje e perguntarmos: "Como deveria ser a adolescência ideal pra elas?". A resposta que mais nos conforta é pensar que os adolescentes têm o direito a um lar digno e acolhedor com uma família amorosa que os ajudem a lidar com as mudanças físicas que estão por vir, ao turbilhão de emoções da juventude, as primeiras relações íntimas com os outros, as dúvidas sobre as escolhas profissionais… Dúvidas essas que logo vão virar lembranças nostálgicas.

Há porém aqueles que carregam "pesos" adicionais: as mulheres, as pretas, os pobres, os LGBTQIA+, os imigrantes… Cada um à sua maneira carrega o fardo que o seu meio lhe impõe, que os outros lhe impõem. Para pessoas como eu, gay-cis-branco (e com alguns privilégios), esse "fardo" aparece bem cedo.

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Carmo Dalla Vecchia contou na TV aberta sobre sua sexualidade apenas em 2021, mesmo tendo estreado seu trabalho como ator em 1995, 26 anos depois de ter aparecido publicamente para o telespectador brasileiro. Carmo e o autor de novelas João Emanuel Carneiro têm um relacionamento estável há mais de 10 anos. A relação é conhecida no meio artístico, mas nunca foi algo falado. E a pergunta que todos devem fazer é por quê?

No meu caso, eu não demorei pra entender o que estava acontecendo, mas me preocupava em como eu ia lidar com aquelas mudanças e com minha sexualidade, principalmente estando em um meio tão conservador, reacionário e religioso como o interior paulista sabe ser, e tantos outros lugares do Brasil.

Minha solução na época foi me isolar. Por anos evitei saídas com os amigos com medo de ser confrontado sobre minha sexualidade. A masculinidade tóxica impõe que você saia "pegando geral" assim que a oportunidade surgir, mas sabia que eu não conseguiria me forçar a estar com alguém apenas por pressão alheia.

O caminho típico de muitas pessoas como eu é se apegar a uma causa que aparente ser mais nobre. Quando me perguntavam das "namoradinhas" eu rapidamente respondia que estava focado nos estudos. Para convencer os demais adicionei uma pressão extra a já difícil adolescência e passei a me cobrar mais e mais nas coisas que eu me propunha a fazer: ser o melhor aluno da sala, ser o melhor filho possível, ser o mais engraçado da turma, ser o mais bem sucedido pessoal e profissionalmente.

Um caminho típico de quem é oprimido. Afinal, não basta ser humano, tem que ser o melhor em tudo pra poder "compensar" a cobrança social que vai vir do grupo opressor

"Sair do armário"

Não adiantou muito. Pra mim a cobrança veio pesada quando fui arrancado do armário. Não adiantou muito eu ter me destacado como bom filho, bom amigo, bom estudante.

Meu episódio aconteceu quase ao mesmo tempo em que eu me mudava de cidade e assumia meu primeiro emprego formal. Meu pensamento seguinte foi: "Se minha família não me aceita bem, quem iria?". Em 2011 as discussões sobre sexualidade ainda engatinhavam e não se via representatividade nos espaços de destaque como existe hoje, por isso optei por esconder no meu novo local de trabalho quem eu era.

Fugia de perguntas sobre minha vida pessoal. Estava preocupado demais em primeiro mostrar que eu era um bom profissional, confiável e capaz. Depois que conseguisse isso, daí haveria tempo pra revelar mais sobre mim.

Os medos da rejeição e opressão que começam na adolescência às vezes nos perseguem até a fase adulta. Esses medos sempre estão a espreita.

Provavelmente hoje eu tomaria decisões diferentes sobre como lidar com minha sexualidade no passado, basicamente porque temos maior representatividade do que há 10 anos atrás e me sentiria mais confiante em fazê-lo.

Eu tive a sorte de ter conquistado minha "liberdade" como pessoa LGBTQIA+ por conta dos meus privilégios e condições de vida, além do trabalho árduo, incansável e infinito de gerações de lésbicas, gays, bissexuais e trans que vieram antes de mim e exigiram direitos.

Mas como o Brasil e o mundo ainda são lugares pouco seguros para pessoas como eu, não se pode esperar que todos saiam gritando aos quatro ventos suas orientações sexuais ou cobrando um ativismo. Cada indivíduo tem sua história, sua hora e suas condições e nem todos podem ser ativistas ao mesmo tempo.

Aqueles que têm condições de atuar na militância e usar seus privilégios e espaços de poder em prol das populações vulneráveis, devem sem dúvida trabalhar nisso em prol dos que não tem essa mesma chance para que no futuro conversas sobre "assumir-se lésbica/gay/bi/trans" sejam desnecessárias. 

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