Carlos Ghosn diz ter sido vítima de complô: 'não fugi da justiça, fugi da injustiça'

Foto: AP/Maya Alleruzzo

Em uma entrevista coletiva realizada na manhã desta quarta-feira (8) com jornalistas do mundo todo em Beirute, na capital do Líbano, o empresário Carlos Ghosn - que fugiu de sua prisão domiciliar no Japão na última semana de 2019 - se defendeu das acusações de corrupção a que responde em Tóquio.

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O ex-presidente da Nissan e da Renault negou que tenha fugido e se disse vítima de um complô promovido por outros executivos das montadoras. “Eu não fugi da justiça, eu fugi da injustiça. Eu não tinha escolha, eu tinha que me proteger e proteger a minha família”, declarou Ghosn.

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Sem dar detalhes sobre a fuga para o Líbano, o empresário disse que é vítima de um complô de executivos da Nissan com promotores do Japão, e que o processo a que foi submetido não respeitou direitos humanos fundamentais.

“Sentia que eu era refém de um país ao qual servi por 17 anos. Liderei uma companhia que estava mal. Fui considerado um modelo no Japão e de repente uns procuradores, uns executivos dizem que sou ganancioso, frio”, declarou Ghosn.

Segundo o empresário, nascido no Brasil, seus colegas na direção da Nissan queriam que ele saísse do comando da empresa após um longo período de queda no faturamento. “Eles acharam que tudo melhoraria [se fosse preso], mas não foi isso que aconteceu”, disse.

O empresário também afirmou que, antes da prisão domiciliar, ficou em “uma cela mínima, sem janelas, com luz sempre acesa, banho duas vezes por semana, interrogatórios podendo ser feitos a qualquer hora, dia ou noite, por até 8 horas”.

A estratégia da acusação, segundo ele, é pressioná-lo a admitir culpa por crimes que ele alega não ter cometido. O executivo também criticou a demora no processo, que ainda não tem data de julgamento. “Eu ia passar cinco anos preso sem julgamento?”, criticou.

Ghosn negou-se a dar detalhes sobre sua fuga para Beirute. "Respeito o Líbano e a hospitalidade do país. De nenhuma forma vou deixar a tarefa deles ainda mais difícil", disse.

“Eu não estou aqui para me vitimizar, estou aqui para jogar luz sobre um sistema que viola os princípios mais básicos da humanidade”, acrescentou Ghosn, citando o sistema judiciário japonês, que também foi alvo de críticas por parte de seus advogados e sua esposa em entrevistas recentes.

Entenda o caso

Carlos Ghosn destacou-se por ter criado um império no segmento automotivo, liderando a aliança Renault-Nissan-Mitsubishi. Em 2016, ele era um dos executivos mais bem pagos entre as companhias japonesas, tendo recebido só da Nissan o equivalente a R$ 33,4 milhões.

Em 19 de novembro de 2018, o executivo, que nasceu no Brasil e tem também nacionalidades libanesa e francesa, foi preso no Japão por supostas violações financeiras - que envolveriam sonegação fiscal e uso de ativos da companhia japonesa para fins pessoais.

Ghosn, então presidente do conselho da Nissan, e outro diretor da montadora, Greg Kelly, foram alvos de uma investigação interna por meses, segundo nota divulgada pela companhia à época das prisões.

Entre outras acusações, a imprensa japonesa divulgou que Ghosn teria gasto US$ 18 milhões de uma subsidiária da Nissan em imóveis de luxo no Rio de Janeiro e em Beirute. As transações teriam sido feitas usando uma empresa de fachada.

No fim de dezembro, uma acusação da promotoria japonesa afirmava que o executivo teria transferido um total de US$ 14,7 milhões da conta de uma empresa afiliada da Nissan para a conta de um conhecido residente na Arábia Saudita. 

A Nissan afirmou também que Ghosn declarou remuneração pessoal inferior à real, e dois relatórios financeiros identificam que ele deixou de declarar mais de US$ 80 milhões em remuneração postergada. A empresa também suspeitava das relações de Ghosn com políticos e empresários brasileiros acusados de receber propinas, como Eike Batista.

Não bastasse essas denúncias, a Renault informou em fevereiro de 2019 que a Procuradoria de Nanterre, na França, havia iniciado uma investigação sobre o financiamento do casamento de Carlos Ghosn no castelo de Versalhes, em outubro de 2016.

No período em que esteve preso e em que surgiram as denúncias, Carlos Ghosn perdeu o comando do conselho de administração da Nissan, foi demitido do colegiado da Mitsubishi e renunciou voluntariamente à direção da Renault.

Ghosn sempre negou as acusações movidas contra ele, alegando perseguição por parte da Justiça japonesa.

Fuga

Ghosn pagou uma fiança de R$ 33 milhões em março do ano passado, após 100 dias de detenção em Tóquio, mas voltou a ser preso semanas depois. Após pagar uma nova fiança, dessa vez de R$ 18 milhões, o ex-chefe das montadoras foi transferido para uma prisão domiciliar, vigiada 24 horas por dia por câmeras.

O empresário fugiu em 30 de dezembro de 2019, levado de sua residência monitorada pela Justiça em Tóquio para um jato particular, com destino à Turquia, continuando de avião para o Líbano, onde recebe hoje proteção do governo por ter cidadania libanesa.