O que Carlinhos Maia nos ensina ao falar sobre depressão e suicídio?

Carlinhos Maia (Foto: Instagram)

O mês de Setembro não é chamado de Setembro Amarelo à toa. É durante essa época do ano que acontece o Dia de Combate ao Suicídio, e suas semanas são dedicadas à conscientização e conversa sobre esse tema. O influenciador Carlinhos Maia abriu uma discussão importante sobre como esses assuntos devem ser abordados - e porquê.

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No último domingo (1), o humorista se envolveu em uma polêmica ao aparentemente diminuir e maldizer adolescentes que cometem suicídio. No Twitter, usuários revoltados comentaram sobre como os Stories de Carlinhos são um desserviço, principalmente quando a temática do mês é a saúde mental e suas consequências últimas.

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Se você não sabe, aí vão alguns dados importantes que tornam esse um assunto tão relevante e que precisa deixar de ser tratado como um tabu. Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 800 mil pessoas cometem suicídio no mundo, por ano - uma pessoa a cada 40 segundo, aproximadamente - e caracteriza a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 24 anos.

Aliás, esses números são tão assustadores que a própria OMS já considera o suicídio uma questão de saúde pública, que deve ser tratada como tal. No Brasil, uma pessoa a cada 45 minutos acaba com a própria vida, e a organização ainda explica que, para cada morte por suicídio, há tantas outras pessoas tentando.

Falando especificamente da depressão, os números são ainda mais alarmantes, estima-se que mais de 322 milhões de pessoas no mundo inteiro lidem com a doença. No Brasil, são 11,5 milhões de diagnósticos de depressão, aproximadamente, e mais de 18 milhões para distúrbios de ansiedade.

Pense antes de falar

Por isso mesmo, comentários como os de Carlinhos são problemáticos. Diminuir a dor de uma pessoa, por menor que seja, é um problema grave. Não há como saber o que alguém considerando tirar a própria vida pode ver como um gatilho para, efetivamente, matar a si mesmo.

Aliás, a própria Organização Pan-Americana de Saúde, divisão da OMS para os países das Américas, explica que o estigma em torno do assunto dificulta o trabalho preventivo. Diante de comentários como esse, que satirizam, ridicularizam ou diminuem uma dor muito mais profunda do que conseguimos compreender, pessoas passando por crises depressivas sérias não encontram a ajuda e o acolhimento necessário para cuidar de suas questões mentais e, efetivamente, verem um caminho de cura.

Uma pessoa que está passando por uma depressão ou crises de ansiedade precisa, é claro, de ajuda profissional para cuidar da própria mente. Mas é importante que o seu entorno, como familiares e amigos próximos, principalmente, ofereçam suporte para que ela entenda que o que sente não é errado e, há, sim, uma forma de tratamento efetivo.

Jovens adolescentes são altamente influenciáveis e buscam em suas referências um sinal de que pertencem a algum lugar. Quando uma pessoa de grande influência nesse meio, como Carlinhos, coloca essa temática em uma rede social onde tem milhões de seguidores, é importante, sim, que a sua fala seja de empatia e acolhimento acima de tudo. É interessante notar, por exemplo, que o número de seguidores do humorista na rede é maior do que o número de pessoas depressivas registradas no Brasil.

Ainda no Instagram, Carlinhos publicou na última segunda (2), uma série de Stories em que explica que em nenhum momento os seus comentários foram feitos sobre pessoas com depressão ou considerando o suicídio, mas sobre jovens que "desistem depois da primeira pancada". Ele ainda explicou que ficou grato por aqueles que salvaram toda a sua reflexão feita na rede social e subiu novamente todos os vídeos.

Acolha

Qualquer que seja o contexto, é complicado determinar exatamente o que leva um adolescente a cometer o suicídio. Mas o bullying, a não-aceitação, a violência parental, a falta de propósito, entre outros fatores - que são potencializados quando o jovem é LGBTQ+ - geram um altíssimo nível de mortes e casos de depressão que levam a OMS a ver essa como uma questão que deve ser tratada como uma prioridade nas políticas de saúde pública.

A necessidade é de encorajar uma conversa saudável sobre o assunto, em que os jovens não vejam os seus ídolos reproduzindo um discurso de repressão, em que doenças como a depressão são vistas como "frescura" ou "uma fase".

É muito importante levar o tema com seriedade já que, inclusive, a saúde mental está contemplada nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pela ONU. A organização diz que espera “até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças crônicas não transmissíveis via prevenção e tratamento, e promover a saúde mental e o bem-estar”.

Gerar ambientes com conversas saudáveis, que transformem todos os espaços em locais onde esse diálogo é possível e o jovem se sinta aceito, acolhido e compreendido em suas dores, é essencial para quebrar tabus em torno de temas tão complicados, mas que, diante de números tão altos, geram um cenário de urgência na sua lida.

Procure ajuda

Caso você sinta que precisa de ajuda para cuidar do que sente, e se tem pensamentos de morte com frequência, saiba: você não está sozinho. É possível, por exemplo, encontrar lugares com atendimento psiquiátrico e terapêutico gratuitamente em São Paulo para buscar ajuda. Ou, se você se sentir mais confortável, pode ligar para o Centro de Valorização da Vida, o CVV, discando 188 a qualquer hora ou dia da semana.