Celular, idealizado como um facilitador, virou o maior inimigo do isolamento social

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Sobrecarga mental e redes sociais: usando as ferramentas que temos como meio de cura (Arte: Ferilustra/Yahoo Brazil)
Sobrecarga mental e redes sociais: usando as ferramentas que temos como meio de cura (Arte: Ferilustra/Yahoo Brazil)

A tela do celular acende pela milionésima vez aquele dia e você se sente compelido a olhar "rapidinho" qual notificação pipocou dessa vez. O intervalo entre uma tarefa inacabada do trabalho e a próxima você gasta correndo o feed do Instagram sem prestar muita atenção no que, exatamente, você está vendo. Entrar no Twitter é sinônimo de coração disparado e, por mais que você saiba disso, quando vê, já está acompanhando a cobertura do 'BBB 21' por lá ou passando raiva com a mais recente notícia do governo brasileiro. O resultado parece ser unânime: o celular, idealizado como um facilitador, virou o maior inimigo do isolamento social fruto da pandemia de coronavírus.

É lugar-comum dizer que os telefones celulares ganharam um papel indispensável na vida de boa parte da população global - mas o efeito negativo que ele pode gerar nas nossas rotinas e, principalmente, em relação à nossa auto-imagem, ainda é inconclusivo e mutável. O que se sabe é que seu uso aumenta a cada ano. Uma pesquisa da Statista de 2019 comprovou que o uso dos dispositivos móveis subiu de 2,9 bilhões para 3,2 bilhões de usuários no período de referência. Até 2023, a estimativa é que esse número suba para 4,3 bilhões.

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Por um lado, há de se comemorar, afinal, as possibilidades de conexões e trocas aumentam sempre que novas pessoas adquirem um smartphone com acesso à internet (o que, sim, pode ser considerado um privilégio). De outro, a dependência dos celulares e, principalmente, das redes sociais, causou um problema generalizado: relatos de depressão, distorção da autoimagem, bullying (ou o famoso "cancelamento"), e até o doomscrolling, o vício em ler e ver notícias catastróficas online - tudo isso com um impacto e tanto na nossa saúde mental.

É fácil perceber, inclusive, como a relação com tudo isso mudou desde o começo da pandemia no Brasil. Lá em março de 2020, o boom de lives no Instagram e no Youtube, de conteúdo novo e chamativo, de ligações de vídeo e calls com os amigos atingiu o auge. Agora, é possível observar um desejo coletivo por distanciamento - das telas, dos celulares, das redes e da sobrecarga de informação.

Chega de telas!

Com o passar do tempo, ficou fácil perceber que muita gente adotou uma peneira para olhar para o mundo através da internet, aumentando o nível de critério para o que consome online.

"Com a pandemia, o acesso à internet e as redes sociais pularam rapidamente de estágio. O que antes era mais um meio de conexão virou nossa única janela para o mundo, o nosso único meio de comunicar, seguir com nossos negócios e também nos ligarmos de uma forma mais profunda a tudo que está acontecendo", explica Luiza Fontoura, diretora criativa da agência Co>Phy. "Falando do nosso nicho, que é comunicação, acreditamos que uma das principais mudanças foi a maneira com que nos relacionamos com o conteúdo, e a avaliação que estamos fazendo dele."

Traduzindo: foi-se o tempo em que mostrar bolsas de marca, os famosos "recebidos" ou apenas exibir por aí viagens de luxo (e de graça) perdeu o encanto. Se o caso Gabriela Pugliesi nos ensinou qualquer coisa, foi que a pandemia de coronavírus trouxe um aumento no nível de críticas na relação com influenciadores e o papel de pessoas com grande alcance online. "Também percebemos uma grande movimentação de pessoas e negócios buscando se conectar mais às pessoas e, com esse excesso de comunicação, consequentemente as pessoas estão buscando ser mais seletivas com o que consomem", continua ela.

Female financial expert sitting with head in hands at desk. Tired businesswoman is staring at computer monitor in office. She is having headache.
O cansaço no uso de telas e redes sociais se tornou perceptível para muitos, e buscar equilíbrio é uma necessidade em tempos de pandemia (Foto: Getty Creative)

Aliás, é fácil você ter esbarrado com uma das postagens da Co>phy no Instagram. Com foco em criação de conteúdo e relacionamento com a internet como um todo, a empresa percebeu uma mudança no público e até na aceitação do próprio discurso. 

"Percebemos muitas pessoas questionando suas prioridades, valores e tentando encontrar esse equilíbrio, entendendo a rede como mais um meio de conexão e não como nosso único modo de viver. Assuntos como o slow content, discussões sobre ficar mais tempo offline e menos uso de telas tem sido pauta na vida de todos porque antes da pandemia já estávamos questionando o excesso"

A busca por equilíbrio, continua, tem respaldo científico, e essa nova mudança na maneira como olhamos e nos relacionamos com as telas é totalmente justificável. Aliás, não é preciso nem a ciência para garantir que você, em algum momento dos últimos anos (e não só do tempo de quarentena / pandemia), sentiu um dos sintomas abaixo:

  • Visão turva;

  • Dores de cabeça;

  • Dores no pescoço e ombros;

  • Olhos cansados.

Isso para dizer o mínimo sobre o efeito que as telas têm na nossa saúde. Se formos a fundo, vamos encontrar outros, talvez até assustadores. Um dos mais conhecidos é a capacidade das telas de atrapalharem o nosso sono, já que o corpo, tal qual todos os seres vivos, funciona de acordo com o ciclo do sol (o chamado ciclo circadiano) e precisam do escuro para aumentar a produção dos hormônios que garantem o bom sono e a sua função restauradora do sistema corporal.

O sedentarismo gerado pelas horas na frente de um computador, de uma televisão ou do próprio celular também aumentam as chances de obesidade e de doenças crônicas, além de diminuir áreas do cérebro responsáveis por ligações cognitivas. E isso se falarmos só dos efeitos físicos do uso sem limites de telas.

Em termos emocionais, lidamos com a sobrecarga de informações (não é sem motivo que as pessoas andam evitando ler ou ouvir notícias), a ansiedade, a raiva por conta de publicações e postagens com comportamentos não condizentes com o momento do mundo (quem aí já foi fiscal do amigo que decidiu dar um churrasco para os colegas "seguindo todos os protocolos" no fim de semana?)... enfim, não dá pra dizer que esse uso é sem consequências, certo?

Dá para encontrar equilíbrio no uso do celular?

Você também não aguenta mais olhar para tela? (Arte: Ferilustra/Yahoo Brazil)
Você também não aguenta mais olhar para tela? (Arte: Ferilustra/Yahoo Brazil)

"[Atualmente] Vejo duas vertentes nessa relação", explica Luiza sobre as necessidades humanas em torno do uso dos celulares, "uma vem da necessidade do ser humano de interagir e também ter uma validação social sobre sua existência. Existem estudos que mostram que cada espécie de ser vivo adota estratégias de sobrevivência e perpetuação e nós, humanos, utilizamos como solução evolucionária o cuidado. Afiliação e relacionamento social que garantem nossa sobrevivência".

Pois é, a necessidade de conexão, de atenção, de relacionamento é uma das que nos mantém dentro das redes sociais e colados aos celulares já que, e principalmente, o contato cara a cara ficou tão limitado. Some-se a isso, o segundo motivo que Luiza acredita pautar o uso da internet hoje: com a pandemia, inúmeros negócios precisaram se adaptar ao universo online para sobreviverem. "Por isso estamos entrando nesse colapso mental, pois a necessidade vem de todos os lados e ao mesmo tempo sabemos que não é saudável o jeito que estamos utilizando as redes", continua.

O que precisa mudar, então, é também a forma como nos relacionamos com essas tecnologias, além da maneira como olhamos a nós mesmos e aos outros (afinal, a necessidade de validação dificilmente é benéfica à sociedade humana). É, sim, começar a buscar pelo viés positivo que ela tem e colocar celulares, computadores e redes sociais no papel de ferramentas, e não de definidores da nossa existência enquanto pessoas.

"Acreditamos que a liberdade geográfica que o celular e as redes nos proporcionam devem cada vez mais ser aproveitadas por todos", diz a diretora criativa. "Pensar que podemos trabalhar, interagir, entender novas culturas, conversar com pessoas diversas, entender novos comportamentos e expressar nossa visão sobre as coisas tudo isso independente do lugar que estivermos é algo realmente fascinante."

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A busca pelo equilíbrio é uma jornada individual que começa com pequenos testes e o comprometimento pela mudança (Foto: Getty Creative)

O melhor jeito de encontrar esse equilíbrio, diz ela, é investindo no "caminho do meio". Para Luiza, equilíbrio é algo muito particular e depende das prioridades e possibilidades de cada um. "Entendemos que não adianta pensarmos em regras do tipo 'use apenas uma hora por dia' ou 'fique offline aos finais de semana', pois nossa vida não é linear assim e essas 'regras' acabam nos frustrando", diz. "Por isso, é essencial conhecer as suas necessidades e buscar esse equilíbrio."

É um esforço que precisa ter como base a não culpa. Ou seja, você vai se deparar com momentos mais energizados, com necessidade de troca, em outros o foco estará em áreas da sua vida que não incluem o celular e as redes sociais. Qualquer que seja o caso é sobre ser gentil com você mesmo e aceitar que esses momentos vêm e vão e que alguns dias serão mais fáceis que outros."Acreditamos sempre nessa busca por equilíbrio, autoconhecimento e principalmente autocompaixão", finaliza a profissional.

Com certeza, regras são falhas porque não se adaptam às diferentes realidades que vivemos e encontramos por aí. No entanto, existem direcionadores que podem ser testados e um ponto de partida para quem não sabe onde começar essa busca ou quais caminhos seguir. Veja algumas ideias abaixo:

  • Evitar ler notícias ou o feed das redes sociais logo antes de dormir;

  • Evitar ler notícias ou o feed das redes sociais logo que acordar;

  • Escolher poucas e boas fontes de informações para se atualizar sobre a situação do país e do mundo quando sentir vontade;

  • Filtrar as pessoas que você acompanha nas redes sociais, caso o conteúdo de alguém esteja gerando sensações de mal-estar;

  • Buscar desenvolver um hobby que não dependa de telas;

  • Criar um limite para o seu tempo nas redes ou no celular - se o passeio pelo feed é inevitável pra você, que tal delimitar esse tempo a 15 minutos, usando o recurso do alarme para lembrar você de parar?

O equilíbrio, como disse Luiza, é possível, mas depende de um primeiro passo que começa com a gentileza consigo e com os hábitos que serviram de suporte em tempos tão incertos e um pequeno esforço pessoal para gerar mudanças.

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