Canonização: o que é preciso para uma pessoa ser considerada santa?

A baiana Irmã Dulce, será canonizada pela Igreja Católica em Roma, pelo Papa Francisco, no dia 13 de outubro (Getty Images)

De tempos em tempos escutamos que uma pessoa foi canonizada, como é o caso da religiosa Irmã Dulce, em outubro de 2019. Mas o que significa dizer que alguém é canonizado? Basicamente é dizer que uma pessoa é santa. “Canonizar” significa colocar uma pessoa (religiosa ou não) no cânone de santos que podem ser adorados pelos fiéis da Igreja Católica Apostólica Romana. E quem decide quem é ou não santo é a própria Igreja Católica, representada pelo Vaticano e o Papa, sua autoridade principal.

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Desde o seu início, a Igreja Católica reconhece a santidade de algumas pessoas. Na Idade Média, era bem simples: bastava transferir os restos mortais da dita pessoa para uma igreja e já estava autorizada a veneração. Em 1588, o Papa Sisto V criou um primeiro procedimento oficial para a santificação. Isso visava evitar a adoração a figuras míticas como São Jorge (que até hoje não é reconhecido oficialmente como santo pela Igreja) e até de animais serem transformados em santos populares, como aconteceu com um cachorro: São Guinefort.

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Mas o que é canonização?

É o ato pelo qual a Igreja Católica Apostólica Romana declara uma pessoa que já morreu como santo, sendo inscrita no cânone, ou lista, dos santos reconhecidos. Mas antes de chegar ao status mais alto de santidade, os candidatos passam por uma primeira fase: a beatificação. O processo todo costuma ser longo e complicado. O aspirante é avaliado por suas virtudes heróicas, santidade, escritos e seus milagres, feitos em vida ou após sua morte.

Quando surgiu o primeiro santo?

Nos primórdios da Igreja, não existia um processo formal de reconhecimento dos santos. Mesmo porque os primeiros mártires cristãos, como Pedro (apóstolo de Jesus e o primeiro papa), já eram cultuados popularmente. No primeiro milênio, não era tão rigoroso quanto hoje, mas o primeiro santo canonizado por um papa foi Ulrich, bispo de Augsburg, que foi declarado santo pelo papa João 15, em 993. A canonização só se tornou reservada ao papa em 1234, com o Papa Gregório 9º.

Como funciona o processo atual?

A norma atual para a canonização é de 1983 e foi decretada pelo Papa João Paulo II, criando no Vaticano a Congregação para a Causa dos Santos. O processo começa com a investigação do candidato pelo bispo da diocese em que ele viveu, que reúne todo o material referente à sua suposta santidade, como seus escritos e relatos dos milagres. O bispo aponta então um promotor da causa, para defender o candidato como um advogado de defesa, e um promotor da fé, para checar veracidade dos fatos e contrapor os argumentos – normalmente é um eclesiástico que conhece bem as regras da Igreja.

Canonização é um processo longo (Alessandra Benedetti - Corbis/Getty Images)

Para o processo ir para frente, há três requisitos para a homologação da candidatura do possível santo: a fama de santidade, o exercício das virtudes cristãs e a ausência de obstáculos insuperáveis contra a canonização. Aceito o processo, são necessários que pelo menos dois milagres autênticos sejam comprovados para que o papa canonize o candidato.

Enquanto isso, ao iniciar os trâmites o candidato se torna um “servo de Deus”. Se ele apresentar as virtudes necessárias, é proclamado “venerável”. Caso se prove um milagre, como é o caso da Irmã Dulce, é beatificado. A canonização acontece só depois da comprovação de um segundo milagre, salvo raras exceções em que a Igreja não exige a comprovação dos milagres, como aconteceu com canonização do Padre Anchieta, em 2014. São quatro as exigências para comprovar a veracidade de cada milagre: ser preternatural (a ciência não consegue explicar), instantâneo (acontecer logo após a oração), duradouro e perfeito.

Os santos brasileiros

Acredita-se que exista mais de 10 mil santos e beatos oficialmente reconhecidos pela Igreja Católica. O Brasil demorou para ganhar um santo próprio. A primeira foi Santa Paulina, que nasceu na Itália, mas viveu muitos anos aqui e foi canonizada pelo Papa João Paulo II, em 2002. Cinco anos mais tarde, Bento XVI canonizou o franciscano Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil.

Já o Papa Francisco declarou santos o jesuíta José de Anchieta, espanhol nascido nas Ilhas Canárias, Roque Gonzáles, Alfonso Rodriguez e Juan de Castillo, os mártires do Rio Grande do Sul, e André de Soveral e 29 companheiros, considerados os protomártires do Brasil. Em 2019, a religiosa baiana Irmã Dulce será a 37ª santa brasileira, sendo a primeira mulher santificada nascida aqui.