Canais no YouTube fazem sucesso como meio de aprender tricô e crochê

João Pedro Malar*


Qual é a primeira imagem que vem em sua mente quando você imagina alguém aprendendo tricô ou crochê? Se for uma senhorinha ensinando a uma criança, só com a memória e a voz para ajudá-la, você provavelmente está desatualizado na área.

A principal diferença entre o tricô e o crochê é a quantidade de agulhas usadas para a produção das peças: duas no primeiro e uma no segundo. Além disso, o tricô é mais usado para fazer peças de lã, e o crochê, de linha.

Nessa área, a grande novidade é o surgimento de um novo meio de aprendizado: canais no YouTube. As revistas e aulas presenciais vêm perdendo espaço nesse novo cenário, em que é possível encontrar desde vídeos para iniciantes, ensinando a colocar e tirar uma agulha, até o passo a passo para produções mais complexas.

As youtubers

Sandra Baroni, de 36 anos, dona do canal TricôTricô, comenta que, como na maioria dos casos, ela aprendeu a tricotar quando era criança, mas nunca gostou do chamado tricô reto, que envolve a costura. Por volta de 2010 ela encontrou, no YouTube, canais estrangeiros que ensinavam o tricô circular, que não envolve a costura mas é pouco praticado no País.

Ela aprendeu a técnica apenas vendo vídeos e cursos na internet, e com o tempo decidiu compartilhar o estilo do tricô circular no País, inclusive com cursos. “Aqui no Brasil a técnica do tricô circular não é difundida, as pessoas têm medo”, destaca.

Hoje o foco de Sandra está nas aulas que oferece, inicialmente presenciais, e, agora, em vídeo, e no seu Instagram, onde divulga suas peças. Ela começou a ter uma produção mais constante no YouTube apenas recentemente.


“O bom do Youtube é que os vídeos 'são perpétuos', dá para colocar tags, uma descrição melhor. No Instagram eles acabam ficando escondidos ou somem em 24 horas”, comenta Sandra ao justificar sua mudança. Hoje, ela grava vídeos diariamente para seu canal, e revela que essa foi a grande dificuldade pela qual passou: "ter a disciplina de conseguir fazer vídeos sempre."

"Você começa todo empolgado, mas aí para, é difícil voltar. É complicado criar o costume”, diz Sandra. Outra dificuldade que ela enfrentou foi superar a timidez, até hoje ela não consegue gravar vídeos com outras pessoas assistindo ao processo.

Para ela o YouTube possui diversas vantagens no aprendizado de tricô ou crochê. “Você consegue chegar em qualquer lugar, as pessoas só precisam de um celular [para ver o conteúdo]. Isso facilita muito. Pode repetir o vídeo quantas vezes quiser, o que é bem diferente de uma aula presencial, onde não dá pra repetir”, comenta Sandra.

Ela considera que os próprios vídeos no YouTube evoluíram com o tempo, tanto na qualidade técnica quanto no surgimento de interações entre os instrutores e os instruídos por meio de comentários e, mais recentemente, transmissões ao vivo para ensinar técnicas e receitas.

A artesã Silvana Todeschini, de 50 anos, ensina tricô e crochê no seu canal Artsil Tricô e Crochê. Ela aprendeu as técnicas quando tinha nove anos, com a tia, e já vendia seus produtos no Facebook quando surgiu a ideia de criar o canal, em 2014, para mostrar as peças.


Conforma ela mostrava os produtos, passou a receber pedidos para ensinar as técnicas, originando os vídeos instrutivos. “No começo eu gravava com celular, era bem ruim, mas fui melhorando e aprendendo, vendo outros vídeos também. Hoje já está bem melhor, tenho estúdio, modelo de gravação”, analisa Silvana.

Para ela, o maior desafio foi a parte técnica por trás dos vídeos, em especial o processo de edição. “Não é só um vídeo em que você senta e começa a falar e grava. No caso do artesanato, precisa criar a peça, ver se deu certo, refazer, gravar um passo a passo, com vários cortes. Isso leva muito tempo, e aí tem a edição. No começo era a maior dificuldade, cortar o que deu errado, deixar uniforme e agradável”, relata.

Silvana também coloca o YouTube como um bom meio de aprendizado em relação ao ensino presencial ou por meio de revistas, que inclusive podem vir com erros nas técnicas. “É melhor para quem quer aprender e não tem tempo ou condições financeiras para algo presencial”, observa.

Sandra também fala sobre os problemas que enfrentou quando tentou aprender as técnicas de tricô em revistas. “Eu encontrava muitos erros nelas. Não tinha explicações das técnicas. Não tem contato com quem escreveu e sinto que não tem revisão. Eu encontrei tudo isso no Youtube”, observa.

A artesã também destaca a relação do público como algo positivo: “Vai da pessoa que super entende e reconhece o trabalho à pessoa que acha que você está lá para trabalhar para ela e fazer algo que a agrade, e se isso não ocorre ela critica. Isso acaba deixando um pouco desanimado, mas é algo natural da exposição nas redes sociais. Na maioria das vezes a resposta é boa e interagem bastante”.


As duas youtubers divergem ao analisar se a área hoje está ou não saturada. Para Silvana, que viu um crescimento grande do número de canais com os anos, há saturação e uma dificuldade para inovar. Já Sara comenta que, em sua especialidade, que é o tricô circular, ainda existem poucos canais.

As espectadoras

Marina Louro, de 20 anos, teve o primeiro contato com o tricô e crochê na família, mas acabou tendo contato apenas com as técnicas básicas. Com interesse na área, ela decidiu procurar vídeos no YouTube com tutoriais. “Eu consegui aprender através dos vídeos e fui me interessando cada vez mais”, relata Marina.

Ela iniciou o processo há quase dois anos, mas relata que, apesar da facilidade, o conteúdo acaba ficando muito disperso entre os canais, o que dificulta o processo de aprendizagem. “É um pouco mais lento do que seria se eu tivesse um professor do meu lado, mas eu percebo que com o erro a gente aprende muito, e a internet obriga isso”, observa a estudante.


A fisioterapeuta Lucia Satiko Yamashita, de 39 anos, teve contato com o básico de tricô também quando era criança, mas com o tempo acabou esquecendo boa parte do que aprendeu. Só quando era mais velha ela voltou a ter interesse na área, e decidiu procurar vídeos que a ensinassem a fazer peças para o enxoval da sua filha, na época em que estava grávida.

“No youtube ou no pinterest eu achei muito do que eu queria tecer e consegui aprender a fazer a peça” relata Lucia. Para ela, os vídeos foram mais fáceis que aulas presenciais, pois muitas vezes as instrutoras já exigiam o domínio de muitos conteúdos prévios.

A memorialista de crochê e historiadora Cyntia Rêgo, de 42 anos, também aprendeu as técnicas de crochê quando era criança, a partir do contato com a família, e hoje usa o YouTube para ter acesso a outras receitas e técnicas novas.

“Por muito tempo o crochê manteve uma ligação muito forte com a renda irlandesa, mas ele foi se adaptando às necessidades das pessoas aqui no Brasil, foi mudando com as necessidades das pessoas, e se manteve firme”, observa Cyntia.

Instagram / @crochedacy

Hoje o crochê e o tricô ganharam espaço nas redes sociais, com vídeos no YouTube, grupos de Facebook e Instagram como espaço para vendas. “O ambiente permite interações com as artesãs, e facilita a popularização dessas práticas. Está tudo muito fácil, prático, é só digitar no Google e ter o acesso”, afirma.

Para ela, esse fenômeno surpreendeu muitas pessoas, que acreditavam que práticas manuais, como o tricô e o crochê, desapareceriam com o tempo. Mas eles seguem fortes, seja como tradição familiar, hobby ou como modelo de negócios, indicando a força da atividade que ainda deve ser praticada por muitos anos.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais