Caminhos da Memória - Crítica do Chippu

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Como parte da equipe criativa de Westworld ao lado do seu marido, Jonathan Nolan, Lisa Joy tem se especializado na criação de mundos de ficção-científica e nos conceitos usados para temperá-los. Deixando de lado a telinha em favor da telona, a diretora trouxe à vida seu primeiro longa-metragem com Caminhos da Memória, uma história de detetive noir com Hugh Jackman, Rebecca Ferguson e Thandiwe Newton. Semelhante aos trabalhos da cineasta na televisão, o filme tem diversas ideias interessantes e uma criação de atmosfera completa, mas os mesmos problemas da série de Joy estão presentes aqui - personagens mal desenvolvidos, motivações pouco explicadas e temática confusa.


Na Terra de Joy, as mudanças climáticas derreteram as geleiras e inundaram cidades costeiras com o oceano. O calor tornou a vida durante o dia - com exceção do nascer e pôr-do-sol - impraticável, e forçou a população mundial a trocá-lo pela noite.. Agora, os ricos vivem dentro de represas ou em casas flutuantes, se locomovendo com barcos e lanchas. Os pobres foram deixados nas ruas, encharcadas com água o suficiente para obrigar o uso de botas mas não para impedir o transporte por carros. Os donos de terra seca, barões poderosos e influentes, tomaram controle da economia, dinâmica social e política. Esta criação de mitologia é, de longe, a melhor parte de Caminhos da Memória.


Joy parece saber disso. Caminhos da Memória está repleto de cenas com ângulos abertos mostrando o horizonte da Miami afundada na qual a história se passa, deixando claro para nós a escala da invasão do oceano e a devastação deixada em seu caminho. A cineasta só havia dirigido um episódio de Westworld antes de se aventurar nos cinemas, mas sua direção é sólida e em controle, identificando com clareza as forças do filme. Menos ficção-científica futurista e mais distopia realista, o longa conta com um design de produção sujo, abandonado e adequado para o clima noir buscado na direção. A cada nova revelação sobre o mundo no qual estes personagens existem, ele fica mais interessante tanto como contexto como quanto visual.


Mas o problema é quando paramos de olhar o mundo de longe e entramos em suas ruas molhadas. No roteiro, também escrito por Joy, Jackman interpreta Nick, um veterano de guerra cujo emprego atual envolve o uso de uma máquina capaz de transportar as pessoas de volta à memórias do passado. Ao lado de Watts (Newton), ele dá aos clientes a chance de reviver a época antes da destruição, investigar o passado de alguém (algo útil para solucionar crimes), relembrar um parente falecido ou descobrir onde você deixou suas chaves. É com esta última questão que Mae (Ferguson) entra em sua vida. De cara, os dois fazem faíscas. E no auge do seu romance, Nick acorda de uma memória com a amada e descobrimos sua missão atual: descobrir onde Mae, desparecida há meses, está.


Jackman, Newton e Ferguson são essenciais para o funcionamento de Caminhos da Memória. O antigo Wolverine, um dos atores mais carismáticos de Hollywood, segue utilizando com impacto suas linhas faciais, passando raiva e desespero como ninguém. Mas seu charme natural é anulado por um roteiro duro, insosso e raso. Este, talvez, seja o problema de todas as figuras deste filme. Watts é a única personagem a passar por um verdadeiro arco, a crescer, deixar claro suas motivações e medos e, aliada à atuação de Newton, se destaca entre os protagonistas.


Ferguson é ótima como sempre, transmitindo a mesma sedução letal dos filmes de Missão: Impossível recentes, sem nunca perder a fragilidade ou humanidade. Nas cenas de romance, ela e Jackman brilham e apresentam uma química convincente, ainda que um pouco melodramática. Mas tudo isso acontece apesar do roteiro. Nas mãos de Joy, Nick parece existir como um guia turístico, nos levando de ponto expositivo para ponto expositivo, narrando todo o longa até mesmo em situações óbvias. Joy sabe quais imagens mostrar para o público, e o design deste mundo é tão elaborado quanto sua concepção, mas a diretora-roteirista não parece acreditar em nossa capacidade de entender a diferença de classe presente em sua Miami. A narração de Jackman, totalmente desnecessária, até tem uma justificativa no fim, mas nunca deixa ser incômoda. Não bastasse isso, Joy também faz questão de repetir revelações como se não tivéssemos entendido na primeira vez. Personagens repetem fatos, falando em voz alta para garantir a compreensão da audiência e transmitindo uma falta de confiança e maturidade na comunicação do enredo.


Mae, por sua vez, é menos uma personagem e mais uma missão, um objetivo para o qual seu amado deve ir. Ao longo da história, Nick descobre revelações perturbadoras sobre o passado da mulher, questionando o quanto ele realmente sabia sobre sua parceira. E, ao longo de todo o filme, nos sentimos tão perdidos quanto ele. Isso não é necessariamente ruim, não faltam histórias que nos deixam no escuro tanto quanto o protagonista, mas ainda é importante estabelecer uma personalidade para a figura-mistério, uma motivação ou mesmo uma característica definidora. Mae nunca se torna algo além da interrogação.


Tematicamente, o roteiro também é problemático. "Nostalgia nunca sai de moda," Nick diz para Watts quando ela questiona as finanças do seu banco de memórias. Ele, entretanto, reconhece a falácia por trás disso. Durante boa parte de sua história, Caminhos da Memória reconhece esta máquina de visitar o passado como uma maneira de fugir dos problemas do presente e de encarar os medos do futuro. O personagem de Jackman deixa isso claro ao confrontar a de Newton com esta mesmíssima argumentação, incentivando-a a encontrar uma nova vida.


Mas, na sua reta final, o filme vira contra si mesmo. Nick começa a tomar decisões sem sentido para seu personagem, decisões nunca questionadas ou repensadas, apresentadas como necessárias ou até mesmo positivas. Talvez a Warner Bros. tenha pressionado Joy a colocar um clima mais "feliz" em sua conclusão, mas isso não combina de forma alguma com os acontecimentos do último terço de Caminhos da Memória.


Se você olhar o pôster de Caminhos da Memória, verá a frase "não olhe para trás," mas quando os créditos começam, a impressão é que, ao longo dessas duas horas, o próprio filme esqueceu de onde veio. Talvez ele precise revisitar seu passado na máquina operada por seu protagonista


Nota: 2.5/5


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