Cada vez mais as mãos dos poderosos vêm nos sufocar, diz criador de centro cultural

GUILHERME HENRIQUE
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 06.03.2020 - Rodrigo Ciríaco, um dos fundadores da Casa Poética, mistura de agência literária e centro cultural para escritores da periferia de SP. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Paredes azuis, muro baixo e portão aberto. A frase na entrada da Casa Poética, no bairro de Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital paulista, diz que "o estudo é o escudo". O verso retirado da música "América Sem Reféns", do rapper brasiliense GOG.

"Aqui é um espaço de respiro, em um momento em que cada vez mais as mãos dos poderosos vêm em direção ao nosso pescoço para nos sufocar", diz Rodrigo Ciríaco, historiador, poeta e um dos idealizadores do local.

Inaugurada no último sábado (7), a Casa Poética conta com uma biblioteca de 1.200 livros, entre infantis e adultos, e também será uma espécie de incubadora para novos escritores da periferia. "Estamos com 16 autores e autoras agenciados. O propósito é dar um suporte na hora da publicação, com contratantes. Às vezes, as pessoas vêm nos convidar e acham que, por soermos da periferia, não merecemos uma proposta decente", diz Ciríaco.

Após mais de uma década à frente de saraus em escolas, bibliotecas e centros culturais, o grupo Mesquiteiros é quem está à frente do novo espaço. Os recursos para criar a Casa Poética surgiram do caixa que o grupo juntou com participações em eventos.

"Costumo dizer que a literatura é como uma casa, onde encontramos gente para para dar risada e para dar colo para quem quer silêncio", afirmou no lançamento do espaço a educadora Bel Santos Mayer, coordenadora do Ibeac (Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário), que criou uma biblioteca comunitária em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo.

Autor de três livros, entre poesia e contos, Ciríaco conta que os saraus foram fundamentais para sua trajetória.

O encantamento aconteceu em 2006, quando visitou a Cooperifa, na zona sul da capital. "Estava acostumado a ver a literatura como algo chato, que só servia para fazer prova. Nunca tinha visto nada parecido", complementa.

A partir desse contato, ele passou a misturar oralidade e performance e a investir na escrita. "Aqui não sou só artista. Temos meninos e meninas com um talento muito grande, tenho uma responsabilidade com eles."

O jardim na entrada da Casa Poética homenageia a escritora Conceição Evaristo. No fundo, uma horta comunitária foi batizada com o nome da educadora Bel Santos Mayer. Além delas, escritores como Marcelino Freire, Ferréz e Binho também foram lembrados. "A casa chegou para interferir na geografia. Em vez de uma igreja, levanta-se em Ermelino Matarazzo um espaço para a fé na arte, na poesia, no conhecimento", comenta Marcelino.

Nascido no bairro de Cangaíba, Ciríaco atua em Ermelino Matarazzo há 15 anos. "Sempre tive o sonho de ter o centro cultural na quebrada. A gente é carente de equipamentos de lazer e cultura. É ridículo, criminoso. Quando existe alguma coisa, é no máximo uma biblioteca comunitária", analisa.

Para Marcelino Freire, o surgimento da Casa Poética é um recado. "Não estamos sozinhos e que não mexam com a gente. Sobretudo com os jovens artistas, negros e negras, que a casa está reunindo. Ali a literatura não está morta", diz.