Busca de Vyni no “BBB” não foi por R$ 1,5 milhão, mas por um lugar de afeto

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Por João Vitor Borges, psicólogo, escreve textos, reflexões com ênfase em psicologia

Vyni, te assistia enquanto simultaneamente acompanhava a repercussão que cada passo seu dentro da casa do "BBB" refletia aqui fora. Antes de qualquer coisa, lembro-me de toda a expectativa que se criou em torno do anúncio da sua participação, foi nesse momento que surgiu em forma de preocupação o meu primeiro alerta: "Talvez sua subjetividade - quem você realmente é -, pudesse ser apagada pelo público."

Talvez o que você realmente gostaria de mostrar não importasse, já que somente a chamada de sua participação tenha sido o suficiente para te associarem ao arquétipo de Gil do Vigor, participante da 21å edição do "Big Brother Brasil".

Ecoava na internet: “Esse é o novo tal”; “Vai entregar tudo”; “já ganhou meu follow”; “Se ele não fizer isso ou aquilo igual fulano, não vai valer de nada”; elevando exponencialmente a expectativa de quem ainda estava curiosamente ligado ou ligada ao passado. Os números de seguidores aumentavam. Em uma semana já tinha milhões. Tal contexto facilitou o surgimento de uma enorme frustração do público e dos participantes ao perceberem que você, era o que era, mas não o que estávamos erroneamente projetando.

O Viny, eu, tantos Vynis

Você de verdade é o Viny, cearense de 23 anos, criado pela avó, assumidamente gay para a família há pouco mais de 50 dias, antes de entrar no reality show. E fez dessa forma por um medo que nós iguais conhecemos bem. Também por liberdade, sabia o que poderia acontecer com tanta exposição, melhor ir transparente, sem amarras - eu admiro sua coragem. O Viny que gosta de k-pop e é fã de Anitta, graduado em direito, é o mesmo que trabalha com a família e, até então, está iniciando uma trajetória como figura pública nas redes sociais.

Apesar de ser uma pessoa doce, dedicada, proativa e carinhosa, nunca esteve em um relacionamento sério, suas declarações evidenciam que, assim como aconteceu comigo, sua experiência afetiva foi muito defasada por inseguranças, solidão e traumas. Somente quem foi atravessado por algo parecido consegue perceber e sentir-se no mesmo lugar. Você ainda tem a habilidade de expressar isso fazendo piada, rindo e fazendo os outros rirem — “nunca namorei por opção dos outros”.

Gay, preto e periférico

Enquanto pessoa preta, gay e periférica, sei o que é lidar com altas expectativas e grandes frustrações, sejam elas minhas ou dos outros sobre mim. Ainda assim, não consigo imaginar o que você terá que lidar por conta de tamanha projeção das suas vivências no reality show, sendo julgado por tantas pessoas ao mesmo tempo. Isso sim é difícil de imaginar. Entretanto, conheço especificamente a sensação de solidão, vazio e desesperança no que se refere ao afeto, sei o quanto a minha personalidade foi prejudicada e reduzida pelo medo de nunca ser amado, pela falta de carinho e pela vergonha, uma vergonha que não deveria ser minha, assim como entendo que se estiver sentindo isso agora, também não deveria ser sua.

Não adianta, perdemos o jogo, seja na vida ou em um programa assistido por milhões de pessoas

Você e eu sabemos o quanto expressar quem realmente somos, tão novos e ainda tão vulneráveis pode custar. Sabemos que sempre saímos em desvantagem somente por precisarmos controlar nosso jeito de falar, andar, e pensar, na falsa tentativa de se esconder em nós mesmos.

A realidade para nós é que, quando não estão nos hostilizando ou discriminando, estão nos pressionando para atender expectativas que nem sempre nos representam. De uma forma ou de outra forçam para que sejamos o que eles querem, não o que podemos ser. Perdemos nosso direito de errar e recebemos ódio quando erramos. Infelizmente, às vezes nem percebemos o quanto de angústia isso nos gera, e então por sobrevivência, buscamos atender tais demandas.

Só então percebemos que fizemos tudo para agradar as pessoas, principalmente nossos possíveis parceiros afetivos. Oferecemos o que eles pedem e não recebemos o que gostaríamos em troca. Aceitamos passivamente. Para nós, a retaliação não compensa, não suportaríamos o retorno.

O abandono afetivo

Vyni, Eliezer e Maria conversam em festa no BBB22 (Reprodução Globoplay)
Vyni, Eliezer e Maria conversam em festa no BBB22 (Reprodução Globoplay)

Sua jornada com seu melhor amigo no jogo - Eliezer - me levou para esse mesmo lugar de abandono afetivo, me faz refletir sobre o quanto pode ser difícil viver o que vivemos e não expressar o desejo em forma de carinho e dedicação desproporcional quando temos a oportunidade de receber qualquer sinal de afeto, proteção e parceria, ou seja, vínculo. Se para nós parece improvável se relacionar um dia, um vínculo qualquer já vale o esforço.

Nessas ocasiões, damos um jeito de expressar o desejo de forma subliminar, somente porque talvez não dê para fingir que não o sente só para não se machucar, já fomos tão machucados mesmo, não é? O mínimo de retorno afetivo que se tem é melhor que nada, estamos acostumados a não sermos vistos como qualquer coisa além de amigos e nos é exigido essa alta dedicação, como se as pessoas merecessem uma medalha somente por nos apoiarem.

Todos somos Vynis

Nesse contexto, não vejo muita diferença da sua trajetória com a do participante do ano anterior com o qual você foi comparado, que deixou de ir para final para dar lugar a pessoa a quem ele também expressava desejo. Então, entenda que a maioria absoluta de nós já passou por isso.

Só com o tempo, após muitas experiências, conseguimos identificar as possíveis ciladas que a vida nos coloca no contexto das nossas relações, principalmente as que facilmente caímos quando estamos muito vulneráveis e sob pressão. Não adianta, perdemos o jogo, seja na vida ou em um programa assistido por milhões de pessoas.

Eu me vi em você, e confio que essa experiência que atravessou com tanta coragem te encaminhe para grandes momentos

Acredito por experiência e empatia, que no nível de consciência você reconhece que sua relação com seu parceiro de jogo era de amizade, e dessa forma você se dedicou muito porque se tratando de uma dinâmica de salve-se quem puder, não muito diferente da vida aqui fora, ter alguém para contar, ter acolhimento, acessar uma relação com mais profundidade é vital. Você não foi o único a buscar tal forma de afeto lá dentro. Aqui fora, além de mim, milhares de pessoas adotam ou já adotaram o mesmo funcionamento, no máximo variando só de intensidade. Isso é a vida, não é mesmo?

Liberdade ainda é cara

Ninguém nos ensina de fato a lidar com isso, nem mesmo com o amor, deveriam entender. Entretanto, para além da consciência, independentemente de sabermos o que está se apresentando, muitas vezes somos vítimas do nosso inconsciente, da nossa trajetória. Não conseguimos esconder totalmente os impulsos, principalmente no campo afetivo, sentimental e projetivo. Falamos muito nas entrelinhas porque corremos risco de vida, nossa integridade física e moral é constantemente ameaçada se formos sempre explícitos, não desenvolvemos nossa capacidade afetiva com a liberdade que as pessoas heterossexuais desenvolveram.

No fim, apesar das reais questões financeiras que protagonizam ou intensificam as experiências difíceis, sua busca acabou não sendo por R$ 1,5 milhão, foi por um lugar de afeto, pelo desejo de um dia ser desejado, foi por amar e ser amado, por liberdade. Espero que alcance tudo isso, tenho certeza que desenvolverá suas potencialidades, que não são poucas, que o seu carisma conquiste e que a vida seja mais justa com você e com todos nós que vivenciamos diariamente tantas lutas.

Eu me vi em você, e confio que essa experiência que atravessou com tanta coragem te encaminhe para grandes momentos, que sua personalidade seja acolhida e compreendida. Não duvide de si mesmo, e não deixe nunca mais de controlar sua narrativa, não importa se tratar de poucos ou de milhões.

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