Dores de cabeça, pescoço e rosto podem ser culpa do bruxismo de vigília, que atinge 80% dos brasileiros

bruxismo de vigília, que atinge 80% dos brasileiros. Foto: Getty Images

Por Natália Leão (@natileao_

Dor nas costas, de cabeça, de estômago… Você conhece bem os efeitos do estresse no seu corpo, mas existe um sintoma que frequentemente passa despercebido: o bruxismo de vigília. Nunca ouviu falar? E se colocarmos nestas palavras: apertar ou ranger os dentes, tensionar o maxilar sem perceber enquanto trabalha, estuda ou vê as notícias? Se identificou? Você não está sozinho, cerca de 80% brasileiros sofrem com o bruxismo de vigília. 

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Bruxismo noturno X bruxismo de vigília

O bruxismo do sono já foi considerado o grande vilão dos distúrbios de ATM (articulação temporomandibular) porque durante a noite o rangimento ou apertamento dos dentes é de alta intensidade, mas baixa frequência. Já o bruxismo de vigília (ou diurno) costuma ser de baixa intensidade, porém alta frequência. Ou seja, você sobrecarrega essa articulação com menos força, porém, faz isso por mais tempo.

“Diferente de ranger os dentes durante a noite, o bruxismo de vigília é caracterizado pelo hábito de apertar ou encostar sutilmente os dentes ou até tensionar a mandibular de forma inconsciente durante a vigília, acordado!”, explica o Dr. Alain Haggiag, cirurgião dentista, diretor clínico da LIVA. “Uma das características mais importantes é que esse comportamento é quase sempre inconsciente; o paciente não percebe que está apertando os dentes ou contraindo a musculatura da face e da cabeça. Normalmente a pessoa permanece por períodos longos fazendo isso, principalmente em momentos de tensão, estresse ou até mesmo quando está concentrada lendo um livro, estudando, usando o computador ou assistindo TV”, completa o médico.

Sintomas e consequências

O bruxismo é uma atividade realizada pelos músculos da mastigação sem nenhuma função prática para o corpo. E existem dois tipos o cêntrico e o excêntrico. “Existem pacientes que apertam os dentes e pacientes que apertam e rangem os dentes. Nas duas situações caracterizamos como bruxismo, isto é, movimentos involuntários da musculatura”, explica o Dr. Alessandro Silva, mestre e doutor em cirurgia buco-maxilo-facial pela USP e Unicamp e diretor da clínica Maxilart.

E pior, além de ser inútil, ele pode trazer diversas consequências “como lesões orofaciais (pele, ossos, dentes e músculos da face e da cavidade oral), desgastes dentários, lesão periodontal (área da gengiva e base dos dentes), distúrbios da articulação temporomandibular (ATM) e dor muscular. O quadro clínico ainda pode envolver alterações na musculatura mastigatória, fadiga, mialgia (dor muscular), miosite (inflamação nos músculos que causa fraqueza), assimetria na atividade muscular e comprometimento das funções”, explica Dra Juliana Brasil, estomatologista da Clínica de Oncologia Médica Clinonco.

Para saber se você corre esses riscos, fique atento aos sintomas: estalido no maxilar ao abrir a boca, dores de cabeça que se tornam frequentes, dores musculares e nos maxilares, cansaço ou desconforto durante a mastigação e dores na boca que irradiam para cabeça . “O bruxismo é uma problema crônico, mas que pode ser controlado. O principal é descobrir a causa e iniciar o quanto antes algum tratamento”, completa Juliana.

Causas

O bruxismo em vigília pode estar relacionado a algumas cefaléias - tipos específicos de dor de cabeça. "Ele se associa com cefaleia do tipo tensional e cefaléia diária. E é uma comorbidade frequentemente encontrada na enxaqueca”, explica a Dra Aline Turbino, neurologista mestre em neurociências pela Unifesp-SP. “O toque leve e constante dos dentes é um hábito presente em 52% dos pacientes com DTM e Cefaleia e o bruxismo de vigília é 4 vezes mais frequente que o bruxismo do sono em pacientes portadores de cefaleia. Ele também pode aparecer como efeito colateral de algumas medicações, como as utilizadas no tratamento da ansiedade; em usuário de drogas como a cocaína, por exemplo; e em pacientes que sofrem de alterações neurológicas (paralisia cerebral, Parkinson)”, pontua o Dr. Alain Haggiag. No entanto, ansiedade e estresse também podem desencadear o bruxismo de vigília - e esses dois sentimentos estão em alta nesses meses de pandemia, não é mesmo?

Tratamentos

Muitas pessoas podem demorar anos para ter um diagnóstico preciso de bruxismo de vigília. Por isso é muito importante relatar ao seu dentista se sofre de dor na região das têmporas e da face e também sobre hábitos que parecem não ter relação, como roer unhas, mascar chicletes e morder canetas e é claro, se mantém os dentes encostados durante o dia. O cirurgião dentista da LIVA explica que a distância ideal entre os incisivos maxilares e mandibulares, na posição vertical, deve variar de 1 a 4 milímetros. “É uma posição em que os músculos elevadores e depressores da mandíbula estão em repouso. Nesta posição as dores musculares, cefaleia e tensão tendem a diminuir.”

É importante saber que não existe um único tratamento para a cura do bruxismo. O indispensável é entender a causa esse bruxismo. “Se for um bruxismo causado por desarmonia dos dentes, às vezes a estabilização da mordida pode deixar o paciente numa situação de equilíbrio. Se ele tem um bruxismo causado por problema respiratório (apneia obstrutiva, por exemplo), o tratamento da apneia – por procedimento cirúrgico ou outros – pode fazer com que desapareça. Mas existem casos de ordem central e psicossomática, que às vezes permanecem mesmo depois de eliminado o problema, e nesses casos o tratamento é paliativo, para minimizar os efeitos colaterais desse problema”, explica o Dr. Alessandro Silva. 

Todo tratamento de bruxismo começa  pela observação detalhada, controle de ansiedade, estresse e tentativas naturais de melhorar a qualidade de vida. A estomatologista Juliana Brasil, da Clinonco indica que meditação, yoga, massagens faciais e sono reparador podem ajudar a melhorar e controlar esse gatilho. “Se essas tentativas não surtirem efeito entram em cena os tratamentos mais específicos como o uso de placas miorrelaxantes (espécie de aparelho plástico usado nos dentes), aplicação de toxina botulínica, acupuntura e laser acupuntura, além do chamado biofeedback, que ajuda o paciente a controlar os hábitos diurnos”, ensina Juliana.

Este último, muito simples, consiste em colar um post-it no computador, na geladeira, no carro ou em aplicativos e alarmes de celular com a mensagem em: Não apertar os dentes! Na clínica LIVA, do Dr. Alain Haggiagdica há ainda um tratamento novo, que consiste na colocação (não invasiva) de um dispositivo que fica dentro da boca, monitorando as contrações, ajudando o paciente a reverter o hábito através de conscientização do gesto e reeducação.

“Após longos e frutíferos anos de pesquisas, iniciadas na Universidade de Paris em 2004 e complementadas na Faculdade de Odontologia da USP e no Hospital das Clínicas da Faculdade de medicina da USP, desenvolvi um tratamento reversível, não invasivo, que não requer o uso de nenhuma substância química e que, por consequência, não apresenta praticamente nenhuma contra indicação. Em aproximadamente 45 dias a maioria dos pacientes deixam de ter o gatilho”, acrescenta o Dr. Haggiag.

O Dr. Alessandro Silva dá a orientação final: “quando falamos em bruxismo precisamos ter um tratamento interdisciplinar que envolve a participação de alguns profissionais: cirurgião dentista, clínico geral, cirurgião buco maxilo, às vezes um ortodontista, otorrinolaringologista, psicólogo para entender as reações psicossomáticas, e dependendo do diagnóstico um psiquiatra também. O mais importante é que o paciente seja acompanhado de perto por um profissional que tenha ampla experiência sobre o assunto.”