'Bruxas' feministas provocam fúria do patriarcado no Paquistão

Joris FIORITI
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A atriz paquistanesa Mehar Bano, protagonista de "Churails" ("Bruxas" em urdu), é maquiada em uma gravação de outra série em Karachi (sul)
A atriz paquistanesa Mehar Bano, protagonista de "Churails" ("Bruxas" em urdu), é maquiada em uma gravação de outra série em Karachi (sul)

A série on-line "Churails" ("Bruxas" em urdu) fala de amor lésbico, exploração sexual e hegemonia masculina. Suas protagonistas são mulheres que se vingam do patriarcado no Paquistão, algo sem precedentes que deixa os conservadores enfurecidos.

Duas mulheres ricas e outras representantes do povo destruídas pelos homens abrem uma agência de detetives para localizar os maridos infiéis, usando como disfarce uma loja de roupas halal (permitida pela religião muçulmana). E acabam derrotando uma organização machista e criminosa.

A polêmica surgiu nas redes sociais por conta dos diálogos de uma cena, que deixaram parte da audiência indignada, principalmente os homens.

"Tive que masturbar duas vezes ao dia um homem que tinha o dobro da minha idade" para ser contratada, explica a diretora de uma empresa na série. "Depois tive que fazer muito mais para ser recepcionista. Mais tarde, fui estilista. E por último sua esposa", completa.

Alguns tuítes incendiários fizeram com que a série fosse retirada do Paquistão, "de acordo com uma norma" das autoridades, informa a plataforma de vídeo indiana que a divulga, a Zee5.

"Bruxas" foi "restabelecida" depois que vários pontos problemáticos foram "resolvidos", acrescenta em um comunicado.

A cena abordava "uma emergência", "a exploração das mulheres no local de trabalho, principalmente as mais desfavorecidas", afirma Mehar Bano, uma das protagonistas da série.

Mas, em um país onde "a cultura da proibição" é forte e "muitos problemas são ocultados", a "brigada da moral" impôs seu ponto de vista, acrescentou, suspirando. 

"Como solucionar um tema do qual não se fala?", questiona a atriz.

- "Um espelho" -

A lista de tabus abordados pela série parece interminável: incesto, homossexualidade, alcoolismo... "Quis colocar um espelho diante da nossa sociedade", explica Asim Abbasi, o diretor. Através de "Churails", que é transmitida apenas on-line, "quis fazer ouvir as vozes dessas mulheres que nunca vi, ou ouvi, na televisão".

"Recebo muitas mensagens que dizem que torno a imoralidade glamourosa", lamenta Asim Abbasi. Mas "falar de um problema não significa glorificá-lo", alega o diretor, acrescentando que busca "iniciar um diálogo" sobre esses assuntos.

Não parece o momento certo. Nos últimos meses, as autoridades paquistanesas iniciaram uma perseguição contra a "indecência" e a "imoralidade".

O popular aplicativo de vídeos TikTok foi proibido por dez dias em outubro. Tinder, Grindr e outros aplicativos de relacionamento estão bloqueados desde setembro. Um anúncio publicitário de biscoitos em que uma famosa atriz dança teve o mesmo destino.

"Essas proibições causarão um forte impacto no setor tecnológico no Paquistão", lamenta o ex-ministro da Informação e atual ministro de Ciências Fawad Chaudhry, que diz estar "em desacordo" com o governo sobre este assunto.

"É impossível definir a indecência. Cada pessoa tem sua própria definição", opina.

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