Bruce LaBruce usou pornô com gêmeos para criar filme sobre fé, incesto e narcisismo

LEONARDO SANCHEZ
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um chicote de couro está escondido debaixo de uma das camas de um monastério. Noviços nadam nus e flertam descaradamente num lago. Cantos gregorianos embalam uma longa sequência de masturbação. Muita gente ficaria escandalizada com essas cenas, mas não Bruce LaBruce, o diretor canadense que as dirigiu para seu mais novo filme, "Saint-Narcisse". Na verdade, o longa passa longe das polêmicas e da explicitude que há anos acompanham a filmografia de LaBruce. Para grande parte do público, é verdade, ele pode ser bastante incômodo. Mas é fichinha para quem já visitou obras como "The Raspberry Reich", em que o cineasta brincou com o termo "ditadura gayzista" anos antes de ele virar motivo de briga política e meme no Brasil. No filme de 2004, conhecemos um grupo terrorista de esquerda, formado por uma mulher e seus comparsas homossexuais, que sequestram o filho de um poderoso empresário. Ao longo da trama, ela insiste que os colegas precisam abandonar a monogamia e a heterossexualidade, enquanto assiste --e nós também-- a suas descobertas sexuais. Em "Saint-Narcisse", no entanto, LaBruce dá preferência às sutilezas do erotismo em detrimento do sexo cru e gráfico. Tanto que o longa foi exibido em festivais conceituados, como Toronto e Veneza --onde chegou a receber um prêmio paralelo. Mas já há alguns anos, principalmente a partir do conhecido "Gerontophilia", que o cineasta trabalha para conquistar um público mais mainstream. "Eu acho que todo cineasta, em determinado ponto da carreira, quer alcançar audiências maiores. Você não quer pregar para os convertidos, falar sempre com as mesmas pessoas. Então eu estou tentando fazer filmes com orçamentos maiores, porque assim consigo experimentar mais, fazer coisas mais ambiciosas", diz LaBruce, por videoconferência. "Saint-Narcisse" chega agora ao Brasil como um dos destaques do 28º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, principal evento de cultura LGBT do país, que já recebeu LaBruce em anos anteriores. A edição mistura programação online e presencial, com atrações nas áreas de cinema, música, teatro e literatura, além de debates, até o dia 22 de novembro. Mas o canadense é exceção numa safra internacional de filmes encabeçada por histórias mais fofas e comportadas. É o caso do amor adolescente de "Verão de 85", de François Ozon, e do romantismo de "I Carry You with Me", de Heidi Ewing, que terão sessões no Cinesesc. "Saint-Narcisse", assim como alguns outros títulos estrangeiros e todos os nacionais, ficará disponível online. No longa de LaBruce, conhecemos Dominique, um jovem dos anos 1970 que já era fissurado em selfies. Quando sua avó morre, o rapaz descobre que sua mãe está viva, morando numa cabana com uma mulher mais jovem. Nos arredores, um monastério é lar de um monge inquietantemente parecido com ele. "O título original do longa era 'Twincest'", acrescenta LaBruce, brincando com as palavras inglesas para gêmeos e incesto, e mostrando que a vontade de ampliar seu público não o impediu de tocar em temas espinhosos. "Eu estava fascinado por pornô de gêmeos e essa me pareceu uma boa oportunidade de atualizar o mito de Narciso." Na história grega, o personagem-título era admirado pela beleza, apesar de sua egolatria. Depois de desprezar diversos pretendentes, ele foi condenado pelos deuses a se apaixonar pelo próprio reflexo e passou os dias definhando diante de uma lagoa. Em outra versão do mito, ele se envolve amorosamente com a própria irmã gêmea. "Não há nada de novo no meu filme, eu só o fiz de uma maneira mais afetada, melodramática", afirma LaBruce. "A ideia de uma pessoa fazer amor consigo mesma, com seu sósia, sua outra metade, está muito alinhada ao tipo de narcisismo que se tornou uma epidemia com as redes sociais. Então eu misturei essas ideias e adicionei tons gays a ela." A religião, diz ele, veio dessa vontade de homoerotizar seu roteiro e se manifesta, por exemplo, na figura onipresente de são Sebastião, mártir cristão de físico atlético atravessado por flechas e considerado, tanto pela comunidade LGBT quanto por alguns historiadores, um símbolo gay. "Não existe isso de provocar demais", diz LaBruce sobre a convergência de prazer sexual e religião em seu trabalho. "Eu amo chocar, é algo incrível no cinema. As pessoas precisam ficar chocadas para repensarem suas suposições e convenções. Para mim, essa é a função do cinema." "Meus filmes são quase todos sobre algum fetiche. Esse amor delas por algum desejo incomum se assemelha muito à religião, elas têm uma devoção extrema por um objeto ou uma ideia. É um comprometimento tão grande que me atrai e que tem muita relação com a contemplação espiritual." Agnóstico, o iconoclasta afirma ser atraído por pessoas com alguma crença ou devoção muito fortes. "Eu tenho certa inveja, porque essa é uma experiência que eu nunca tive", diz LaBruce, destacando que cresceu num lar protestante, que ele chama de tedioso e mundano, em contraste com a paixão e o exotismo da fé católica ou xiita, por exemplo. Não é só na telona que essa tendência do trabalho de LaBruce se manifesta. Também fotógrafo e artista plástico, o canadense costuma ousar em obras de outros campos da cultura. Nas telinhas do computador, por sua vez, encontrou terreno fértil para se esbaldar no sexo, dirigindo filmes para sites adultos. "Eu tenho tentado fazer obras mais mainstream e também continuar com os meus trabalhos pronográficos, o que é muito raro --não são muitas pessoas que fazem as duas coisas. Mas eu considero que todo pornô é arte, de certa forma. É fruto de um esforço criativo, que usa técnicas audiovisuais. E eu sempre faço pornôs mais narrativos, com humor ou algo assim. É um pornô com sensibilidade." O tabu no qual a pronografia é envolta, ele completa, tem muita relação com os fetiches que ele aborda nos seus filmes que frequentam festivais de cinema --ambos são considerados sujos, errados, sem que haja uma discussão sobre o que neles gera tanto fascínio. "Muita gente olha com desdém para os pornógrafos. Assistem a pornografia, mas julgam as pessoas que a fazem. E, assim como fetiches, isso não é algo necessariamente nojento, vil ou grotesco. Eu tento lidar com esses temas com certo romantismo, tentando entender o porquê de serem tabus", diz LaBruce. "Eu sou fascinado por essa área cinzenta na qual traçamos a linha do que é permitido e o que não é. Em 'Saint-Narcisse' isso é mais sutil, mas é um filme sobre incesto, no qual esse fetiche se manifesta de diversas formas, mesmo que apenas simbolicamente. Nós não podemos simplesmente fingir que esses e outros desejos sexuais não existem. E é pela arte que podemos explorar esses tabus."