Brasileiro sabe como evitar a dengue, mas não adota todas as medidas

Ludimila Honorato


O alerta para a dengue voltou a ganhar força após o Ministério da Saúde informar que o número de casos da doença no Brasil em 2019 foi o segundo mais alto da série histórica. A prevenção contra o Aedes aegypti, que também transmite zika e chikungunya, vai desde evitar o acúmulo de água, controlar o lixo e até reduzir a violência, mas há medidas tão importantes quanto que os brasileiros não estão colocando em prática.

Uma pesquisa online feita pelo Ibope a pedido da Cruz Vermelha Brasileira coletou informações sobre o comportamento de 3.165 pessoas de todas as regiões do País. Os resultados mostram que, embora 81% da população se declare bem informada sobre como prevenir a dengue e saiba quais são as medidas preventivas, apenas 16% usa inseticida aerossol, 18% adere ao repelente elétrico líquido e 41% usa o produto específico para o corpo.

A baixa adesão a essas medidas mais individuais preocupa porque 80% dos criadouros do mosquito estão dentro das casas. "As pessoas negligenciam os riscos e, pelas atribuições do dia a dia, se esquecem desses cuidados", diz Jean Gorinchteyn, infectologista do Hospital Emílio Ribas.


Júlio Cals, presidente da Cruz Vermelha Brasileira, afirma que os dados da pesquisa surpreenderam. "As pessoas sabem fazer, mas não operacionalizam isso de fazer todo dia e de estarem preocupadas em erradicar a dengue no Brasil", avalia. Evitar o acúmulo de água é a medida de prevenção mais disseminada e mais conhecida entre os brasileiros, tanto que 89% das pessoas disseram verificar isso, mas só 48% o faz todos os dias.

O comerciante Marco Proti, de 52 anos, pegou dengue em 2017 pela segunda vez. Na época, afirma, não se preocupava com a doença, apesar de ver lixo "em tudo quanto é parte" de Piracicaba, cidade onde mora. Como viaja muito, hoje ele diz tomar mais cuidado com os lugares aonde vai e passa repelente quando vê que é necessário. "Mas acho difícil tomar todos os cuidados, é humanamente impossível escapar. Quando você menos espera, pode ser tarde, já foi contaminado", diz.

Já o advogado Filipe Jucá Pinheiro, de 28 anos, conta que se previne mais atualmente depois de ter contraído a doença por volta dos 14 e dos 18 anos de idade. A principal medida é evitar água parada e confessa que não aderiu a outras ações. "Cuidados pessoais como usar repelente ou alguns produtos para evitar picadas não faço. Inclusive, já notei ser picado várias vezes, porém nunca mais tive a doença", afirma.

Prevenção contra dengue é possível

O infectologista Gorinchteyn explica que todas as pessoas podem contrair dengue até quatro vezes, que é o número de subtipos existentes da doença. A cada contágio, o organismo cria imunidade para o tipo específico. Assim, quem ficou doente uma vez ainda corre risco e é fundamental prevenir.

Embora o uso de repelentes, aerossol e cuidados com ralos, pias e caixas d'água sejam atividades individuais, o benefício é coletivo. "Se cada pessoa cuidar do seu ambiente, do seu lar e fiscalizar onde tem foco de mosquito, aquilo pode realmente fazer diferença, inclusive para os vizinhos", diz o presidente da Cruz Vermelha do Brasil.


A professora universitária Leliane Rocha, de 52 anos, pegou dengue em 2015, uma semana após o marido ficar doente. O casal acredita que ele contraiu a doença quando foi picado dentro de um elevador em São Vicente, no litoral paulista, porque viu e matou um mosquito. Ela foi diagnosticada já em São Paulo.

"Eu sempre tive muito cuidado com plantas, com água [parada]. Mas tive muitos problemas com meu vizinho que tinha uma caixa d'água e deixava aberta, com tampa trincada", conta ela. "Sempre tive cuidado e até hoje nós temos medo de pegar dengue novamente."

O uso de inseticidas e repelentes também é uma prática do casal, mas ela conta que, depois de um tempo, pararam com a "neura" de passar todos os dias. Eles retomaram o hábito no ano passado após mais focos do mosquito surgirem na rua onde moram.

Conscientização sobre a dengue

O médico do Hospital Emílio Ribas comenta que esse tipo de cuidado não ocorre na frequência que deveria porque muitos desconhecem que repelente e inseticida sejam formas de proteção. A pesquisa do Ibope mostrou que 56% das pessoas se informam sobre prevenção da dengue pela televisão, jornais, revistas e sites de notícias. Só 9% apontou que recebem essas informações de profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros.

"Muitos profissionais desconhecem outras práticas que não somente cuidados com focos do Aedes. Talvez haja limitação da informação, existem informativos que não se aprofundam, simplesmente falam que existe foco e para usar repelente. É extremamente importante que pessoas tenham acesso à informação, inclusive a própria comunidade médica para poder disseminá-la", diz o infectologista Jean Gorinchteyn.

USDA/Divulgação

Para levar conscientização adiante, a Cruz Vermelha conta com quase 60 mil voluntários em todo o País que, entre outras atividades, fazem visitas e mutirões nas cidades. Desde 2018, a organização realiza o projeto #JuntosContraOMosquito, em parceria com a empresa SBP, que promove ações de limpeza para a eliminação dos focos de mosquitos, além de distribuição de materiais educativos e produtos de prevenção.

Comportamento do mosquito da dengue mudou

Gorinchteyn diz que, uma semana após o mosquito fêmea colocar os ovos, já existe risco de contrair a doença. "Não adianta subir na caixa d'água a cada 30 dias", alerta. O repelente deve ser usado com frequência e de forma correta.

"Até na praia, que tem presença de mosquito, o ideal é passar o protetor solar primeiro e depois borrifar o repelente", orienta. O médico recomenda o uso de produtos de ação prolongada, com necessidade de reaplicação a cada dez ou 12 horas. Se a pessoa suou muito ou entrou na água, é preciso passar em menos tempo.

Na pesquisa do Ibope, 4% das pessoas acreditam não correr o risco de contrair dengue e há quem pense o mesmo por morar em andares altos de prédios. "O mosquito não chega ao décimo andar voando, mas pode subir pelo elevador, na roupa de outras pessoas", diz Júlio Cals, da Cruz Vermelha Brasileira.

Também acredita-se que o mosquito se prolifera apenas em períodos de chuvas e calor. O infectologista diz que o Aedes criou uma adaptação e, mesmo com baixa temperatura, há risco, embora menor. Outra mudança é em relação à água parada: ouve-se que a água precisa estar totalmente limpa para que o mosquito ponha ovos, mas o médico afirma que a mínima quantidade de oxigênio já é fator de risco para o desenvolvimento de novos mosquitos.