“Brasil vive colcha de retalhos de loucura”, define Leandro Hassum

(Imagem: divulgação Paris/Downtown)

Nas próximas eleições, Leandro Hassum quer seu voto. Não exatamente ele, mas seu personagem João Ernesto, que volta aos cinemas em ‘O Candidato Honesto 2’, com estreia marcada para 30 de agosto, pouco mais de um mês antes do Brasil ir às urnas para escolher o próximo presidente. Desta vez, o protagonista sai da cadeia e, apesar de hesitar, aceita voltar a tentar se eleger. Sua única condição é falar sempre a verdade, agora por vontade própria. Algo que, na prática, não tem muito a ver com política.

A situação do país que o filme retrata nesta continuação é ainda mais caótica do que a de quatro anos atrás, quando o original foi lançado. Tornou-se comum dizer que nem os mais talentosos escritores de humor conseguiriam competir com os fatos vindos de Brasília noticiados diariamente. “A gente teve que escolher no que focar, senão acabaríamos com uma colcha de retalhos, que é também um pouco o que o Brasil está vivendo: uma colcha de retalhos de loucuras”, compara o ator, em entrevista exclusiva ao Yahoo!. “A gente escolheu as loucuras que ainda dão para brincar, porque tem coisa que é tão barra-pesada que não dá nem pra achar humor nisso”.

“Acompanhar a política brasileira é impossível”, reconhece Paulo Cursino, roteirista que, além do novo filme, trabalhou em comédias de sucesso como ‘Até que a Sorte os Separe’ e ‘De Pernas Para o Ar’. “O que fizemos foi escolher alguns eventos-chave, como o impeachment e a traição inter-partidária que houve no país e trabalhamos em cima disso. Mas mesmo assim, é difícil. Eu não consegui prever, por exemplo, um Cabo Daciolo”, diz, numa alusão ao candidato que chamou a atenção e virou meme no primeiro debate entre a turma de presidenciáveis de 2018.

Em ‘O Candidato Honesto 2’ é possível ver paródias bem claras ao ex-presidente Lula (citações a sítios, triplex, além do refrão ‘João, ladrão, roubou meu coração’, criado por seus defensores), Bolsonaro (um candidato chamado Pedro Rebento, com o slogan “eu prendo e arrebento” e que promete armar toda a população como solução aos problemas do país), sem falar num vice-presidente com aspecto de vampiro e capaz das mais diversas jogadas para tomar o poder, interpretado por Cassio Pandolfh com semelhança assustadora a Michel Temer.

A opção por estas figuras não tem nenhum caráter ideológico, segundo Cursino e Hassum. “A intenção era gerar identificação. Escolhemos figuras que o público fosse capaz de olhar e reconhecer de quem estamos falando”, justifica o roteirista. “Mas lógico que vai ter gente querendo tirar lição de moral”, completa o ator, se isentando de qualquer leitura mais aprofundada que o longa propicie. “É igual quando você vai a um museu: você olha o quadro, às vezes o artista fez um negócio lá, e um cara fala assim: ‘Isso aí representa a dor e o sofrimento…’ e, quando vai ver, aquilo foi feito só porque sobrou um tecido na casa do artista e ele resolveu montar aquela parada. Vai da visão de cada um”.

“Hoje em dia uma das coisas chatas que estão acontecendo no âmbito político e social é que as pessoas estão se levando muito a sério. Perdem amigos por conta de posicionamento, uma discussão que poderia ser saudável vira radical”, declara. Para comprovar este discurso de que há de se ter a capacidade de tirar sarro com a própria cara, foi incluída no filme uma cena em que o personagem João Ernesto faz duras críticas ao humor de Leandro Hassum – não sem atacar ao mesmo tempo o “outro lado”, das obras mais autorais dos nossos cinemas, como ‘Aquarius’.

O não posicionamento como um todo é consciente e proposital, feito para agradar quem se acostumou a repetir lugares-comuns como “político é tudo ladrão” e entusiastas do voto nulo. Até mesmo personagens de boa índole, como a jornalista Amanda (vivida por Rosanne Mulholland) acabam engolidos pelo jogo de interesses, dando a entender que a causa está perdida.

“Neste filme a intenção sempre foi avançar a discussão. Mostrar que a corrupção não é o grande problema, mas um dos muitos grandes problemas que nós temos. A gente fala dos partidos, do congresso, de alianças. Tudo isso para sair da discussão um pouco ingênua e entrar na política de verdade”, defende-se Paulo Cursino. “A gente não propõe uma solução. Não estamos aqui para oferecer soluções. Estamos aqui para fazer perguntas”.

“Eu estou cagando para lados”, resume Hassum. “Eu quero que o Brasil saia bem disso tudo. Para mim todos os lados estão errados. Agora, se eu não puder rir um pouco, a vida vai ficar muito mais pesada.”