Brasil usa do racismo “sutil” e “velado” para seguir desumanizando população negra

Racismo não é velado e nem sutil (Foto: Getty Images)
Racismo não é velado e nem sutil (Foto: Getty Images)

“Falar sobre racismo não é confortável, não é leve, não é fácil”. Com a frase, a Consultora de Diversidade e influenciadora de moda, beleza e bem-estar, Luanda Vieira, inicia um relato em vídeo, em que compartilha com o público o caso de racismo que sofreu no Studio Lorena.

Os detalhes serão deixados de lado nesse texto, já que revisitar a dor pode ser um grande gatilho para muitos de nós. Foquemos, então, em dois aspectos importantes a serem tirados do relato de Luanda: as sutilezas do racismo no Brasil nada têm de sutis. Ele é escancarado e cruel. A segunda nos fala sobre estereótipos que mulheres negras ainda precisam enfrentar no país. Um deles é que uma mulher negra em lugares de poder, ditos elitizados são sempre confundidas com estrangeiras.

Não lugar

A comunicadora, ativista e influenciadora Ana Paula Xongani traduz bem o que muitas experienciam: “É um sentimento de não pertencimento. As pessoas não estão acostumadas com a ascensão de mulheres negras no nosso país”.

Ana traz também outro ponto interessante: ainda achamos que o debate sobre beleza e negritude está no campo das sutilezas, descolado das políticas públicas. Dessa forma, casos como o de Luanda e outras mulheres passam sem ter a atenção devida. Falar da beleza negra é falar de autoestima, autocuidado/ cuidado com o outro e também saúde.

“A comunicação sobre beleza precisa acontecer não só nas redes, mas nas mídias tradicionais. Foi construído um imaginário sobre o que é belo, sobre as pessoas que frequentam os territórios da beleza. Os casos estão cada vez mais absurdos, mas por muito tempo nem absurdo foi. Hoje a gente consegue entender o cenário”.Ana Paula Xongani

O Big Brother Brasil deste ano rendeu bons debates sobre a temática. (Foto: Reprodução/ @carlaakotirene)
O Big Brother Brasil deste ano rendeu bons debates sobre a temática. (Foto: Reprodução/ @carlaakotirene)

Nomear os algozes

Para Ana Paula Xongani, é preciso “nomear os algozes”. O “racismo velado” pode parecer sutil para o outro, para quem é branco e privilegiado, mas não existe “velado” quando olhamos para as estatísticas e vemos que jovens negros morrem mais.

“Tanto a população negra quanto a mulher foram historicamente constituídos por representações marcadas pela violência simbólica e por um conjunto de exclusões”, escrevem Elisabete Figueroa, Maria Fernanda Diogo e Lia Vainer no artigo “Entre o não lugar e o protagonismo: articulações teóricas entre trabalho, gênero e raça”.

Segundo as autoras, é importante ressaltar a perspicácia das mulheres negras em lidarem com os recursos disponíveis na construção de alicerces fecundos para suas famílias e comunidades. “Mais que alicerçar, elas edificam pontes, reinventam liberdades e fortalecem as superações. São ‘agentes emancipatórios vitais às suas comunidades’”.

Por outro lado, é também necessário que a sociedade consiga reconhecer e dissipar seus privilégios. A tarefa não é fácil. Ainda segundo Xongani, é difícil reconhecer essas vantagens, pois é mais cômodo e fácil garantir a manutenção dos privilégios.

Ainda assim, a comunicadora é esperançosa e reforça a importância da comunicação no processo: “O que a gente tem hoje é importante: a oportunidade de sistematizar essas violências, nos organizar a partir do discurso e ter ação. A gente está fazendo! Esse monte de negros e negras em movimento está mudando muita coisa. A gente está estudando muito, dominando linguagens. A gente está num lugar de poder, que é a comunicação. Cada vez que mais uma chega no ambiente de comunicação, é lindo e potente a conversa que a gente está tendo”.

Xongani é mãe e fala sempre da maternidade negra. (Foto: Reprodução/Instagram @anapaulaxongani)
Xongani é mãe e fala sempre da maternidade negra. (Foto: Reprodução/Instagram @anapaulaxongani)

Todo estereótipo é cruel

A publicitária Gabriela Martins também dividiu sua trajetória. Entre ser mal atendida em lojas, não ser atendida e precisar ouvir comentários sobre seu cabelo crespo, ela reforça como o estereótipo da “mulher negra guerreira” a desumaniza. “Você tira a necessidade do cuidado, da atenção, da necessidade de ocupar espaços. Acho que esse estereótipo é extremamente violento”.

Gabriela recupera também um debate importante para enfrentarmos o racismo: o autorreconhecimento da população negra. “Eu mesma descobri com 22 anos que sou negra. Se você não entende a cor, como vai entender o racismo? Hoje, com o letramento racial que tenho, consigo ver que várias situações do passado podem ser consideradas racismo”, complementa.

Ela cita um exemplo comum: por que mulheres negras são consideradas agressivas quando usam o mesmo tom de voz ou se comportam de forma semelhante ao restante das pessoas? A socióloga Winnie Bueno fala em “Policiamento de tom” para descrever.

Gabriela Martins gosta de usar o cabelo em vários penteados, texturas e tamanhos. (Arquivo pessoal)
Gabriela Martins gosta de usar o cabelo em vários penteados, texturas e tamanhos. (Arquivo pessoal)

Winnie pesquisa sobre “Imagens de Controle” e coloca em cheque como as experiências de mulheres negras no mercado de trabalho ainda são atravessadas pelas violências de raça, classe e gênero.

“Agressiva, raivosa, passiva, preguiçosa, metida... muitas são as formas de nomear as experiências de mulheres negras no mercado de trabalho mas poucas são as oportunidades de compreender como que as imagens de controle atuam para manter mulheres negras em trabalhos com menor remuneração, maior carga horária e complexos esquemas de violência institucional que encolhem as possibilidades dessas mulheres.”

Nomear os algozes, sair da esfera acadêmica, trazer exemplos, gritar sobre o assunto ainda são formas de enfrentar o racismo. "Aterrissar na linguagem de massa”, pontua Gabriela.

“Quando falamos de nós mulheres negras dentro de uma empresa internacional, o nosso papel é de confrontar. Por mais que seja indigesto, eu entendo que se eu tive oportunidade de chegar até aqui por meio de outras mulheres que falaram, é meu papel falar para que outras também cheguem. A gente tem que confrontar, fazer barulho, incomodar”.Gabriela Martins