Brasil celebra 2º turno das eleições municipais de olho nas presidenciais de 2022

Joshua Howat Berger
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Brasileiros votam no primeiro turno da eleição municipal em 15 de novembro de 2020

Com o comando das prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro em jogo, o Brasil celebra no domingo (29) o segundo turno das eleições municipais, que podem dar pistas sobre a possibilidade de reeleição do presidente Jair Bolsonaro em 2022.

A vitória de Bolsonaro, chamado de "Trump dos trópicos", coroou em 2018 o avanço de uma onda ultraconservadora que deu sinais de enfraquecimento no primeiro turno de 15 de novembro, quando apenas dois dos 13 candidatos a prefeitos apoiados pelo presidente foram eleitos, enquanto outros dois estão na disputa.

"Como diria Trump, Bolsonaro apoiou um monte de perdedores", ironizou o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB).

Esses resultados, assim como a derrota de Trump nos Estados Unidos, "não deixam [Bolsonaro] em sua melhor forma para 2022", disse Fleischer à AFP.

O segundo turno acontecerá em 57 cidades, incluindo São Paulo, em meio à pandemia do novo coronavírus, que já deixou mais de 170 mil mortos e mergulhou o país na recessão.

A resposta à covid-19 tem causado fortes tensões ao longo do ano entre o governo Bolsonaro, contrário às medidas de confinamento, e governadores e prefeitos, que têm amplos poderes em matéria de saúde.

- Outros candidatos -

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas enfrenta Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e candidato pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Covas, de 40 anos, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), obteve 33% dos votos no primeiro turno, contra 20% de Boulos, de 38.

As pesquisas inicialmente deram a Covas uma vantagem de 15 pontos no segundo turno, mas essa margem caiu para 10 nos últimos dias.

Jovem e carismático, Boulos ultrapassou não só o candidato apoiado por Bolsonaro, como também Jilmar Tatto, apoiado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Covas, que desde o ano passado trata de um câncer no aparelho digestivo que afetou também seu fígado e linfonodos, tem o apoio do governador de São Paulo, João Doria, um dos nomes mais citados para desafiar Bolsonaro na próxima eleição presidencial.

No Rio de Janeiro, as pesquisas indicam que o ex-prefeito Eduardo Paes, do Partido Democratas (DEM), deve derrotar com ampla margem o candidato à reeleição Marcelo Crivella (Republicanos), pastor evangélico licenciado, aliado de Bolsonaro.

Mas os olhos também se voltam para outros duelos, como Recife, onde se enfrentam os primos e herdeiros da política regional João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT).

Manuela D'Ávila, do Partido Comunista Brasileiro (PCdoB), disputa com Sebastião Melo, do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a prefeitura de Porto Alegre, cidade palco de protestos após um homem negro ser morto por dois seguranças em um supermercado Carrefour.

- Bolsonaro chamuscado -

Devido à pandemia de coronavírus, as eleições foram adiadas em seis semanas, e a campanha entre o primeiro e o segundo turno foi reduzida para duas semanas, em vez das habituais três, ou quatro.

Analistas acreditam que isso afeta principalmente candidatos como Boulos, que tem subido nas pesquisas.

A pandemia e a crise econômica também contribuíram para o mau desempenho dos candidatos apoiados por Bolsonaro, dos quais apenas Crivella, no Rio de Janeiro, e o capitão Wagner Sousa Gomes, em Fortaleza, foram para o segundo turno.

Sem partido político, Bolsonaro apoiou 45 vereadores, mas apenas nove venceram nas urnas.

Já os partidos da direita moderada se fortaleceram.

"Houve um crescimento de partidos tradicionais do centro e da centro direita, que voltaram a ocupar o espaço que eles haviam perdido para a ultradireita do Bolsonaro", apontou Marjorie Marona, cientista política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A mensagem das urnas no primeiro turno parece ser que "o Bolsonaro não é o fenômeno que as pessoas pensavam que era", disse o analista político Michael Mohallem, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). E, "se essa leitura inicial estiver certa, Bolsonaro vai ter muita dificuldade de se reeleger", acrescentou.

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