'Brasil ainda não alcançou a civilização', diz diretor de filme sobre segurança pública no RJ

(Imagem: divulgação ArtHouse)

Também morre quem atira. O verso cantado na versão da banda O Rappa para a clássica ‘Hey Joe’, do lendário guitarrista Jimi Hendrix, poderia servir de slogan para o documentário ‘Relatos do Front’, que chega nesta quinta-feira aos cinemas disposto a provocar debates sobre um tema espinhoso: como lidar com a violência e a segurança pública no Brasil.

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Para ampliar o leque de sua abordagem, o diretor Renato Martins decidiu dar o mesmo peso aos depoimentos de policiais e às falas de quem sofre com as ações do Estado nas comunidades do Rio de Janeiro, mostrando que ambas as partes têm muito a perder neste contexto de guerra permanente que existe no país.

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“Se criou uma barreira entre polícia e sociedade que não beneficia nenhum dos dois lados”, diz Martins, em entrevista exclusiva ao Yahoo!. “Beneficia quem está querendo coisas que eu não acredito que sejam o que a sociedade de fato quer: vender mais armas, vender mais medo, vender mais insegurança, vender essa necessidade de proteção”, num claro recado à projetos como a liberação do porte de armas, uma das ideias fixas do presidente Jair Bolsonaro.

“Você sempre julga a polícia como o cara que não pensa, é bronco, é irracional. E não é assim”, acrescenta o cineasta, que contou com a colaboração de Sergio Barata, co-roteirista do filme e policial aposentado.

Entre os muitos personagens ouvidos pelo filme estão desde familiares de agentes mortos em ação, um antigo líder do Comando Vermelho, um policial que passou a se questionar sobre a eficácia das operações até a cientista política Ilona Szabó, cuja nomeação feita por Sergio Moro para um cargo de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária foi revogada após desagradar Bolsonaro e seus seguidores.

Além dessas presenças, o filme chama a atenção pelas imagens fortes, captadas pelo cinegrafista Jadson Marques, famoso por acompanhar de perto as ações policiais cariocas, e um vasto acervo de cenas cotidianas captadas pelos moradores das favelas pelo celular, que chegou às mãos de Martins durante a pesquisa para construir ‘Relatos do Front’.

Renato Martins, diretor de 'Relatos do Front'. (Imagem: divulgação ArtHouse)

Num dos momentos mais impactantes, um grupo de crianças a caminho da escola precisa desviar de cadáveres ensanguentados, cobertos apenas por lençóis, numa viela. “Eu não sabia que aquilo era o dia a dia das pessoas que vivem ali dentro. Fico pensando se eu, na minha posição confortável e privilegiada de classe média, tivesse minha filha passando por uma situação daquela”, compara o cineasta. “Porque quando acontece com outro, menos favorecido, eu vou achar que é normal? Isso tem que nos indignar, e essa indignação pode nos ajudar a pensar diferente e a tomar atitudes diferentes.”

Como embasamento histórico, o documentário remonta aos tempos da escravidão para demonstrar como a questão da opressão sempre esteve presente no solo brasileiro e vem sendo a tônica desde então. Em outro momento, cola discursos dos últimos governadores do Rio de Janeiro e suas promessas de endurecer a luta contra o crime, que pouco se comprovam eficazes na realidade.

“Sempre tem alguém que aparece com uma ideia mirabolante sobre como vai resolver esse problema e que nunca resolve”, lembra o diretor. “Porque a gente não tem um projeto de sociedade acontecendo. Existem apenas projetos específicos pessoais, de determinados grupos políticos que exercem o poder em determinados momentos”.

Efeito Tropa de Elite

Coincidência ou não, essa não é a primeira vez que Renato Martins está envolvido com um filme que fala sobre a violência nos morros cariocas. Ele foi montador de ‘Tropa de Elite 2’, sequência do longa que apresentou Capitão Nascimento como uma das figuras mais polêmicos da história do cinema nacional. Em ‘Relatos do Front’, um dos policiais reflete sobre o significado de ver o público vibrando com a violência perpetrada na tela pelo personagem interpretado por Wagner Moura. Na nossa entrevista, Martins também discorre sobre o tema.

“O que me assusta no ‘Tropa de Elite’ é você perceber a sociedade reagindo a um estímulo provocado pela arte. Quando, no primeiro filme, o Matias executa um bandido com um tiro na cara na cena final e as pessoas se sentem vingadas com aquilo, e levantam para bater palmas, é uma catarse de uma sociedade que está doente”, afirma. “O problema não é do filme, o problema é da sociedade, que está encarando um assassinato como uma coisa positiva.”

“Seja bandido, delinquente, marginal, vagabundo, o nome que você queira dar... Ele tem que ir para a cadeia e responder em juízo às autoridades. Ser julgado, ter a sua sentença, cumprir a sentença e, se tudo der certo, ser reingresso à sociedade de uma forma melhor”, prossegue. “Nenhum país que não pratique isso é civilizado e decente. Então nós ainda não conseguimos atingir a civilização: aqui se quer que mate, que se execute, que não se dê nem a chance da pessoa se defender.”

“Você é convencido a todo momento que a violência está muito grande e que tem que sentir medo que você aceita a execução do outro sem a menor questão”, lamenta ainda, antes de lançar mais algumas indagações que seu filme deixa em aberto.

“A gente quer viver num país de justiceiros ou num país em que exista a Justiça? Se a gente for para um país de justiciamento, cada um colocando uma pistola na cintura e vamos resolver tudo na bala, não é esse o país que eu quero para a minha filha e nem para mim”, desabafa. “E aí quem não quer isso que vá morar fora? É isso mesmo que a gente está desejando para a nossa juventude, para nós, para nossos pais aposentados?”, pergunta, de forma retórica. “Tô achando tudo muito confuso e acho que as pessoas estão confusas, recebendo mensagens que não conseguem decifrar direito”.