Qual o risco de o Brasil repetir em 2022 o que Trump faz nos EUA?

Matheus Pichonelli
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WASHINGTON, DC - JANUARY 06: Supporters of President Donald Trump take over balconies and inauguration scaffolding at the United States Capitol on Wednesday January 06, 2021 in Washington, DC. Pro-Trump supporters were gathering to protest last November's election results. (Photo by Matt McClain/The Washington Post via Getty Images)
Fãs de Donald Trump invadem o Congresso dos EUA com o intuito de impedir a confirmação da vitória de Joe Biden nas urnas. Foto: Matt McClain/The Washington Post (via Getty Images)

“Tenho medo de o Brasil virar uma Venezuela”.

Não sei vocês, mas eu cansei de ouvir variações dessa mesma frase durante as eleições de 2018. As sentenças partiam, quase sempre, de quem estava decidido a dar um voto de confiança a Jair Bolsonaro sem que conseguisse justificar quais predicados o então candidato do PSL reunia para transformar o Brasil “apenas” em um país melhor.

O objetivo final, eles diziam, era derrotar a esquerda, sinônimo de tudo de ruim que aconteceu e poderia ainda acontecer. O medo vinha com um certo tom de “o que eu posso fazer?”. E o fantasma de um vizinho em estado avançado de decomposição democrática foi usado até a última cena por quem, em 30 anos como parlamentar, não havia dado qualquer sinal de apreço às regras democráticas de seu país —em vez disso, passou décadas defendendo torturador, golpe e guerra, uma guerra que começaria matando “30 mil” e, como qualquer guerra, não pouparia inocentes.

Dois anos depois, e a exemplo de líderes autocratas das repúblicas mais bananeiras, ninguém pode dizer que Bolsonaro não passou um dia sequer no cargo sem pensar em como se entronizar no poder.

Já acenou para mudanças no STF, já viu seu filho deputado defender a atualização do Ato Institucional número 5, o mais agressivo instrumento de repressão da ditadura, e dizer que um cabo e um soldado bastavam para fechar a suprema corte de seu país.

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Bolsonaro também já colocou em dúvida o sistema de votação que o elegeu. Sem provas, disse ter vencido já no primeiro turno e ataca constantemente as urnas eletrônicas. Prefere o voto impresso, que pode servir de prova a quem colocar a escolha à venda como nos tempos do cabresto.

No início da pandemia, ao discursar para ministros na inominável reunião de 22 de abril, o presidente exigiu de seu ministro da Justiça uma portaria flexibilizando normas relacionadas a compra de munições pelos cidadãos comuns. Era uma resposta a esses “bostas” de prefeitos e governadores que falavam em distanciamento social para debelar a circulação do vírus que mataria 200 mil pessoas em seu país. O recado era uma arma apontada para autoridades que tentassem ferir a “liberdade” do cidadão disposto a espalhar doenças e perdigotos sem risco de ser amolado.

Como exemplo vem de cima, cidadãos armados e estimulados pelo presidente passaram a ameaçar em voz alta autoridades do Congresso e do Judiciário. Num ensaio da autocracia almejada, serviram de bucha em protestos antidemocráticos repletos de símbolos supremacistas e delírios autoritários. Rojões foram disparados em direção ao Supremo num sábado à noite. E marginais de todo o tipo se sentiram à vontade para prometer trocar socos como ministros da corte na saída do recreio.

Quem discordou das ideias e alucinações paranoicas e persecutórias do presidente caiu um a um, inclusive Sergio Moro, que hoje acusa o ex-chefe de interferir na Polícia Federal para proteger seus filhos acusados de corrupção. Sobrou até para fiscais do Ibama que o multaram por pesca irregular. Foram um dos muitos exemplos do desmonte das estruturas de combate ao desmatamento, único campo, além da violência, que tem crescido nos últimos anos.

Só pela Saúde já passaram três ministros, com um quarto sendo ventilado em meio às discussões de uma reforma ministerial pautada pelas eleições na Câmara, onde o presidente tenta dar as cartas.

Bolsonaro tanto fez que conseguiu colocar em xeque um programa nacional de vacinação considerado modelo. Por vaidade, não quer ver adversários políticos se sobressaírem no trabalho de imunização em massa que ele se nega a fazer. Prefere lançar mentiras e dúvidas sobre imunizantes fabricados em parceria com a China, país contra o qual a troca de farpas tem sido constante.

O resultado é um país conflagrado, desconfiado até da sombra e armado até os dentes. Fieis da balança têm sido diariamente cooptados e colocados à prova da servidão ao grande líder. Muitos deles já se armam.

Na quarta-feira 6, o mundo assistiu incrédulo à invasão do Congresso norte-americanos por manifestantes ensandecidos e estimulados há meses por Donald Trump, um presidente igualmente ensandecido que se declarou vitorioso na eleição em que foi derrotado por Joe Biden.

Eles queriam impedir na marra que o Congresso retificasse a vitória do adversário. Trump diz que só perdeu porque houve fraude, e foi flagrado em uma conversa nada republicana com o secretário de Estado da Georgia pedindo que “arranjasse” 11 mil votos --como se democracia fosse um lote de sabonete que se compra no mercado.

Surpreendidos (será?), cabos, soldados e seguranças do Capitólio não conseguiram impedir a pretensão dos meliantes, alguns vestidos de vikings e com camisas supremacistas, que confrontaram funcionários da Casa, encurralaram congressistas, sentaram em suas cadeiras e obrigaram agentes a sacarem suas armas. Uma mulher morreu baleada.

A invasão não impediu a retificação do resultado das urnas, mas mostrou como são frágeis as fortificações da outrora chamada “maior democracia do Planeta”. Basta eleger um sujeito insano. Este sujeito insano precisou ser bloqueado no Twitter para deixar de espalhar insanidades a quem se alimenta de ódio, mentiras, fatos autofabricados. E que estão dispostos a matar e a morrer por seu ídolo.

No limite do absurdo, sites de paródia se tornaram oráculos da verdade que ninguém mais vê. Um deles previa que os EUA poderiam invadir agora os EUA para garantir o restabelecimento da ordem democrática. É o argumento usado pela maior potência do Planeta para lançar bombas nos quintais alheios, sobretudo no Oriente Médio.

Muitos viram nas cenas uma prévia do que pode acontecer no Brasil em 2022, um receio reforçado pela declaração de Jair Bolsonaro justificando os atos em razão das “inúmeras” denúncias de fraude nas eleições americanas --todas refutadas na Justiça.

O temor da venezuelização do Brasil mudou de tom. Por instantes, temeu-se que o Brasil se transformasse, daqui a dois anos, nos EUA.

Sinto dizer, mas o que aconteceu no Capitólio não é um roteiro do que pode ocorrer em terras brasileirinhas daqui daqui a dois anos. É só a ponta de um iceberg que já estacionou por aqui.

Símbolos da direita populista, Trump e Bolsonaro são faces complementares. Não se veem como servidores e detentores de um mandato popular passível ao escrutínio democrático, mas as próprias encarnações de um direito divino e inalienável cuja missão não é servir e prestar contas de seus atos, mas evitar a destruição dos valores da cultura Ocidental --uma lorota capaz de levar mais gente à guerra do que às filas do cinema para ver filme de super-herói. O delírio transformou as Cruzadas medievais em filme da trupe Monty Python nos primeiros anos do século 21.

Que ninguém seja ingênuo esperando pelo pior. Todos os elementos da fissura institucional americana acompanhada ao vivo em todo o mundo já estão por aqui há tempos, com o apoio explícito das Forças Armadas e policiais e sem que os pesos e contrapesos estejam de fato atentos e fortes para agir e reagir a não ser por meio de notas de repúdio.