Brad Pitt salva 'Trem-Bala' com humor que remedia ação genérica

***ARQUIVO*** SÃO PAULO-SP, BRASIL, 15-03-2022 - O ator e diretor Fabio Porchat durante o evento. (Foto: Ronny Santos/Folhapress)
***ARQUIVO*** SÃO PAULO-SP, BRASIL, 15-03-2022 - O ator e diretor Fabio Porchat durante o evento. (Foto: Ronny Santos/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nada de Brad Pitt irreverente ou do tom engraçadinho que os trailers mostraram nos últimos meses. O início de "Trem-Bala" é algo mais próximo de um drama.

Num silêncio entoado por uma plácida câmera, vemos um pai, Kimura, observando seu filho no leito de um hospital. Entra no quarto o avô, vivido por Hiroyuki Sanada --do belo "O Samurai do Entardecer", de Yoji Yamada--, e começa um diálogo grave entre esses dois adultos. Kimura, papel de Andrew Koji, sai então desatinado do quarto.

A montagem acelera, Brad Pitt entra finalmente em cena e, aí sim, começa um filme típico de David Leitch, o mesmo diretor do primeiro "John Wick" e de "Deadpool 2".

A primeira sequência não parece estar à toa ali. O tempo mais esticado que renderia páginas descrevendo as emoções em jogo daqueles dois personagens parece aludir ao livro homônimo de Kotaro Isaka no qual o longa se baseia. Em suma, livro e filme falam sobre alguns assassinos de aluguel que disputam uma valise dentro de um trem-bala entre Tóquio e Kyoto.

O livro, como informa reportagem publicada no jornal Folha de S.Paulo, é vendido como "um thriller alucinante à moda de Tarantino e irmãos Coen". David Leitch, então, não cometeu atrocidades ao original, ainda que tenha feito algumas alterações discutíveis --a mais evidente, a "ocidentalização" quase irrestrita do elenco, ainda que o próprio Kotaro Isaka não tenha entendido isso como um problema.

De certa forma, isso até deixou os dois personagens japoneses, sobretudo Kimura, num lugar mais interessante, porque é só ele quem possui um lastro mais sério e misterioso. Os outros personagens são mais excêntricos, e o filme monta um esperto quebra-cabeças entre os vários personagens.

O humor e um ar de paródia dominam o filme, diz tão logo a entrada em cena de Brad Pitt, ao som de uma versão do "Stayin' Alive", dos Bee Gees, ele repetindo os passos de John Travolta em "Os Embalos de Sábado à Noite". Pitt faz Joaninha, um assassino que se considera azarado, atraindo problemas para si e para outros --mortes, essencialmente.

No trem, ainda, há os "gêmeos" Limão e Tangerina, vividos pelo ótimo Brian Tyree Henry e por Aaron Taylor-Johnson. Ambos levam a tiracolo uma valise com milhões de dólares e o filho de Morte Branca, que eles resgataram.

Há ainda Príncipe, encarnado pela atriz Joey King, personagem que supostamente levou o filho de Kimura ao acidente. E há outras presenças armadas indo de vagão a outro, vividas por Zazie Beetz, Bad Bunny e, mais ao final, Michael Shannon numa assustadora (e também chanchadesca) presença e uma solar Sandra Bullock.

Não tarda para a maleta ser afanada e, pior, o filho de Morte Branca morrer. Interesse em comum, a citada valise se torna uma espécie de leitmotiv, engendrando diálogos e pancadarias. De certa forma, todas as relações entre personagens são pautadas pelo conflito físico e verbal que redundam em humor, violência e coreografia.

O próprio David Leitch afirmou que a inspiração foram os filmes de Jackie Chan --e Tarantino e sua pior diluição, Guy Ritchie. De fato, há um balé nos tapas, socos, bandejadas e tombos, mas enquanto os filmes policiais e de artes marciais de Chan e cineastas como John Woo apostavam em tomadas mais longas apresentando toda a "dança" de corpos, os filmes americanos foram adotando uma lógica mais zapeada de planos curtos e vinhetas.

Essa diluição --e uso indiscriminado do CGI ajudou nisso-- tomou a maior parte do cinema de ação de Hollywood, dos últimos "Velozes e Furiosos" a franquias como "Transformers". E "Trem-Bala" não estaria substancialmente livre dessa moral não fosse uma resistência digressiva que surge com Joaninha ou Kimura em cena.

Fiquemos, por agora e sempre, com Brad Pitt. De seus primeiros filmes repetindo o gestual de James Dean a uma precisão dramática e máscara cômica extraordinárias, Pitt se tornou um ator pleno, indo do galã belo ao homem de rosto marcado pela idade em papéis mais dramáticos ou uma irreverência autorreferente perfeita para a cena cômica.

É esse Brad Pitt de comicidade quase brechtiana que torna "Trem-Bala" uma maravilha. A cada absurdo latente, entre violência, pontapés, bofetes, arremessos de objetos e humor pastelão, está lá o velho Brad Pitt que conhecemos nos dizendo que o cinema de Hollywood é incrível pela capacidade de mangar do bom senso e, ainda assim, nos manter dentro do jogo, fascinados. No caso, dentro de um trem-bala CGI prestes a descarrilar. Não é pouco.

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