Bowie, Tarantino e Almodóvar conectados na melancolia e nostalgia

Quando Tarantino e Almodóvar (e Bowie) dão as mãos (Foto: Getty Images)

Por Thiago Ney

Mais recente obra de Quentin Tarantino, "Era uma Vez em... Hollywood" é feito tanto de dor quanto de glória. O longa é ambientado no final dos anos 1960, época em que o cinema hollywoodiano vivia sob o flower power, a pílula anticoncepcional e o amor livre, o LSD, os movimentos pacifistas e a luta por direitos civis.

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No livro "Como a Geração Sexo, Drogas e Rock and Roll Salvou Hollywood", o autor, Peter Biskind, descreve assim esse período: "Lá pelo final dos anos 1960 e começo dos 1970, para quem era jovem, ambicioso e tinha talento não havia lugar melhor em toda a Terra do que Hollywood".

Este é o clima glorioso de "Era uma Vez", em que Leonardo DiCaprio interpreta o ator Rick Dalton. Em restaurantes, bares ou desfilando de carro pelas avenidas de Los Angeles, ele está sempre acompanhado de seu dublê, Cliff Booth, vivido por Brad Pitt. Dalton é vizinho de Roman Polanski e de sua namorada, a atriz Sharon Tate (Margot Robbie).

É um fato conhecidíssimo: grávida, Sharon Tate foi brutalmente assassinada em sua casa, em 1969, por uma gangue de psicopatas liderada por Charles Manson.

"Era uma Vez" não é um filme sobre o crime, mas a sombra de Manson e de seu culto pairam sobre o filme. E DiCaprio tem de conviver com a decadência, com um novo tipo de cinema que não tem mais lugar para atores como ele.

Tanto em filmes como em entrevistas, Quentin Tarantino, 56 anos, já mostrou várias vezes sua paixão pelo cinema. Mas nunca havia feito uma declaração de amor tão franca e direta quanto neste "Era uma Vez", que é, ainda, o filme de Tarantino menos frenético e o que menos trata de violência.

Paixão pelo cinema, nostalgia, melancolia, São também temas que estão também em "Dor e Glória", 21º longa de Pedro Almodóvar. Cineastas tão diferentes entre si, Tarantino e Almodóvar se aproximam nesses dois filmes atualmente em cartaz nos cinemas.

Com Antonio Banderas e Penélope Cruz, "Dor e Glória" não tem as cores quentes, as situações quase absurdas e o escracho tão característicos dos filmes deste espanhol que vai completar 70 anos em 25 de setembro.

É quase um filme de memórias de Almodóvar. Nesse sentido, o personagem de Banderas, Salvador Mallo, seria o seu alter-ego. No presente, ele está em meio a um vazio criativo, sem ideias, deslocado em um mundo do cinema no qual não se encaixa.

Por outro lado, as cenas de Salvador quando menino, remetem a um tempo em que o cinema (e a vida de Almodóvar) era mais doce, ingênuo, feliz.

A morte é uma questão que flana em volta de Banderas (ou de Almodóvar), e ela também está presente, indiretamente, em "Era uma Vez": em diversas cenas, Tarantino faz um contraste entre a alegria de Sharon Tate e a insanidade prestes a explodir da seita de Manson.

"Dor e Glória" e "Era uma Vez em... Hollywood" são esteticamente bem diferentes, mas não poderiam estar mais conectados em temas tão pessoais e contemporâneos.

E, saindo do cinema, mas não do assunto: peça-musical co-escrita por David Bowie, "Lazarus" está com montagem em cartaz em São Paulo. Com direção de Felipe Hirsch, é uma produção também semi-autobiográfica e que também lida com questões como morte, melancolia e nostalgia. É uma peça linda e que nos mostra que David Bowie, Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar passeiam de mãos dadas.