"Bom Sucesso" é inspirada em livro de médica especialista em tratamento paliativo

Paloma (Grazi Massafera) e Alberto (Antonio Fagundes), na novela 'Bom Sucesso'.


A novela 'Bom Sucesso', da Globo, trabalha com uma premissa diferente daquilo que estamos acostumados: a morte. A trama vem mostrando a história de Paloma, interpretada por Grazi Massafera, que recebe por engano os resultados dos exames de Alberto, papel de Antonio Fagundes, que tem apenas alguns meses de vida devido a um caso grave de leucemia.

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Falar de morte nunca é fácil, ainda mais quando ela é resultado de uma doença terminal - um processo que, muitas vezes, não é simples e gera altos níveis de sofrimento para o paciente.

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Rosane Svartman e Paulo Halm, autores da novela, encontraram na obra "A Morte é um Dia que Vale a Pena Viver", da doutora Ana Claudia Quintana Arantes, uma inspiração e um reforço importante para a mensagem que buscam passar com o folhetim: de que a vida merece ser aproveitada ao máximo a todo momento.

"Acho fascinante ver a importância que os cuidados paliativos e o tema morte podendo ser discutidos de maneira leve e descontraída dentro de uma novela. O slogan é perfeito: o maior sucesso da vida é ter sucesso em viver", diz Ana Claudia.

Para aqueles que não estão familiarizados com o termo, os cuidados paliativos oferecem mais qualidade de vida para pacientes terminais, com uma assistência mais humana e compassiva. "O cuidado paliativo é o cuidado de proteção quanto ao sofrimento. A doença, quando encontra um ser humano, forma uma melodia única que é o sofrimento. No cuidado paliativo não estamos lutando contra a doença, deixamos ela seguir seu curso natural, mas temos muito o que fazer com a pessoa que está doente", diz ela.

Especialista no assunto, Ana Claudia cresceu em reconhecimento depois de fazer uma palestra no TEDx FMUSP com o mesmo nome do livro. "Busquei cuidar de pessoas no final da vida, porque via o quanto a medicina podia oferecer a estas pessoas, mas acabava não fazendo por estar tentando cuidar da doença e não do ser humano", continua.

Para ela, o cuidado paliativo sempre tem algo a oferecer para um paciente terminal, por mais que os cuidados médicos tradicionais não tenham mais o que fazer por ele: "O trabalho do cuidado paliativo é tirar a pessoa do sofrimento. Não tem problema que a doença não tem cura, mas tem muito ainda o que fazer. O que significa tempo em cuidado paliativo".

Ana Claudia diz que enquanto a doença se repete nas pessoas, o sofrimento de cada uma é único. Um dos primeiros passos que marcam o início do tratamento paliativo é, justamente, prestar atenção nas particularidades do sofrer do paciente: "Entender a dimensão emocional é entender o que o paciente precisa. Ouvir o paciente como gostaria de ser ouvido".

Medo da morte ou medo da vida?

É comum ouvir conversas sobre o quanto as pessoas têm medo de morrer. Mas Ana Claudia oferece um lado diferente da moeda: e se o medo, na verdade, for da própria vida?

Quem não dá valor na própria vida acaba tendo dificuldade de falar sobre a morte. O tabu da morte é o tabu da vida. Não existe escolha entre morrer e não morrer. Mas existe escolha entre viver e não viver. Você pode não falar da finitude, mas haverá mesmo assim o fim, pode não falar da morte, mas vai morrer. As pessoas têm dificuldade em aceitar esta questão

Para a médica, a morte não é um tabu porque é um fato. O tabu acontece quando o medo fica concentrado em não viver o melhor que se pode. "O medo existe porque as pessoas têm dificuldade para falar sobre os limites, não sabem perder, ter frustração. Mas vamos morrer de qualquer maneira. Precisamos aprender a dar valor a vida. A morte não é bonita, a vida, sim, é bonita" explica ela.

Aliás, ela acredita também que essa visão oferece um desafio para a evolução do tratamento paliativo no Brasil. Não pensar, falar ou sentir nada sobre a morte impede que o assunto seja tratado de forma mais natural, valorizando a vida ao invés do fim do caminho.

"O tratamento paliativo é um trabalho fascinante. Quando você olha para aquele paciente de um jeito diferente, ele sente que dará conta. Aliviando o sintoma físico, você se prepara para fazer o que realmente precisa. A generosidade do que se recebe das pessoas que estão no final de vida sem dor é maravilhoso. Esse momento tem muito sentido se a pessoa estiver sem desconforto", reflete. "A troca, o aprendizado é incrível. Nesta vida a gente só morre uma vez, não pode dar vexame. A morte é um dia que vale a pena viver".