Bolsonaro domesticado é o novo mito na praça

Matheus Pichonelli
·4 minuto de leitura
TOPSHOT - Brazilian President Jair Bolsonaro gestures after going out for a ride and having his motorcycle's engine overhaul after he announced he tested negative for COVID-19 more than two weeks after being diagnosed, in Brasilia, on July 25, 2020, during the novel coronavirus pandemic. (Photo by Sergio LIMA / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro sai para dar uma volta de moto após anunciar que está curado da covid-19. Foto: Sergio Lima/AFP (via Getty Images)

Dava para escalar um time e ainda sobrava um banco de reservas recheado de figurões.

Gustavo Bebianno, os generais Santa Rosa e Santos Cruz, Sergio Moro, Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich, Joaquim Levy, Vélez Rodríguez, Abraham Weintraub, Regina Duarte e, mais recentemente, Rubem Novaes, do Banco do Brasil.

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Todos aderiram ao bolsonarismo e saíram pela porta dos fundos chamuscados pelo bolsonarismo ou pelas encrencas criadas pelo bolsonarismo.

As baixas não ficam só no Executivo. No Congresso, o que não faltam são antigas lideranças bolsonaristas trucidadas por discordância com o chefe que não gosta de ser contrariado.

A fila de arrependidos é puxada pelo senador Major Olímpio e a deputada Joice Hasselmann. A última a ser jogada ao mar foi a deputada Bia Kicis, destituída da vice-liderança do governo na Câmara como reconhecimento aos serviços prestados na linha de frente da tropa de choque do mito.

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Desde o começo da campanha, Jair Bolsonaro tem trocado de aliados como quem troca de camiseta.

Os novos estão em campo para obstruir os caminhos que podem levar à perda de mandato.

Quieto desde a prisão de Fabrício Queiroz, o ex-faz tudo da família, o presidente viu nos últimos dias figuras de pompa do centrão saírem em sua defesa vendendo uma nova embalagem.

Arthur Lira, deputado do PP de Alagoas, em entrevista ao jornal O Globo, na semana passada, deu a cara a tapa. “Não podemos ter um impeachment por ano e não é tocando fogo no parque que vamos resolver os problemas”, declarou.

Para ele, “o pessoal” do governo é muito verde politicamente, mas “no bom sentido”. “Têm boa intenção, mas erram na forma, no trato”. Por isso o deputado, que é acusado de receber R$ 1,6 milhão da empreiteira Queiroz Galvão em troca da manutenção de um diretor de Abastecimento na Petrobras, se dispôs a ajudar.

Bolsonaro retribuiu, aceitando a indicação de um nome do centrão para comandar o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que gerencia um orçamento de R$ 54 bilhões.

Quem também aderiu ao barco bolsonarista é o deputado licenciado Fábio Faria (PSD-RN), genro de Silvio Santos que assumiu o recriado Ministério das Comunicações há cerca de um mês.

Também ao jornal O Globo, ele fez juras de amor ao presidente no último fim de semana. Disse que a fase “paz e amor” do presidente veio pra ficar e que é preciso deixar as guerras de lado.

Até o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro, pivô das apurações sobre rachadinhas em seu antigo gabinete na Alerj, garantiu, recentemente, que a postura de distensionamento de quem passou os últimos 30 anos brigando até com a sombra “não vai ser provisória”. “Essa subida na imagem do governo em levantamentos recentes é efeito do distensionamento”, garante.

A bandeira branca pode ter sido estendida tarde demais.

O presidente “paz de amor” acaba de ser denunciado por supostos crimes contra a humanidade e genocídio no Tribunal Penal Internacional de Haia (Holanda). Conforme relevou o jornalista Jamil Chade, do UOL, os signatários, que representam mais de um milhão de trabalhadores da saúde no Brasil, acusam Bolsonaro de adotar ações negligentes e irresponsáveis na condução de respostas à pandemia de covid-19.

No começo de abril, Onyx Lorenzoni e Osmar Terra foram tiveram uma conversa interceptada pela CNN Brasil. O ex-ministro da Cidadania afirmava ao ex-ministro da Casa Civil que o número de mortos ficaria entre 3 e 4 mil. “Vai morrer menos gente de coronavírus do que da gripe sazonal”.

Até ontem, passavam de 87 mil os mortos por coronavírus no país.

No governo Bolsonaro, os diagnósticos da realidade são tão sólidos quanto a fidelidade dos aliados.