Bolsonaro troca "tratamento precoce" por "tratamento inicial" e diz que "trairia sua consciência" se aderisse ao lockdown

Marcelo Freire
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Jair Bolsonaro durante live nesta quinta, 18 de março de 2021 (Reprodução)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu em sua live semanal nesta quinta-feira (18) o uso de medicamentos sem eficácia no combate ao coronavírus, substituindo o termo "tratamento precoce", que ele utilizava até então, por "tratamento inicial".

Ao mesmo tempo, ele voltou a atacar governadores e prefeitos por medidas de isolamento social e chegou a chamar alguns chefes do Executivo de "projetos de ditadores".

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O presidente não citou, em nenhum momento, que o país bateu o recorde de mortes durante a pandemia nos últimos dias, chegando à marca de 2.798 vítimas na terça-feira (16), e nem falou sobre a falta de leitos de UTI em estados e municípios.

Na live de uma hora de duração, Bolsonaro também não falou sobre a morte do senador Major Olimpio (PSL-SP), seu aliado na campanha presidencial de 2018 e que posteriormente rompeu com o governo. Olimpio morreu nesta quinta, aos 58 anos, após complicações decorrentes da covid-19.

Bolsonaro começou a transmissão agradecendo a "manifestação espontânea, voluntária" de seus apoiadores no último domingo. "Veio do coração do povo", disse Bolsonaro. "O que o povo quer, a gente faz. E o que o povo está pedindo é democracia e liberdade."

Segundo o presidente, o governo federal elaborou um projeto de lei que classificaria como atividades essenciais todas aquelas "que trazem o pão para dentro de casa", de acordo com a sua definição, efetivamente driblando as medidas de isolamento.

"Leito de UTI não falta"

Na sequência, ele disse que o estado de São Paulo receberá R$ 77 milhões para criar mais 1600 leitos de UTI, sem contextualizar a situação atual do estado, que já está sofrendo com a falta de leitos neste momento. O prefeito da capital paulista, Bruno Covas (PSDB), confirmou hoje a morte de um paciente, da zona leste da cidade, que não conseguiu ser transferido para uma UTI.

"Leito de UTI não falta", disse Bolsonaro. "O governo [federal] dá o recurso, o governador monta. Para São Paulo, estado onde eu nasci, foram liberados R$ 77 milhões. Espera que não precise usar isso daí, mas está à disposição do governador de São Paulo esse recurso para leitos." Ele também disse que os demais estados receberão R$ 188 milhões para a criação de mais leitos de UTI.

"Tratamento inicial"

Depois de citar as ações do governo federal, Bolsonaro voltou a fazer a sua defesa habitual do uso de medicamentos sem eficácia no tratamento da covid-19. Dessa vez, no entanto, ele trocou o termo "tratamento precoce" por "tratamento inicial". "Se falar outra palavra, é crime", ironizou.

Ele também não citou nominalmente a ivermectina e a cloroquina, chamando o primeiro de "remédio para piolho" e dizendo que "não pode falar o nome", em alusão às críticas que recebeu por defender esses remédios.

"Milhares de pessoas têm recorrido a esse tratamento e dão seu testemunho. Tem dezenas de milhares de médicos que são favoráveis ao tratamento inicial", declarou o presidente. Ele ainda atacou, como faz de forma recorrente, seu ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM).

"Se você é contra, sem problemas, segue a receita do ministro Mandetta. Quando você tiver falta de ar, vai pro hospital. Eu perguntei pro Mandetta. 'Ele vai sentir falta de ar e vai pro hospital fazer o quê? Vai ser intubado'", atacou. "Se tiver outra forma de tratamento, faça uso disso. Não espere o pior acontecer."

O presidente ainda citou o caso do ex-prefeito e atual vereador de Dom Feliciano-RS, Dalvi Soares de Freitas (PSB), que afirmou ter melhorado de um quadro grave de covid-19 utilizando um tratamento com nebulização. "Que mal poderia causar uma nebulização? Eu acho difícil ter uma arritmia, algo mais grave. Vale a pena tentar", disse Bolsonaro.

Lockdown seria "traição da sua consciência"

Bolsonaro afirmou que, para ele, aderir ao lockdown seria como "trair sua consciência". Apesar das medidas serem consideradas impopulares, como o próprio presidente reconhece, ele disse que "seria bacana" se passasse a defender esse tipo de restrição.

"Para mim, é muito fácil aderir ao lockdown, ao confinamento. É bacana, é politicamente correto. Mas vou trair minha consciência se eu agir dessa maneira", disse.

O presidente fez o seu habitual discurso de que apenas idosos e o "pessoal gordinho, obeso" deveria aderir ao lockdown, apesar dos vários casos de jovens sem comorbidades que estão morrendo em decorrência da covid-19, e pediu uma "volta à normalidade".

No fim, ele afirmou que o governo federal entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal contra "três governadores que aplicaram o toque de recolher". "Isso é estado de sítio", declarou Bolsonaro.

Depois, o presidente atacou governadores e prefeitos pelas medidas restritivas. "Tem gente que quer ir visitar um parente passando mal, de noite, e é impedido. É um abuso. Essas pessoas que baixam esses decretos são projetos de ditadores. Aquilo que sempre me acusaram... são pessoas que acusam os outros do que elas são."

Agradecimento a Pazuello

Ele também parabenizou o general Eduardo Pazuello, que está deixando a gestão do Ministério da Saúde, pelo "trabalho brilhante na Saúde". "Quando ele assumiu, tinha um problema seríssimo de gestão, muitos ralos, coisas esquisitas. Nada era informatizado. Ele teve que fazer uma assepsia no Ministério da Saúde."

Bolsonaro defendeu a atuação de Pazuello e do governo federal na compra e na aplicação das vacinas contra a covid-19. "Não se justifica quando alguns ficam nos criticando", reclamou.