Bolsonaro queria diretor da PF com quem tivesse mais 'afinidade', diz Valeixo

Valeixo afirmou que Bolsonaro manifestou a ele, por duas vezes, a intenção de tirá-lo do cargo de diretor-geral da PF. (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

O ex-diretor-geral da PF (Polícia Federal) Maurício Valeixo afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse a ele que queria ter, no comando da PF, alguém com quem tivesse “mais afinidade”. A informação consta em seu depoimento dado nesta segunda-feira (11), segundo apuração da TV Globo.

Valeixo foi ouvido por investigadores da PF no inquérito que apura possível interferência política de Bolsonaro na instituição, após a denúncia feita pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro. O ex-diretor-geral disse ainda que essa intenção de troca foi manifestada por Bolsonaro em duas oportunidades: uma presencial e outra por telefone.

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Aos apoiadores, na entrada do Palácio da Alvorada, Bolsonaro afirmou que não tinha tomado conhecimento até agora sobre o conteúdo do depoimento de Valeixo e que não iria comentar.

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No depoimento desta segunda, que durou mais de 6 horas na sede da Superintendência da PF de Curitiba, Valeixo apontou que não houve ingerência de Bolsonaro em sua gestão, mas que estava “cansado” das pressões públicas para troca dos seus comandados nos estados.

No anúncio de sua demissão do governo Bolsonaro, Moro acusou o presidente de tentar interferir politicamente na PF ao forçar a saída de Valeixo e insistir na troca de outros superintendentes como do Rio de Janeiro ou de Pernambuco.

O ex-diretor afirmou que, em junho de 2019, foi consultado por Moro sobre a troca de superintendentes no Rio. Ele também destacou que havia forte cobrança pública por parte de Bolsonaro para troca do nome responsável pela PF no Rio.

Essa afirmação de Valeixo condiz com o depoimento dado por Moro, no qual o ex-ministro diz que Bolsonaro lhe pediu “uma superintendência, a do Rio” dizendo que ele já tinha “outras 26”.

Questionado sobre o que avaliava ser uma “interferência política” na PF, Valeixo descreveu que haveria interferência “a partir do momento que há uma indicação com interesse sobre uma investigação específica”, mas que isso não teria ocorrido sob o ponto de vista dele no governo Bolsonaro.

A investigação foi aberta a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República) e submetida ao ministro Celso de Mello do STF (Supremo Tribunal Federal). O inquérito apura se as acusações de Moro são verdadeiras. Se não forem, o ex-ministro poderá responder na Justiça por denunciação caluniosa e crimes contra a honra.

DEMISSÃO POR TELEFONE

Valeixo também afirmou que Bolsonaro o telefonou para informar que a exoneração dele do cargo seria publicada “a pedido”. Exonerações publicadas "a pedido" no Diário Oficial da União informam que o ocupante do cargo pediu para deixar a função por conta própria. Quando o termo não é publicado, indicam que o funcionário foi demitido.

Moro, ao sair do governo, declarou que Valeixo o ligou na noite anterior dizendo que Bolsonaro lhe informou que a exoneração seria publicada com o “a pedido”.

Inicialmente, o Diário Oficial trouxe a exoneração de Valeixo a pedido e com assinatura de Sergio Moro. No entanto, após Moro dizer publicamente não havia assinado a demissão, foi publicada uma edição extra do Diário Oficial da União sem a assinatura de Moro.