Bolsonaro quer fazer da PF a Polícia da Família. E daí?

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

O que fariam os manifestantes pró-Bolsonaro, pró-golpe, pró-fim-do-STF, pró-fim-do-Congresso e pró-fim-da-velha-política se em meados de 2004 o então presidente Lula resolvesse trocar o comando da Polícia Federal em meio a uma investigação sobre seu filho Lulinha e deputados aliados? E que, no lugar dos delegados que se negavam a jogar no lixo a autonomia da corporação e fornecer relatórios diários de inquéritos sob encomenda, a começar pelas aventuras amorosas do caçula pelo condomínio, o petista decidisse colocar no Ministério da Justiça o filho de um antigo assessor e, na direção-geral, um amigo do filho?

Se não gostar da referência, pode trocar o nome para FHC, Michel Temer ou Dilma Rousseff. Tanto faz. Já pensou? Pois é exatamente isso o que Jair Bolsonaro pretende fazer após a demissão de Sergio Moro no organograma da PF, que neste ritmo, até 2022, será transformada em Polícia da Família, preservando apenas as iniciais.

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Filho do presidente, o vereador carioca Carlos Bolsonaro é apontado em uma investigação como líder de um esquema de fake news enraizado no Planalto para atacar opositores e instituições. Falta saber como funciona e quem financia o chamado gabinete do ódio.

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Foi com ele que Alexandre Ramagem, ex-segurança de Bolsonaro, atual chefe da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e agora cotado para a direção-geral da PF passou o Revéillon de 2018 para 2019. 

Já o provável ministro da Justiça, a quem a PF é subordinada, é o atual secretário-geral da Presidência, Jorge Oliveira, advogado e ex-PM que já atuou como chefe de gabinete do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de quem foi padrinho de casamento. Seu pai também trabalhou com o presidente por quase 20 anos, quando Bolsonaro era deputado. 

Questionado em uma rede social sobre a proximidade dos prováveis chefes da polícia com os filhos investigados, Bolsonaro respondeu: “E daí?”

Ele disse conhecer Ramagem antes de conhecer os próprios filhos. E questionou: “Devo escolher alguém amigo de quem?”. 

A pergunta só faz sentido se todo mundo concordar que o princípio da impessoalidade é mera peça de ficção e que governar se resume a uma ação em família, um direito divino de quem ganhou num laço um país inteiro em forma de capitania hereditária, e não um mandato fixo por maioria de votos em uma eleição.

No auge da crise política, provocada em meio a uma crise sanitária e econômica, Bolsonaro já se referiu à “sua” PF e “suas” Forças Armadas, como se fossem brinquedos ganhos no Natal, e não instituições que já existiam e devem continuar a existir ao fim deste e de outros governos.

Mudar a mentalidade bolsonarista, que prega o arbítrio aos inimigos e a distribuição de postos-chave aos devotos e amigos, é mais difícil, porém, do que tirar ministérios das mãos dos subordinados mais bem avaliados, como eram os casos de Sergio Moro, na Justiça, e Luiz Henrique Mandetta, na Saúde.

Sabe quem também provoca estragos ao confundir as instituições de seu país com guarda pretoriana? Ele mesmo, Nicolas Maduro, o ditador venezuelano que em maio de 2019, praticamente um ano atrás, anunciou, no Twitter,  uma troca no Serviço Bolivariano de Inteligência e outra na direção da Polícia Nacional. Isso depois que o líder opositor Leopoldo López foi libertado por membros do serviço de inteligência, cujo chefe defenestrado denunciou “o estado de deterioração em que a pátria está submersa”.

Maduro segue onde está, rasgando regras e loteando as instituições para se manter presidente, graças ao apoio das forças armadas. Como seu par brasileiro, ele também costuma enviar recados em frente ao quartel-general das forças armadas de seu país, o Forte Tiuna.

Isso significa que o Brasil se transformou em uma Venezuela, como tanto temiam os defensores do ex-capitão?

Não ainda. 

Tudo vai depender de como as instituições brasileiras, a começar pelo STF, saberão responder à volúpia do presidente que há uma semana subia na caminhonete para fazer coro a uma manifestação onde balançava uma faixa dizendo que “democracia tem limites”.

Tem?

No domingo, a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, que representa 2,3 mil profissionais, publicou uma carta aberta ao presidente dizendo que seus membros não vão acatar ordens decorrentes da intervenção política denunciada pelo agora ex-ministro Sergio Moro.

A carta afirma que nenhum delegado quer ver a PF questionada pela opinião pública a cada ação ou inação. “Também não quer trabalhar sob clima de desconfianças internas. O contexto imporá ao próximo diretor um desafio enorme: demonstrar que não foi nomeado para cumprir missão política dentro do órgão. Assim, existe o risco de enfrentar uma instabilidade constante em sua gestão. O último comandante da PF que assumiu o órgão em contexto semelhante teve um período de gestão muito curto”.

O alerta ocorre enquanto um inquérito sobre as suspeitas de interferência política no órgão é aberto a pedido da Procuradoria Geral da República.

Tudo isso no momento em que o país acaba de enterrar a sua quarta milésima vítima do vírus que o presidente atordoado já chamou de “gripezinha”.

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