"Não consigo fazer nada": mito do presidente acorrentado é aula básica de bolsonarismo aplicado

Matheus Pichonelli
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Brazilian President Jair Bolsonaro scores a goal during the "Natal sem Fome" (Christmas without Hunger) charity football match at Vila Belmiro stadium in Santos, Sao Paulo state, Brazil, on December 28, 2020. (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP) (Photo by MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonarlo cai após marcar um gol em partida beneficente transmitida por canal oficial. Foto: Miguel Schincariol/AFP (via Getty Images)

Chegada à segunda metade de seu mandato, Jair Bolsonaro parece ter encarnado o figurino de treinador que tem muitas desculpas e poucas respostas para o desempenho de seu time dentro de campo.

A única estratégia ensaiada é a lamúria. Se a equipe não vai bem, a culpa não é do gramado, das lesões, do calendário, dos árbitros, da deslealdade dos adversários e até da mídia. Tem técnico que, diante da queda, não pensa duas vezes antes de expôr e deixar feridos na estrada seus comandados.

Antes dos 7 a 1, Luiz Felipe Scolari, por exemplo, chegou a dizer, em entrevista, que havia se arrependido de ao menos uma convocação da seleção brasileira, jogando desconfiança sobre os atletas e deslegitimando a própria capacidade de escolher os melhores para cada posição.

É mais ou menos isso o que o presidente tem feito na hora do aperto. A tática bolsonarista é triunfalista; colhe o trunfo das boas notícias e se livra do peso das más. Em tempos de pandemia, as primeiras minguam e as segundas proliferam.

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No começo da crise, Bolsonaro usou uma grande frigideira palaciana contra seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, para justificar o já desenhado fracasso na questão sanitária, que nas contas oficiais mataria menos do que uma gripe comum. Coisa de 800 compatriotas.

Mais de nove meses depois, sabe-se que a projeção estava errada em 199 mil corpos até aqui. Matemática e humanidades nunca foram o forte do presidente, que em campanha prometia delegar qualquer decisão econômica ao superministro Paulo Guedes, seu Posto Ipiranga.

Só que não foi Guedes quem decretou, já nos primeiros dias do ano, que o país “quebrou”. Foi o próprio presidente que até outro dia vendia como trunfo a própria ignorância sobre o tema.

“O Brasil está quebrado. Eu não consigo fazer nada”, disse o presidente a apoiadores.

Em tempos normais, a fala provocaria um corre em mercados e ações, mas não deve ser de hoje que nem o mais precavido dos acionistas leva a sério o que diz a autoridade máxima do país. Não é para eles que Bolsonaro fala.

É para seu público fiel, que ele cultiva como num cativeiro ideológico e precisa ser alimentado de tempos em tempos. Bolsonaro conta com eles para atravessar o deserto até 2022.

No menu degustação oferecido no Palácio do Alvorada, Bolsonaro reformou o mito do herói amarrado, aquele que quer mas não pode salvar a nação. É só por conta das amarras, por exemplo, que ele não consegue “mexer” na tabela do imposto de renda.

A corrente se agigantou com “esse vírus”, que ele vê “potencializado pela mídia que nós temos”.

Como se vê, a única estratégia ensaiada do treinador são as desculpas.

Nas rodas de apoio ainda resilientes ao presidente, corre solta a ideia de que, se as coisas não andam, é porque os malvados da mídia, do Congresso e do Judiciário se uniram numa conspiração para impedir a grande mudança. Só que o único plano do governo até aqui se limita a algumas obsessões, como liberar importação (e abrir mão de receitas) com armas e transformar área de proteção ambiental em corredor para todo tipo de grilagem. Quando a conta chega em forma de fumaça, é mais fácil acusar o mensageiro --no caso, a mídia, que ele jura fazer parte da oposição desde que tirou dela “boquinha”, seja lá o que isso significa.

Para Bolsonaro, imprensa boa é imprensa amiga, como as emissoras dóceis e gratas pelo aumento da fatia do bolo publicitário. Ou mídia estatal que manda abraço ao grande líder em transmissão de jogo e transforma ação beneficente na Vila Belmiro em palanque. Culto à personalidade não é só modalidade esportiva na Venezuela, ao que parece.

No auge da pandemia, as poucas ações em resposta à crise foram articuladas pelo Congresso, onde as lideranças fizeram também o trabalho que o governo se embananou em realizar durante a reforma da Previdência.

Essa parte Bolsonaro prefere omitir da lenda do mito acorrentado vendida aos seguidores.

Como técnico perdido nas próprias convicções, o presidente prefere culpar fatores externos pelos fracassos passados, presentes e futuros. A diferença é que, no futebol, a torcida não entra em campo em ano eleitoral.