Bolsonaro incita população ao fascismo e ao golpe, diz o escritor angolano Ondjaki

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***ARQUIVO***BRASILIA, DF, 02.09.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de lançamento de autorizações ferroviárias, no Palácio do Planalto,em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASILIA, DF, 02.09.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de lançamento de autorizações ferroviárias, no Palácio do Planalto,em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Ondjaki não acredita que seja seu papel, enquanto escritor, lutar para que o livro passe a ser um objeto mais visto nas mãos das pessoas. Este, ele explica, é seu papel enquanto cidadão.

Aos 44 anos, quase uma década após ter vencido o Prêmio José Saramago, uma das mais importantes honrarias para obras escritas em português, Ondjaki agora divide o tempo entre escrever seus livros e promover os de outros autores.

Para ele, a quarentena foi produtiva. Em agosto do ano passado, abriu uma livraria, a Kiela, e fundou uma editora, a Kacimbo, ambas sediadas em Luanda, capital de Angola, onde nasceu, cresceu, e onde se passa "Os Transparentes", que lhe rendeu o Saramago.

O que ele espera com a Kiela e com a Kacimbo é criar um ecossistema, como descreve, que promova a leitura tanto no papel quanto no digital, seja em ebook, seja em audiolivro. O importante, afinal, é ler —ou melhor, conseguir ler.

"Parti do pressuposto de que os livros estão muito caros em Angola. Se eu te der dez livros e você não ter o hábito de leitura, de nada adianta, mas o preço condiciona a compra, e convém que ele seja baixo porque não estamos na Suécia nem na Suíça", diz.

Ondjaki não quer depender do governo para cumprir sua missão, embora esta seja, faz questão de frisar, uma função do governo. Por conta própria, ele procura empresas e outras instituições privadas que comprem os livros da Kiela e da Kacimbo para distribuição em escolas públicas.

"O investimento na educação e na cultura tem sido muito, mas muito fraco em Angola, e me parece que no Brasil está pior ainda —o que me surpreende, porque, anos atrás, o país vinha com muitos planos de incentivo à leitura", diz.

Seu interesse pelo Brasil não é de hoje. Entre 2008 e 2016, ele viveu no Rio de Janeiro, de onde foi embora, mas nunca se despediu, por manter contato com amigos e acompanhar o noticiário diariamente. Diz que "o mundo todo está preocupado com o Brasil", onde "o presidente incita a população a um golpe diariamente" e "há um fantasma de racismo e de xenofobia à solta que pode nos levar ao fascismo".

É mesmo difícil deixar de lado o cenário político caótico de Bolsonaro ao falar sobre o Brasil, mas o verdadeiro interesse de Ondjaki vai além da ascensão do autoritarismo, contra o qual, na posição em que está, sabe que não pode fazer muita coisa.

"A arte é capaz de transformar o mundo, se for permitido. Há quantos anos a arte tenta mudar as condições de vida das pessoas na Palestina? Já mudou? Muito pouco. Muda mais na França, onde o pão está garantido e não tem bombas a cair todos os dias", diz.

O que interessa mesmo a ele é criar pontes entre o português que está cá e lá. Diz que já comprou direitos de livros brasileiros e fechou parceria com uma associação que incentiva a criação literária em favelas. Além de ajudar a financiar o trabalho, ele vai publicar em Angola e Portugal o que surgir do projeto.

"É para ver se os governos acordam. Se nós, escritores, editores e livreiros, conseguimos estabelecer esta parceria [entre países lusófonos], como que os governos não conseguem?", questiona, dizendo que essa falha priva o povo de compartilhar suas culturas e direciona o olhar de todos só para o que vem enlatado de cima.

Essa conexão, que inclui ainda países de outras línguas latinas além do português, é o que ele também busca enquanto artista, inclusive em parte do pacote de cinco livros que acaba de lançar no Brasil pela editora Pallas, voltada à cultura afro-brasileira, que divide sua obra com a Companhia das Letras.

Em "O Convidador de Pirilampos" —ou de vagalumes, como mais comumente diriam os brasileiros—, Ondjaki convidou o português António Jorge Gonçalves para ilustrar a história, em que questiona o público infantil sobre o que se pode fazer sem tecnologia.

Já em "A Estória do Sol e do Rinoceronte", lançado agora, convidou a colombiana Catalina Vásquez para ilustrar a fábula de um rinoceronte que encontra no Sol um lembrete de que, embora não pareça, sua vida vale a pena.

Em "Verbetes Para um Dicionário Afetivo", outro lançamento, ele se une Ana Paula Tavares, de Angola, Manuel Jorge Marmelo, de Portugal, e Paulinho Assunção, do Brasil, para trocar versos sobre as vidas quarentenadas pela pandemia que, cada qual à sua maneira, ainda vivemos.

Os convites se repetem em "Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas", também inédito no Brasil, em que os versos percorrem um universo povoado de pequenos seres, como a lesma, o grilo, a mosca, a aranha e a formiga, que, independentemente de suas diferenças, compartilham do mesmo céu.

É uma leva de lançamentos que, pelos internautas, seria chamada de "good vibes". Já nas palavras de Ondjaki, que embora "esteja só a escrever, e não a analisar", são obras ricas em complexidade humana, sobre pessoas que desejam, choram, festejam, lutam, vivem.

"Toda literatura é feita a partir das questões que acompanham a humanidade. Os livros mais leves não são menos sérios. São apenas mais leves. O importante é escrever com verdade, seja esta verdade mais pesada, seja ela mais leve. Há o momento do chumbo e o momento da leveza."

*

A ESTÓRIA DO SOL E DO RINOCERONTE

Preço R$ 63,00

Autor Ondjaki

Editora Pallas

Ilustração Catalina Vásquez

MATERIAIS PARA CONFECÇÃO DE UM ESPANADOR DE TRISTEZAS

Preço R$ 32,00

Autor Ondjaki

Editora Pallas

VERBETES PARA UM DICIONÁRIO AFETIVO

Preço R$ 49,00

Autor Ana Paula Tavares, Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção

Editora Pallas

OS DA MINHA RUA

Preço R$ 35,00

Autor Ondjaki

Editora Pallas

HÁ PRENDISAJENS COM O XÃO

Preço R$ 30,00

Autor Ondjaki

Editora Pallas

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