'Fragilizado' e 'sozinho' no próprio governo, Bolsonaro se viu obrigado a mudar discurso

Jair Bolsonaro fez 1º recuo importante em seu discurso contra o isolamento social em pronunciamento nesta terça-feira (31). (Photo: Adriano Machado / Reuters)

Pense em uma balança. Daquelas de armazém, antigas, que vemos em filmes ou novelas de época. Agora coloque o presidente Jair Bolsonaro de um lado e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, do outro. Este é o panorama da Esplanada dos Ministérios no meio da crise do coronavírus. Um é peso e o outro, contrapeso. Divididos, ministros e militares escolheram seu lado, mas há também aqueles que optaram por ficar no meio da balança, servindo como “ponto de equilíbrio”. 

Bolsonaro e Mandetta têm visões conflitantes sobre os rumos que o enfrentamento ao coronavírus deve ter: de um lado, “a gripezinha” que só ataca maiores de 60 anos; do outro, o tecnicismo e a adoção de medidas restritivas, ainda que o impacto na economia seja forte. A última é orientação vigente no mundo inteiro, compreendida por economistas e preconizada por cientistas, médicos e, em especial, pela maior autoridade em saúde do mundo, a OMS (Organização Mundial de Saúde). 

Ao utilizar pela quarta vez a rede nacional de rádio e televisão na noite desta terça-feira (31), Bolsonaro, pela primeira vez, não se valeu das palavras “pânico” e “histeria”. Evitou colocar saúde e economia em lados opostos, dizendo, ao contrário que, deve-se “salvar vidas sem deixar para trás os empregos”. 

Segundo interlocutores, porém, longe de representar uma mudança de pensamento, o ajuste na fala de Bolsonaro foi um “conselho” do núcleo militar do Palácio do Planalto, de duas pessoas em especial: o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e do assessor especial do GSI, Eduardo Villas Bôas. E só foi acatado pelo presidente porque ele próprio está “se sentindo fragilizado” em seu cargo, segundo um interlocutor próximo.

Apesar do pronunciamento à nação, pessoas próximas avaliam que a postura do presidente pode não ser definitiva, uma vez que ele não se convenceu do que disse, “só leu um discurso”. Como ele dá recorrentes entrevistas, a expectativa é que ele possa voltar a endossar suas percepções anteriores sobre a pandemia. O tom do pronunciamento, porém, já foi considerado um “avanço”. 

O mandatário se viu sem apoio não somente na classe política — algo que nunca fez questão de cultivar, e que é, inclusive, um trunfo de distanciamento do que chama de “política tradicional”. Ele não vinha sendo apoiado nem mesmo dentro de seu próprio governo

Há relatos de que, nos últimos dias, Bolsonaro reclamou, criticou e atacou boa parte de seus ministros que não têm estado ao seu lado “incondicionalmente” — o que não deixa de ser parte de sua personalidade, conforme contam pessoas próximas. Porém, “está se vendo cada vez mais sozinho”, revelou uma fonte ao HuffPost.  

Esplanada dividida

Há entre os ministros de Bolsonaro a tal divisão da balança: entre quem defende a postura do presidente e quem está ao lado de Mandetta. Há aqueles que expressam isso de uma forma clara e aqueles que deixam nas entrelinhas. 

Sábado (28), em uma reunião no Palácio da Alvorada, o chefe da Saúde expressou a Bolsonaro que não se isentaria mais de deixar extremamente claras as orientações à população sobre como proceder ante a ameaça da covid-19. Ele vinha recebendo muitas críticas externas, de secretários estaduais de Saúde, e cobranças internas, de sua equipe, para se posicionar de forma mais contundente. 

Houve um momento nesse encontro no qual o mandatário repetiu algo que já havia dito em uma entrevista: “Não se surpreendam se me virem no metrô ou em um trem lotado no Rio ou em São Paulo”. Mandetta teria dito, segundo relatos de participantes dessa reunião ao HuffPost, que, se Bolsonaro o fizesse, ele teria que desautorizá-lo publicamente. O presidente então respondeu que, neste caso, teria que demitir o ministro.

Nesse clima exaltado, alguns ministros presentes saíram em defesa de  Mandetta, entre eles, Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), Tarcísio Gomes (Infraestrutura) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional). 

Todos foram alvo, após o fim da reunião, de críticas do presidente e seu clã. Sobre Moro, em especial, disseram que “só pensa nele”. 

Pautado em grande parte por agitações nas redes sociais, o núcleo próximo ao presidente vem monitorando até mesmo como os ministros têm se comportado durante a pandemia do coronavírus. 

Moro, por exemplo, postou na segunda-feira (30) em seu Twitter um elogio a um artigo do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux que fala em “ausência de expertise em relação à covid-19”. E encerra com: “Prudência é fundamental” — um recado tácito a Bolsonaro. 

O ministro Tarcísio, que tantos elogios já ganhou do chefe pela condução de obras com ajuda de militares, e até mesmo nos trabalhos de logística atualmente, na crise do coronavírus, passou a ser monitorado mais de perto por conta da aproximação com Mandetta. Na sexta (27), ele publicou em suas redes sociais um vídeo com o ministro da Saúde.  

Há ainda aqueles que aparecem no meio do caminho, o que, para a lógica do clã Bolsonaro, não servem. É o caso de Marinho, que somente na noite desta terça, após o último pronunciamento em novo tom, postou uma mensagem em seu Twitter com uma defesa do chefe. Mesmo caso da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que, até então, mantinha seus posts sobre coronavírus na esfera de sua pasta.

Nos bastidores, ambos demonstram preocupação com as consequências econômicas do vírus e defendem atuações e medidas do governo para evitar “um degringolar” nesse sentido. Contudo, não defendem o discurso de Bolsonaro favorável apenas ao isolamento vertical, isto é, dos grupos de risco, como idosos.

A mudança de tom de Bolsonaro também fez com que Moro se pronunciasse favoravelmente. No fim da noite de terça, após o pronunciamento, o ministro da Justiça elogiou o chefe pelo Twitter.

Chamou o discurso de Bolsonaro de “conciliador” e reforçou as medidas preconizadas pelo Ministério da Saúde que estavam sendo contestadas pelo presidente. “Isolamento e distanciamento social — fique em casa se puder”, escreveu.

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Por outro lado, há aqueles ministros do núcleo ideológico que ficaram ao lado de Bolsonaro em todos os momentos. Atualmente no Ministério da Cidadania, Onyx Lorenzoni é um dos que cuidam disso. 

O chefe do MEC, Abraham Weintraub, também fez questão de manter as polêmicas levantadas pelo chefe nas redes.

Militares mais fora do que dentro

Bolsonaro vem reforçando o núcleo militar de seu governo a fim de tentar nutrir mais apoio dessa ala. Nomeou o general Walter Braga Netto para a Casa Civil em fevereiro no lugar de Onyx. Netto é o nono militar da Esplanada e coordena o gabinete de crise do coronavírus. No Planalto, junta-se aos generais Augusto Heleno (GSI) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), e ao major da Polícia Militar Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência).

Apesar dos nove ministros militares e de seu vice-presidente, Hamilton Mourão, também com essa formação, Bolsonaro nunca foi unanimidade nas Forças Armadas. E dividiu o grupo mais ainda agora, em especial após o penúltimo pronunciamento, no dia 24 de março, quando elevou o tom defendendo fim do isolamento, colocando a economia acima de vidas e defendendo medicamentos ainda sem eficácia comprovada. 

Como mostrou o HuffPost na segunda (30), a cúpula militar procurou Mourão para demonstrar preocupação e se colocar à disposição em eventual afastamento de Bolsonaro, seja por renúncia - o que todos consideram improvável -, seja por um processo de impeachment. 

Ao presidente, mal tem restado o apoio do núcleo militar palaciano. Isso porque os ministros Jorge e Ramos, conforme fontes relatam, vêm se mostrando mais distantes nas duas últimas semanas, desde que o presidente começou a “bater de frente com o ministro da Saúde”. O distanciamento dos dois coincide ainda com a aproximação dos filhos Carlos e Flávio Bolsonaro das ações do Palácio do Planalto. 

Ou seja, sobraram ao lado do mandatário, de fato, Braga Netto e o fiel escudeiro Heleno. Bolsonaro tem ainda apoio do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, que fez uma postagem nesta segunda afirmando que o presidente vem tendo “coragem”.  

A avaliação interna é que, nem mesmo o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, tido como uma “voz sensata”, é considerado um braço sobre o qual Bolsonaro pode se apoiar. 

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