Datafolha resgata confiança de Bolsonaro, que agora topa falar sobre Queiroz

Matheus Pichonelli
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Demonstrators hold a banner reading " President Jair Bolsonaro, why  your wife Michelle Bolsonaro received 89 thousand reais in deposit from Fabricio Queiroz? " during a protest against Brazil's President Jair Bolsonaro in front of Planalto Palace in Brasilia, Brazil August 27, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Cavalete posicionado em frente ao Palácio do Planalto pergunta a razão de depósitos para primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Jair Bolsonaro pode não saber de muita coisa.

Mas sabe que, entre tantos problemas do país, um deles não é a lisura do sistema de votação eletrônica.

Foi este sistema, inclusive, que o elegeu. E elegeu uma bancada que ele mesmo implodiu. E governadores, de quem se afastou um a um.

Se há agora suspeita sobre as urnas eletrônicas é porque ele sabe que um resultado adverso, daqui a dois anos, é mais palpável do que qualquer prova que jamais apresentou.

Como o amigo Donald Trump, Bolsonaro sabe quem venceu as eleições nos EUA, embora tenha telefonado ao vencedor apenas ontem. E sabe onde o ídolo americano quer chegar quando coloca sob suspeita o resultado das urnas em seu país.

Bolsonaro sabe também que não tem ideia do que fazer diante da pandemia do coronavírus.

Sabe que, não fosse o Congresso, estaria com a popularidade no volume morto sem a extensão do auxílio emergencial que sua equipe econômica fazia bico para aceitar.

Bolsonaro sabe também que, não fossem os esforços das lideranças do Congresso, nem mesmo a reforma da Previdência teria andado em seu primeiro ano de gestão.

Bolsonaro sabe que só o investimento maciço em testagem em massa e imunização pode fazer o país retomar a normalidade pré-pandemia.

E sabe que não há razões para não tomar vacina, a não ser aquelas que não quer admitir.

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Sabe que não existe vácuo em política e que o boicote contra o programa do governo de São Paulo é só fumaça para não perder protagonismo.

Bolsonaro pode não saber da dinâmica da economia. Talvez não seja capaz de falar por mais de dois minutos sobre o sistema público de saúde do país que governa. Nem da diferença entre RNA e vírus inativo.

É capaz de devolver um desenho de arminha se precisar escrever uma redação numa folha em branco sobre patógenos e microrganismos.

Mas sabe onde está e como chegou até ali.

Sabe que pesquisas de opinião são os retratos mais seguros da resposta popular às ações de qualquer governo.

E que pode submergir ou não a partir de sua divulgação.

Desde a divulgação do último Datafolha, Bolsonaro saiu da toca para falar com confiança e desenvoltura. Sabe que só 8% dos brasileiros acreditam que ele seja o principal culpado pelos 180 mil mortos na pandemia.

Bolsonaro sabe da sua responsabilidade e isso basta.

Sabe também com quem anda.

E os amigos que tem.

Ou tinha.

Confiante, Bolsonaro foi à TV sabendo como iria repercutir sua entrevista a José Luiz Datena ao longo do dia.

Sabia que era hora de sair das cordas e reagir à onda de notícias negativas que, ele sabe, não foram inventadas.

Bolsonaro sabe o que preocupava Fabrício Queiroz quando ele dizia, num áudio revelado à imprensa, que o Ministério Público do Rio tinha uma pica do tamanho de um cometa pra enterra na gente.

Sabe quem era esse “a gente”.

Sabe que o mandato de presidente garantido pela Constituição não se estende a laços sanguíneos.

Sabe o que é República e o que é Monarquia.

O que é público e o que é privado.

Sabe que equipamento público não está à disposição de interesses privados.

Nem de presidente nem dos filhos de presidente.

Bolsonaro sabe que “rachadinha” não é eufemismo de coisa menos grave.

Sabe o que são favores pessoais e o que é movimentação atípica.

Sabe que não existe acaso nem compaixão quando o ex-amigo encrencado ganha abrigo no sítio do advogado da família que começava a ver a cotação de seus honorários disparar.

Sabe com quem o ex-amigo conversava quando planejava fugir.

Sabe que o amigo encrencado depositou R$ 89 mil para sua esposa e não parou ali.

Sabe por que ficava irritado quando algum jornalista insistia na pergunta.

Na TV, Bolsonaro agora divide o valor dos pagamentos por ordem cronológica para perguntar se R$ 750 mensais configura propina.

Faltou perguntar “e daí?”, como quando percebeu que já não tinha resposta a dar diante do avanço da pandemia que não conseguiu conter.

No campo das investigações policiais, a pergunta de Bolsonaro é uma resposta em si, mas ninguém havia perguntado nada. A palavra saiu da boca do próprio presidente --que nem investigado é.

Bolsonaro sabe disso.

Deveria saber.