Bolsonaro fala em desidratar Sergio Moro e depois recua. Será um recado ou fritura?

O presidente Jair Bolsonaro com seu ministro, Sergio Moro, durante cerimônia no Palácio do Planalto em dezembro. Foto: Adriano Machado/Reuters

No livro “Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”, recém-publicado pela Companhia das Letras, a jornalista Thaís Oyama conta que o ex-deputado Alberto Fraga é uma das poucas pessoas com acesso ao closet onde o presidente costuma passar os domingos em sua residência oficial.

Sempre que visita o amigo de longa data, relata a autora, o anfitrião lhe pergunta como anda a sua “capivara”-- o equivalente a ficha criminal, na gíria policial.

Condenado em primeiro grau em dois processos em que é acusado de tentativa de extorsão quando era secretário de Transportes do governo Roberto Arruda, no Distrito Federal, Fraga só não assumiu nenhum posto no governo porque o presidente não poderia contradizer sua promessa de não nomear nenhum aliado com pendências na Justiça.

Em 2019, o amigo foi absolvido, em segunda instância, em uma das acusações -- a de ter recebido R$ 350 mil para assinar contratos entre o governo do DF e uma empresa de transportes. 

Bolsonaro acompanha o caso com atenção.

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No livro, Oyama conta também que foi o general Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) quem demoveu o presidente de demitir Sergio Moro após o ministro da Justiça e Segurança Pública agir nos bastidores para o Supremo Tribunal Federal liberar as investigações paradas do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) -- uma medida que favorecia o senador Flávio Bolsonaro, suspeito no caso das rachadinhas envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz.

“Se você fizer isso o governo acaba”, teria dito o general.

Tempos depois, Moro voltou a ficar por um fio de deixar o governo após ganhar força a proposta de o governo dividir seu ministério em dois.

O superministro seria “rebaixado” a ministro apenas, da Justiça.

Algum aliado, provavelmente Fraga, um ex-coronel da Polícia Militar, ficaria com a pasta da Segurança -- e provavelmente com o controle da Polícia Federal, peça-chave da agenda de combate à corrupção e ao crime organizado, hoje incumbida a Moro.

A ideia não só foi aventada publicamente por Bolsonaro como defendida pelo amigo cotado para o cargo.

“Eu sou autor de 15 projetos de lei em relação à segurança pública, sempre trabalhei na comissão da segurança. Sou coronel da Polícia Militar da reserva e não sou dono da verdade. Vou vivendo e aprendendo coisas novas no dia a dia. Como é que alguém vem e intitula alguém que é juiz como o bambambam? Não, isso está errado. Quero que você me aponte qual foi a medida que ele (Moro) adotou (para a redução da criminalidade)”, disse Fraga em entrevista ao jornal O Globo.

Bolsonaro fez coro. 

Um dia antes de dizer que a criação do ministério tinha “zero chance” de acontecer, afirmou a quem quisesse ouvir que a proposta havia sido sugerida por secretários estaduais e que era “lógico” que Moro deveria ser contra.

Jogava, assim, mais óleo numa panela que esquentava.

A fritura aconteceu poucas horas depois de o ex-juiz capitalizar, em entrevista ao “Roda Viva”, da TV Cultura, a queda dos índices de criminalidade no primeiro ano da gestão Bolsonaro.

Esses números, que apontavam essa tendência desde o governo Michel Temer e podem ser explicadas por uma série de circunstâncias (o cessar-fogo entre facções criminosas em presídios e os investimentos dos governos estaduais, por exemplo), são a joia da coroa de um governo que não teve muito o que apresentar em outras áreas, sobretudo a de combate à corrupção, cuja percepção da população piorou em razão dos casos Queiroz e da disposição do presidente em interferir nos órgãos de investigação.

Na entrevista de segunda-feira (20), que teve mais de 1,6 milhão de visualizações no YouTube, Moro ganhou pontos e alguns elogios ao se apresentar como uma espécie de Bolsonaro que sabe usar os talheres. Não se negou a responder perguntas incômodas, não xingou a mãe de ninguém, não recuou nas decisões que hoje são alvo de questionamentos no seu tempo de juiz e -- principalmente -- não se indispôs com o chefe ao dizer que o governo tem hierarquia e, portanto, não tem por quê expôr em público as divergências com o presidente.

Talvez Bolsonaro esperasse uma manifestação mais enfática e apaixonada em relação a projetos como armamento, excludente de ilicitude e nomeação de simpatizantes de Joseph Goebbels em sua guerra cultural.

Talvez tenha percebido que Moro estava conseguindo o que ele não conseguiu no primeiro ano de mandato: manter o antipetismo por perto sem afugentar eleitores a cada diatribe.

No início de janeiro, o Datafolha mostrou que Bolsonaro era considerado uma figura “muito confiável” por apenas 22% dos eleitores -- contra 55% que diziam o contrário.

Moro era considerado altamente confiável por 33% e não confiável por 42%.

Em dezembro, o mesmo instituto apontou que 80% dos brasileiros desconfiam das declarações de Bolsonaro -- metade deles não confiam nunca. Um terço dos entrevistados dizia também que ele não tinha postura de presidente.

Mesmo no auge da fritura, o conselho do general Heleno parecia enevoar de sentido a possibilidade de rifar um ministro que ainda mantém em pé a aliança do bolsonarismo com os apoiadores da Lava Jato. 

Uma vez chutado, Moro teria três anos para preparar o caminho até 2022. Hoje, conforme apontam os números, ele bateria o chefe em todos os quesitos -- inclusive fidelidade, como demonstrou no “Roda Viva”.

No livro, Oyama mostra como o número de seguidores de Bolsonaro nas redes aumenta toda vez que ele corteja o “herói” da Lava Jato.

A fritura serviu para cortar um pouco das asas do ministro que chama para si os méritos da queda da criminalidade e provoca suspiros em quem votou em Bolsonaro sob o argumento de que “não tinha opção”.

Sem ser desautorizado pelo amigo, foi Fraga, não Bolsonaro, quem surgiu em público para contestar a estrela de xerife do ex-juiz. Recado dado, ainda ainda não se sabe até onde vai a fidelidade de quem, por ora, aceita as rédeas curtas definidas por alguém que lucra mais com sua presença no governo do que o contrário.