Bolsonaro distorce dados fornecidos pela Pfizer para sugerir que contrato fechado é melhor do que o oferecido em 2020

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Brazilian President Jair Bolsonaro speaks during the 'Socio-environmental Actions and Adherence to the Adopt a Park Programme' event at Planalto Palace in Brasilia, on May 12, 2021. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)
Brazilian President Jair Bolsonaro speaks during the 'Socio-environmental Actions and Adherence to the Adopt a Park Programme' event at Planalto Palace in Brasilia, on May 12, 2021. (Photo by Sergio Lima / AFP) (Photo by SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) distorceu, durante sua live semanal nesta quinta-feira (13), dados divulgados hoje pelo gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, à CPI da Pandemia. Além disso, desferiu ataques ao relator da CPI, o senador Renan Calheiro (MDB-AL), e disse que a comissão está "ajudando o governo politicamente".

Em seu depoimento, Murillo afirmou que o governo federal rejeitou ao menos cinco ofertas envolvendo doses da vacina Pfizer/BioNTech no ano passado. Elas poderiam ter chegado ao país ainda em dezembro de 2020, caso houvesse acordo.

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O governo brasileiro e o Ministério da Saúde, no entanto, só fecharam contrato com a Pfizer no último mês de março, adquirindo 100 milhões de doses, sendo que 86 milhões estão previstas apenas para o terceiro trimestre desse ano.

Carlos Murillo também confirmou a informação – trazida à CPI no dia anterior pelo ex-secretário da Comunicação Fábio Wajngarten – de que uma carta da empresa endereçada a Bolsonaro e outros membros do governo no segundo semestre ficou dois meses sem resposta.

Apesar disso, Bolsonaro iniciou a live com uma provocação a Calheiros, chamando a comissão de "CPI do Renan" e afirmando que "acabou a palhaçada sobre a narrativa da compra ou não da vacina Pfizer no ano passado".

Depois, o presidente, lendo as informações em um papel, distorceu os dados divulgados pelo ex-presidente da farmacêutica à CPI.

"Ele [Murillo] falou que a proposta, essa que o pessoal fala tanto que não comprou, era de 9 milhões de vacina no primeiro semestre desse ano e 61 milhões no segundo semestre. Total de 70 milhões de doses."

"E fechamos o contrato há pouco com a Pfizer, em vez de um total de 70 milhões, compramos 100 milhões. Em vez de 9 milhões no primeiro semestre, estamos comprando 14 milhões. E no segundo semestre, em vez de comprarmos 61 milhões, como lá atrás, estamos comprando 86 milhões", afirmou.

"Precisa falar mais alguma coisa? Ou vão continuar perturbando? Graças ao trabalho do Ministério da Saúde, que começou com o [Eduardo] Pazuello. Essa é a verdade. Acho que acabou a narrativa, acabou aquela conversa mole", atacou.

Uma das propostas detalhadas pelo ex-presidente da Pfizer, de 26 de agosto de 2020, no entanto, mostra que a farmacêutica chegou a oferecer 70 milhões de doses de acordo com o seguinte cronograma: 1,5 milhão (ainda em 2020), 3 milhões (1º trimestre 2021), 14 milhões (2º trimestre 2021), 26,5 milhões (3º trimestre 2021) e 25 milhões (4º trimestre 2021).

Os números, além de serem maiores do que Bolsonaro sugere em relação ao primeiro semestre de 2021, indicam que a vacinação no país teria sido acelerada caso o governo federal tivesse aceitado a proposta ou continuado a negociação com a farmacêutica – as conversas só foram retomadas, por parte do governo brasileiro, apenas em novembro.

Na live, Bolsonaro também afirmou que o governo brasileiro tinha "impedimento jurídico" de assinar o contrato. Ele também argumentou que a vacina ainda não era certificada pela Anvisa. "Seria uma irresponsabilidade minha aceitar a importação de uma vacina ainda em teste", justificou. "Acabou a narrativa. Fizemos a coisa certa."

Depois, Bolsonaro voltaria a defender seu ex-ministro da Saúde ao afirmar que "Pazuello acertou tudo que fez no ano passado". "Está tudo esclarecido."

Mais cedo, no Twitter, o presidente havia incluído um trecho curto da CPI onde Carlos Murillo disse que o Brasil foi um dos primeiros países a ter o registro da vacina aprovado na Anvisa, e que a farmacêutica não encontrou problemas para obter o registro.

"Parabéns Anvisa e Min Eduardo Pazuello", escreveu Bolsonaro na rede social.

Ataques a Renan

Ao mesmo tempo em que defendeu as políticas do governo federal em relação às vacinas, Bolsonaro atacou o relator da comissão, Renan Calheiros, no mesmo dia em que visitou Alagoas, estado do senador.

"A CPI é um palanque. Os senadores falaram 61% a mais que os próprios depoentes. Tão lá pra aparecer. Tem gente boa, mas tem lá o falastrão do relator. Hoje, inclusive, em todo lugar que eu ia, o pessoal dava um elogio pra ele", disse.

Depois, afirmou que a CPI está "ajudando politicamente o governo", sugerindo que a repercussão da comissão tem sido positiva para o Planalto. "Mas eu não queria ajuda política. Quero ajudar a população, ajudar com a vacina", disse o presidente, que depois voltou a ironizar Calheiros. "Obrigado, Renan Calheiros. Agora você tem que fazer sua parte com o seu eleitor lá de Alagoas, porque você está meio queimado lá."

Ele ainda criticou o relator por dizer que o foco da comissão está em apurar as ações e omissões do Planalto e se abdicar, segundo Bolsonaro, de investigar o uso de verba federal pelos estados no combate à pandemia.

"O Renan disse publicamente que não faz parte do objetivo da CPI apurar o desvio de recurso por parte dos estados. É lógico, ele tem 17 processos de Supremo Tribunal Federal, imagine mais um. Isso é um deboche", atacou.

Além de Renan Calheiros, Bolsonaro também atacou o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a quem chamou de "senador DPVAT" de "fala fina", que foi o autor do pedido para a criação da comissão.

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