Confusão sobre vacina prova que Bolsonaro não aprendeu nada em 7 meses de pandemia

Matheus Pichonelli
·2 minuto de leitura
Brazil's President Jair Bolsonaro greets the new Health Minister Eduardo Pazuello during an inauguration ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, September 16, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro abraça o ministro da Saúde Eduardo Pazuello durante cerimônia no Planalto. Foto: Adriano Machado/Reuters

Jair Bolsonaro acaba de levar à frigideira seu terceiro ministro da Saúde em sete meses de pandemia.

Nesta quinta-feira 21, o presidente desautorizou Eduardo Pazuello ao negar que exista um acordo com o estado de São Paulo para a compra de 46 milhões de doses de uma vacina que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantan em parceria com a China.

O anúncio foi feito na véspera por Pazuello.

A forma como o desmentido oficial foi anunciado, em resposta ao tuíte de um seguidor, diz muito sobre o bate-cabeça amplo geral e irrestrito do governo ao longo da pandemia.

Em caixa alta, Bolsonaro disse que a vacina não será comprada após ser questionado por quem tem 17 anos e sonha com "um futuro sem interferência da ditadura chinesa".

O capitão sugeriu a outro seguidor que o general empossado após meses de interinidade cometia, também em caixa alta, traição. "Qualquer coisa publicada, sem comprovação, vira TRAIÇÃO", reagiu o presidente, que na véspera havia dito que a vacina não seria obrigatória no Brasil.

Leia também

Pazuello foi chamado de "Mandetta milico" nas redes, em referência ao antecessor, que deixou o posto após entrar em conflito com o presidente e ser fritado por semanas.

No Facebook, Bolsonaro declarou que "o povo brasileiro não será cobaia de ninguém" e disse que "a vacina de João Doria" sequer ultrapassou a fase de testagem e não justifica um "bilionário aporte financeiro".

Sem medo de errar, é possível dizer que o nível de politização em torno da vacina chegou ao ápice na disputa entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, provável adversário na disputa presidencial em 2022. Bolsonaro, que apostou (e investiu milhões) na cloroquina, medicamente sem eficácia comprovada, está em campo pela reeleição desde que tomou posse do primeiro mandado.

Foram discordâncias em relação ao medicamento "milagroso" que levaram à porta dos fundos dois ministros da Saúde até aqui. Nelson Teich durou semanas no posto.

Segundo o colunista Lauro Jardim, Bolsonaro reclamou da postura de seu ministro em conversas reservadas com auxiliares. Pazuello, segundo o presidente, entrou no "jogo político que só interessa ao Doria" e está "querendo aparecer demais, está gostando dos holofotes, como o Mandetta".

Não tivesse declarado guerra à TV Globo, Bolsonaro, com seu hatch trick de ministros da Saúde emparedados, poderia em breve pedir música no "Fantástico".

Seria cômico não fosse trágico.

Nesta quarta-feira 21 o Brasil chega à marca de 155 mil mortos na pandemia que o presidente um dia chamou de "gripezinha".