Bolsonaro mostra populismo primário ao levar batalhão de empresários ao STF

Bolsonaro se reúne com Dias Toffoli e empresários no STF

Não foi com um cabo nem com um soldado que a cúpula do Executivo adentrou, a pé, os corredores do Supremo Tribunal Federal no começo da tarde desta quinta-feira (5). Foi com um batalhão de empresários armados com um pedido de socorro para a indústria.

Com números, eles mostraram que o empresariado nacional está na UTI, está parando, não pode parar.

O alerta foi levado até o presidente da Corte, Dias Toffoli, e acontece no momento em que o Brasil passou a casa dos 600 mortos diários pelo coronavírus, numa conta oficial que ultrapassa 8,5 mil vítimas até aqui.

O avanço da doença colocou à mesa a palavra “lockdown”. Basicamente, o recrudescimento de uma quarentena que poderia ter funcionado melhor se não fosse alvo de tantos boicotes, a começar pelo presidente da República.

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Rodeado pelos filhos, os empresários e Paulo Guedes, ministro da Economia, Bolsonaro conseguiu se enroscar em uma conjunção coordenativa para dizer que “estamos preocupados com a vida, MAS…”

Mas a economia está na UTI.

Dava para escrever um ensaio sobre a pertinência da metáfora hospitalar em um momento em que leito na UTI é justamente o que falta para as vítimas do coronavírus com CPF. As vítimas com CNPJ se juntaram a Bolsonaro para tentar uma ligação direta com o Supremo e amarrar, num canto, governadores e prefeitos que neste momento buscam evitar o colapso do sistema de saúde e funerário em seus quintais.

No momento em que tenta abraçar o centrão, Bolsonaro parece querer tirar do presidente do Supremo uma carta branca que signifique não a sobrevida do governo, embora seja disso que se trate, mas para fazer o que precisa ser feito e manter o funcionamento vital da economia.

Puro populismo, diagnosticou um observador atento da cena em Brasília.

Ao fim da fala dos empresários, Guedes aproveitou a deixa para defender uma pauta antiga, a única que conseguiu sacar do coldre naquele corredor polonês em transmissão nacional: o funcionalismo precisa cortar na própria pele e congelar o aumento de salários até o fim do ano que vem.

Como isso vai ser revertido em socorro ao empresariado são outros 500.

Para o observador, Guedes aproveitou a situação para fazer proselitismo da própria pauta de reformas sem se comprometer com os empresários. Nada disse sobre a reabertura da economia. “Ele não vê essa dicotomia entre produção e vida. Pode ser equivocado em uma série de pontos, mas não entrou neste debate. Em todos os momentos ele está de máscara. Não tem uma ligação as duas coisas. Só marcou uma posição dele”, disse o observador.

Guedes pode ter feito papel de bobo, apesar das juras de lealdade do presidente em frente das câmeras do STF.

Na véspera, o próprio líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO), disse que contrariou a orientação da equipe econômica e votou para incluir exceções ao projeto de lei que prevê congelamento de salários de servidores a pedido do próprio presidente. Entre as carreiras que ficariam de fora do congelamento estão a dos policiais, base eleitoral de Bolsonaro.

Feita a cena, o presidente promete vetar agora o que o Congresso decidir sobre exceções ao congelamento.

Apesar do barulho, tudo o que Bolsonaro e os empresários ouviram do presidente do STF foi que já se passaram quase dois meses desde que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia e até hoje não existe uma coordenação entre Poderes ou entes da federação para discutir as ações para conter a disseminação do vírus. 

Toffoli lembrou que a Constituição garante competências específicas a União, estados e municípios e tem tomado decisões neste sentido. “A coordenação é fundamental para este tipo de planejamento”, desconversou.

Mais uma reunião, portanto, que poderia ser resolvida por e-mail.

Para o observador da cena, que nunca viu nada parecido em Brasília, a reunião mostrou apenas o nível de populismo do governo. “É muito primário”, sentenciou.