Bolsa fecha 2022 com alta acumulada de 4,69%

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira perdeu um pouco do fôlego nesta quinta-feira (29), mas isso não a impediu de fechar 2022 com um ganho acumulado de 4,69%, ligeiramente abaixo da inflação anual estimada em 5,64% na mais recente pesquisa do Banco Central.

O resultado positivo da Bolsa era difícil de ser previsto há poucos dias, situação representativa para um ano marcado pela volatilidade nos investimentos provocada por uma crise inflacionária mundial e pelo conturbado cenário político nacional.

Há apenas duas semana, o indicador de referência do mercado acionário doméstico, o Ibovespa, acumulava queda anual de quase 2%. O últimos dias, porém, foram de forte recuperação —a Bolsa subiu quase 7% em duas semanas— conforme investidores passaram a considerar que o governo do presidente eleito e diplomado Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se mostrava mais atento ao equilíbrio das contas públicas e que o Congresso poderia colocar freios em excessos, como ocorreu com a desidratação da PEC que autorizou a expansão de gastos em 2023.

Na sessão desta quinta, a última do ano, o indicador de referência do mercado acionário doméstico, o Ibovespa, recuou 0,16%, aos 110.054 pontos. O dia teve baixo volume de negócios devido à proximidade das festas de fim de ano.

No mercado de câmbio, o dólar comercial à vista fechou o pregão em alta de 0,51%, cotado a R$ 5,2790, na venda, e com isso terminou 2022 com queda anual de 5,3%.

O Ibovespa chegou a abrir o dia em alta, mas se afastou das máximas no início da tarde, após Lula anunciar os nomes de 16 novos ministros, completando os 37 integrantes do primeiro escalão do governo, cedendo 9 ministérios para partidos de centro, em busca de governabilidade.

"O último pregão de 2022 até começou bem para o Ibovespa, que se manteve em alta na parte da manhã, mas a volatilidade voltou a dar o tom dos negócios, mais uma vez guiada pelo noticiário político", comentou Alexsandro Nishimura, economista e sócio da BRA BS.

A percepção positiva dos últimos dias, com a expectativa de maior moderação na política econômica do novo governo, acabou dando lugar às incertezas nesta sessão, segundo o economista. Isso também mudou a tendência do dólar e dos contratos futuros de juros, que passaram a subir. "A mudança de rumo ganhou intensidade após a divulgação dos demais nomes dos ministérios", disse.

As ações da Petrobras também mudaram de sinal e terminaram a sessão com queda de 1,21 % conforme piorou a percepção de risco no mercado.

Ainda não houve definição do nome que presidirá a estatal, mas o futuro ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), falou que haverá revisão do sistema que equipara os preços praticados pela estatal com o mercado internacional. "Isso ampliou os temores de interferência do governo na empresa", afirmou Nishimura.

Em uma breve análise distribuída nesta tarde, o Goldman Sachs descreveu a nomeação de Silveira como já esperada. O banco reafirmou sua posição neutra em relação à Petrobras, apesar da sua atrativa avaliação, dando como justificativa as crescentes incertezas sobre a política para a companhia.

A baixa desta quinta ainda era compensada pela forte recuperação da Bolsa de Valores brasileira na véspera, quando investidores demonstraram alívio quanto às preocupações sobre as contas públicas após o futuro ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT) ter solicitado que o governo Jair Bolsonaro (PL) não prorrogue a desoneração de tributos federais sobre combustíveis.

Haddad ainda disse em entrevista à jornalista Míriam Leitão, publicada em O Globo, que iniciará sua gestão arrumando a casa e revendo benesses criadas por Bolsonaro em sua tentativa de reeleição.

O mercado vê com bons olhos a possibilidade de aumento das receitas e uma postura considerada um pouco mais conservadora da futura gestão, o que diminui temores quanto a eventuais dificuldades para o pagamento da dívida pública.

No exterior, investidores tentavam se ajustar nesta quinta a um cenário de retomada mais intensa das atividades econômicas na China, que anunciou nesta semana a derrubada da quarentena da Covid para viajantes que chegam ao pais, mesmo diante do crescimento do número de casos e da piora da crise sanitária no país.

No penúltimo dia de negociações do ano na Bolsa de Nova York, o índice parâmetro S&P 500 avançou 1,75%, após ter recuado na véspera. As incertezas sobre reabertura da China eram apontadas pela imprensa especializada americana como o principal fator para a volatilidade no mercado acionário do país.

Étore Sanchez, economista da Ativa Investimentos, destacou que as notícias da China, que em um dia são usadas para justificar a baixa do mercado, no outro, são apontadas como razão para o otimismo.

Se por um lado a retomada das viagens dentro e fora da China pode impulsionar a economia global à medida que o crescimento desacelera, por outro, o aumento da demanda pode acelerar a inflação em todo o mundo e levar os bancos centrais a aumentar ainda mais as taxas de juros.

A disseminação do Covid-19 no país também pode ter um efeito contrário ao esperado aquecimento da economia global, caso o país precise voltar a impor um controle rigoroso às atividades e, com isso, provoque uma nova quebra nas cadeias de suprimentos. Essa interrupção no abastecimento é, ao lado da Guerra da Ucrânia, um dos motivos para a escalada mundial dos preços em 2022.

"É por isso que temos essas reações quentes e frias do mercado", disse Ipek Ozkardeskaya, analista sênior do Swissquote Bank, ao The Wall Street Journal, que descreveu uma sensação de "déjà vu" no final de 2022 que, a exemplo de 2021, tem os Estados Unidos preocupados que a rápida disseminação do vírus na China possa aumentar o potencial de novas variantes.

"Não sabemos o que vai acontecer com essa nova onda chegando", disse Ozkardeskaya. "Temos o estresse do Covid-19 voltando no final do ano."