'BoJack', com drogas e sexo, chega ao fim com legado de animação levada a sério

EDUARDO MOURA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Raphael Bob-Waksberg diz que nunca leu Gabriel García-Márquez. "Mas talvez eu devesse", conta em entrevista.

Seus trabalhos mais recentes flertam com o realismo fantástico e o mais notório deles, a série de animação "BoJack Horseman", chega ao fim nesta sexta-feira (31). Com seis temporadas, é uma das produções mais longevas da Netflix.

"Eu gosto de escrever histórias que são absurdas, mas também corriqueiras."

O protagonista é um cavalo antropomorfo de meia-idade que fez sucesso na TV americana nos anos 1990, mas hoje vive numa espiral de ressentimento, festas, drogas e autopiedade em sua mansão à David Hockney, em Los Angeles.

Nesse universo, humanos e animais falantes se relacionam e se reproduzem sem que ninguém os acuse de bestialidade. A história se passa em Hollywood --depois que um personagem rouba o "D" do letreiro, para impressionar sua mulher, todos acham mais sensato passar a chamar o lugar de "Hollywoo". 

Piadinhas espertas com cultura pop são recorrentes, incluindo "participações" de gente famosa --de J.D. Salinger a Beyoncé.

"Isso é tão bobo, mas por que eu estou chorando tanto?" é o tipo de reação que Bob-Waksberg diz esperar causar com seus trabalhos.

Desenhos animados voltados para o público adulto não são novidade. Mas enquanto séries como "Os Simpsons" e "South Park" são diversão pura, "BoJack" toca em temas nada engraçados como alcoolismo, depressão, problemas de relacionamento, abuso sexual e morte. 

"Uma constante na animação adulta é que tudo volta ao normal ao fim de cada episódio, não há continuidade. Quando o BoJack dá uma festa e estraga um móvel, esse móvel vai continuar estragado nos outros episódios. Isso é uma metáfora para o programa como um todo, de que os danos permanecem", diz Bob-Waksberg.

Com o fim da série, ele fala em legado. "Eu espero que as pessoas passem a levar a animação mais a sério", diz. "Alguns tipos de história antigamente poderiam soar inapropriados, muito sombrios ou muito pesados para uma desenho animado colorido e divertido."

Com exceção da primeira, todas as temporadas de "BoJack" beiraram a unanimidade entre os críticos. No site agregador de críticas Rotten Tomatoes, a segunda e a terceira safras obtiveram 100% de veredictos positivos, a quarta teve 97% e a quinta, 98%.

Em junho do ano passado, os animadores que fazem a série se sindicalizaram, o que resultou num novo contrato, estabelecendo salários mínimos e planos de saúde e previdência. Em setembro, a revista Variety noticiou que "BoJack" só teria mais uma temporada.

Aaron Paul, da série "Breaking Bad", um dos dubladores, lamentou no Twitter. "Infelizmente, a Netflix achou que era hora de fechar as cortinas. Não havia nada que pudéssemos fazer."

Bob-Waksberg já está em outra --foi para a concorrência. Junto com Kate Purdy, que contribui com ele em "BoJack", lançou "Undone" na Amazon Prime Video. A estreia foi em setembro do ano passado  e a segunda temporada já está confirmada.

Ele também acaba de lançar um livro, "Someone Who Will Love You in All Your Damaged Glory: Stories" (alguém que o amará em toda a sua glória danificada: histórias). Sobre uma possível tradução para o português, o autor diz que é algo que foge da sua alçada e que depende da editora. "Mas se algum leitor do seu jornal tiver vontade de ler meu livro, eu encorajaria ele a tuitar ou mandar um email e dizer 'ei, quero ler esse livro em português!'." 

BOJACK HORSEMAN - 2ª PARTE DA 6ª TEMPORADA

Quando: estreia nesta sexta (31) na Netflix

Autor: Raphael Bob-Waksberg

Elenco: Will Arnett, Alison Brie, Aaron Paul