De 'Blonde' a Annie Ernaux, como o aborto foi de assunto proibido a tema do momento

SÃO PAULO, SP - BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Uma mulher com o rosto embriagado de dor, se apoiando de cócoras e já sem forças, repousa sua cabeça na cama de um quarto virado do avesso -uma poltrona está tombada de lado, uma jarra d'água parece fora de lugar apoiada no chão. Ela tenta resistir a dores que parecem invadir todo seu corpo, enquanto levanta as saias e encaixa seu quadril numa tigela.

O que Paula Rego pintou no final dos anos 1990 era o retrato de um aborto caseiro -e um caso raro nas artes visuais. Mesmo sendo uma prática comum no mundo todo, e que levanta uma série de discussões políticas, a interrupção da gravidez é um assunto que por décadas ficou invisível nas galerias, museus, cinemas, telas de televisão, palcos de teatro e páginas de romances.

Nos últimos tempos, no entanto, as nuances que a artista portuguesa explorou na série "Aborto" vêm ganhando ainda mais contornos na cultura pop.

Na semana passada, por exemplo, a cantora Phoebe Bridges defendeu a legalização da prática durante seu show no Primavera Sound, em São Paulo. Ela disse que todas as mulheres deveriam ter acesso à interrupção da gravidez e dedicou sua "Chinese Satellite" à causa.

Não é exagero dizer que cada vez mais, há novas obras sobre o aborto -e com mais análises sobre como esse evento pode, e deve, ser documentado.

O museu americano Whitney, em Nova York, expôs pela primeira vez em 90 anos uma obra explicitamente relacionada ao aborto. "Is It Real? Yes, It Is", de Juanita McNeely, levou ao instituto nove cenas de angústia causadas pela interrupção de gravidez neste ano. Outras exposições que abordam o aborto têm pipocado pelos Estados Unidos, principalmente depois que a Suprema Corte do país suspendeu o direito constitucional à interrupção da gravidez.

Foi no mesmo mês dessa decisão que "O Acontecimento" chegou às telonas. Dirigido por Audrey Diwan, o filme, grande vencedor do Festival de Veneza, traz um relato autobiográfico -mesclado com ficção- de Annie Ernaux, autora que ganhou Nobel da literatura pelo livro homônimo neste ano.

Isso não quer dizer que qualquer tipo de retrato do aborto é bem recebido. Recentemente, o filme sobre a Marilyn Monroe, "Blonde", gerou um rebuliço por ter uma cena que mostra um feto falante. No meio de um aborto não consensual, ele pergunta à protagonista traumatizada: "Você não vai me machucar desta vez, vai?".

Caren Spruch, diretora de artes e entretenimento da Federação de Planejamento Familiar da América, disse ao site The Hollywood Reporter que o filme pecou ao igualar fetos a bebês, o que foi apontado por ela e ativistas feministas como desinformação.

Mas por que essa tema, ainda que sob críticas, tem aparecido por aí depois de décadas de silêncio? Uma jornalista de artes visuais do New York Times defende esse movimento como resultado de uma mudança geracional em museus e galerias e de uma onda de jovens artistas que investigam uma identidade pessoal que passou das margens da cultura para o mainstream.

Pesquisadoras que acompanham o tema, no entanto, apontam que isso também tem a ver com como o aborto é tratado socialmente -e isso muda de país para país.

Historicamente, o aborto nas artes oscila entre autorretratos dramáticos -com frequência embalados em trauma e culpa, caso de "Frida e o Aborto", pintura de Frida Kahlo- e imagens sobre a precarização da prática clandestina, como a própria série de Rego. É um assunto, sobretudo, tratado aos sussurros.

O New York Times contabilizou que dos 1,5 milhão de artefatos expostos hoje no Museu Metropolitano de Arte nenhum toca no tema. O mesmo acontece com os 150 mil objetos do Museu do Brooklyn.

Para a artista brasileira Maria Antonia, que retrata a prática em uma de suas obras, o pouco destaque do assunto na história das artes está relacionado a todo o debate ideológico dos grupos pró-aborto e pró-vida -contrários à legalização.

Em "Aborto", a pintora ilustra com cores frias uma mulher sangrando pela vagina ao interromper sua gravidez. O quadro faz parte de sua série "Carne e Corpo", em que ela se volta à sexualidade humana.

"Não é um assunto de fácil digestão", diz ela. "Vivemos num mundo patriarcal, com ideais da Igreja Católica, da fertilidade e da família."

A artista Aleta Valente diz que sua obra "Marque Um X Para Cada Aborto Que Você Já Fez", com um mural e um canetão que convidam o público a interagir, já foi barrada algumas vezes em galerias que diziam temer repercussão negativa.

"Já disseram que era assunto de fórum íntimo e não tinha nada a ver com exposições", afirma Valente, ressaltando, porém, que as vezes em que expôs o mural mostraram o contrário. Segundo ela, só na primeira exposição, mais de 260 mulheres marcaram a obra.

Todo o sistema de representações sobre sexualidade, gravidez e maternidade também reforçam discursos sobre o que é o aborto -ainda que ele nunca seja mencionado. É o que afirma Marília Moschkovich, pesquisadora de pós-doutorado no departamento de antropologia da Universidade de São Paulo. Por isso ela avalia que o tema é, sim, retratado há muito tempo. Mas nunca como uma possibilidade real diante de uma gravidez indesejada.

"As produções de mídia são muito eloquentes sobre o aborto na maneira que elas tratam da gestão, de como representam a maternidade, por exemplo", diz ela. "São muito comuns representações na televisão de alguém que engravidou por acidente e a única opção dela é ter a criança. Isso também é um discurso sobre o aborto."

O segundo tipo usual de representação da interrupção da gravidez, para Moschkovich, é que ele sempre é um procedimento ruim, que envolve sofrimento.

"O aborto muda completamente a maneira com que, principalmente, as mulheres, mas também homens transexuais, se relacionam com a sexualidade. No Brasil, a gente sabe que a gravidez indesejada é um medo gigantesco, por você passar por processos horrorosos por causa da criminalização", diz ela.

Esse cenário é agravado com ataques não só ao avanço da legislação sobre o aborto, mas também na tentativa de coibir casos em que o aborto já é legal no país, segundo a pesquisadora.

Como a política institucional lida com o assunto não é lateral para artes. Uma obra importante do americano Ed Kienholz, "A Operação Ilegal", reconstrói a violência e o desamparo presentes no procedimento feito de maneira clandestina. São ferramentas enferrujadas, um carrinho de compras que se torna uma mesa de operação e uma iluminação mal direcionada que compõem o retrato do aborto feito por sua mulher.

Isso também incide na própria possibilidade de criar as obras. Annie Ernaux, no livro "O Acontecimento", narra com uma sobriedade cortante a dor de ter o útero perfurado por cateteres quando era uma estudante universitária. Ou de como um médico arrogante disse, depois de descobrir seu grau de instrução, que só a tratou mal quando teve que ir às pressas ao hospital porque achou que ela era uma cidadã pobre. E para própria autora, isso só se tornou um livro porque o aborto foi legalizado na França.

"É justamente porque nenhuma interdição pesa mais sobre o aborto que posso, deixando de lado o senso coletivo e as fórmulas necessariamente simplificadas, impostas pela luta das mulheres dos anos 1970, enfrentar, na sua realidade, esse acontecimento inesquecível", escreve ela.