Para entender a queda de audiência de “Babilônia”

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Camila Pitanga, Gloria Pires e Adriana Esteves: as protagonistas (Foto: divulgação/Globo)

O objetivo deste blog é comentar os assuntos do momento no que diz respeito à TV. E não há assunto mais “do momento” do que a queda de audiência da novela “Babilônia”. “A pior audiência de uma novela em todos os tempos”, gritam as manchetes de sites especializados e cadernos de TV. Pois bem, eis aí uma manchete que você já deve ter lido – sem mudar uma letra sequer – dezenas de vezes na última década. Sim, porque a audiência das novelas vem caindo gradativa e inexoravelmente. E quer saber? Vai continuar caindo.

Toda vez que uma novela bate recorde negativo de audiência aparecem as mais variadas explicações e, tal qual uma CPI, apontam-se os culpados. Em “Babilônia” a responsabilidade seria do casal formado por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg (sobre o qual já escrevemos aqui). Uma falácia. “Babilônia” tem outros problemas na trama que, não houvesse o dito casal, seriam apontados como causadores dos baixos números no Ibope.

Mas vamos aos fatos. Nos últimos 20 anos os índices de audiência vêm despencando por uma série de razões: mudanças de hábitos do consumidor, por exemplo. Hoje há um significativo número de pessoas com os olhos pregados na internet. Números? Em 2001 havia menos de 5 milhões de usuários de internet no Brasil. Atualmente, segundo dados da Nielsen IBOPE, há 120,3 milhões de pessoas com acesso à internet no País – 18% a mais do que a estimativa divulgada em 2014.

De acordo com a Pesquisa de Mídia Brasileira 2015, divulgada em dezembro pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, os brasileiros passam, em média, quatro horas e 59 minutos por dia usando a internet durante a semana e quatro horas e 24 minutos/dia nos fins de semana. Já a média de tempo assistindo à TV fica em quatro horas e 31 minutos/dia nos dias de semana e quatro horas e 14 minutos aos sábados e domingos.

Há também o fator TV paga, que costuma ser desprezado por analistas. Segundo os entendidos, o público da TV a cabo não tem nada a ver com o espectador de novelas. Ninguém diz de onde vem essa informação – ou seja, puro “achismo”. Há uma significativa parcela de pessoas que migraram para a TV paga. Mais números? Olha aí: Em 1997 e 1998, havia cerca de 2,5 milhões de assinantes de TV no país. Segundo dados da Anatel, o Brasil terminou janeiro de 2015 com 19,7 milhões de acessos de TV por assinatura – ou seja, 9,7 acessos por cada 100 habitantes.

Entre 1982 e 1991, cerca 65% de domicílios mantinham os aparelhos de TV ligados, segundo estudo do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), realizado entre 1970 e 1997 e divulgado em 2005. Nesse período, a Globo reinava absoluta diante de uma pequena concorrência formada por SBT, Bandeirantes, Record e Manchete – todas sem condições de fazer frente à poderosa “Vênus Platinada”.

Não era surpresa que as novelas globais reinassem absolutas. Mas, com o decorrer do tempo e as mudanças citadas acima, o folhetim televisivo foi perdendo gradativa audiência. E nem foi preciso duas senhoras se beijando ou campanhas religiosas.

Nos anos 80 as novelas tiveram o seu ápice, com “Tieta” (1989/90) chegando aos acachapantes 64 pontos de audiência. Desde então a coisa só foi despencando. Apenas a título de ilustração, os números de algumas tramas das 21 horas que vieram em seguida: “Rainha da Sucata” (1990), 54 pontos; “O Rei do Gado” (1996/97), 52 pontos; “Mulheres Apaixonadas” (2003), 46 pontos; “A Favorita” (2008/09), 39 pontos; “Passione” (2010), 35 pontos; “Império” (2014/15), 32,7 pontos.

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Ao que consta, nenhuma das novelas citadas perdeu audiência devido à, digamos, “ousadias homoafetivas”. Como podemos ver, jogar a culpa da queda em um casal lésbico é muito conveniente para determinados interesses. Fica aí a dica para você não comprar coelho por lebre e não cair em truques marotos do falso moralismo.