Truque por trás das mudanças da Marvel expõe crise nos gibis da editora

Rodrigo Salem

A semana pós-Copa e pré-San Diego Comic-Con, a maior convenção de cultura pop dos Estados Unidos, anda agitada. Em três dias, a editora Marvel anunciou “mudanças drásticas” em alguns de seus personagens principais.

Thor, agora, será uma mulher. O Capitão América terá o uniforme vestido por Sam Wilson, que, na verdade, é o Falcão, um dos parceiros mais conhecidos do herói. E, finalmente, Homem de Ferro ganhará uma nova armadura, se mudará para San Francisco e se chamará Homem de Ferro Superior.

Tudo muito lindo, se não fosse um grande truque da Marvel.

A começar pela nova Thor, que o roteirista Jason Aaron faz questão de ressaltar que não é uma alternativa do deus Asgardiano. “Não é She-Thor. Não é Garota-Thor. Não é Thorita. Ela é THOR. A Thor do Universo Marvel, mas diferente de qualquer outro anterior”, atestou Aaron em comunicado oficial. Mas não é bem assim. Versões femininas de Thor já passaram pelos quadrinhos -outra aqui. Thor, veja bem, já foi um dinossauro extraterrestre e até um sapo.

A “mulher-Thor” será a portadora do martelo do Deus do Trovão, pois o “homem-Thor” será considerado indigno de Mjolnir. Ou seja: não tem isso de novo Thor. O Universo Marvel terá dois Thor andando por aí; uma mascarada poderosa oficial e o tradicional, sem uniforme de sempre, armado com um machado sagrado e lutando junto a um dos grupos dos Vingadores.

É uma grande balela, mas a imprensa tradicional comprou a ideia. Não é à toa que a notícia foi anunciada no programa matinal The View, da rede americana ABC. A ABC, para quem não sabe, é propriedade da Disney, que também é dona da Marvel. Coincidência? Claro que não. Mas serviu ao propósito.

Na quarta-feira (16), foi a vez do diretor criativo da Marvel, Joe Quesada, aparecer no programa The Colbert Report, no canal Comedy Central (da Viacom, que não tem nada a ver com a Disney), para anunciar o “novo Capitão América”. Outra vez, nada de novo no front: Sam Wilson, o falcão, assume o título oficial que era de Steve Rogers, mas com um novo uniforme, algo que já aconteceu diversas vezes nos quadrinhos –e sem esse alarde. Nem mesmo o fato de Wilson ser um Capitão América negro é uma novidade, como engoliram por aí. Ou já esqueceram do histórico Isaiah Bradley?

A Marvel ainda aproveitou a quinta-feira (17) para revelar um novo Homem de Ferro Superior, que não é Tony Stark. A identidade de quem está por trás da armadura apelidada de Genius Bar (oi, Apple) está sendo mantida em segredo, mas sabe-se que ela atuará em San Francisco (oi, Apple 2) e é toda cromada com detalhes negros (oi, Apple 3).

Todos esses anúncios normalmente seriam guardados para a Comic-Con, onde os fãs de HQs se acostumaram a ouvir as notícias em primeira mão sobre seus heróis. Mas o mundo mudou, a Marvel mudou. Agora, é um negócio bilionário e a maior potência de Hollywood. Mas Quesada está certo em vender seus releases de forma bombástica. A mídia é que deveria ter mais cuidado.

Afinal, poucos questionaram o timing dos anúncios. A Marvel sempre faz esse tipo de mudança faltando um mais ou menos um ano para o lançamento de algum filme referente ao herói alterado. Foi assim quando o Dr. Octopus assumiu o corpo de Peter Parker e virou o Homem-Aranha Superior -14 meses antes da estreia de “O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro” nos cinemas.

E será assim com Capitão América, Thor e Homem de Ferro, o trio que estará em “Os Vingadores: A Era de Ultron”, ano que vem. Pode apostar que, pouco antes do filme de Joss Whedon entrar em cartaz, em maio de 2015, Thor será homem de novo, Tony Stark estará voando por Nova York em sua armadura vermelha e amarela e Steve Rogers vestirá o uniforme bandeiroso que possui desde a Segunda Guerra Mundial.

A jogada de marketing da (editora) Marvel é compreensível. E não precisei ir muito longe para analisar o porquê de tantas mudanças radicais em uma mesma semana.

De acordo com os números divulgados pelo site “The Comics Chronicle”, o mercado de gibis nos Estados Unidos está vivendo uma grande crise em 2014. Em junho, as 300 revistas mais vendidas do país somaram 6.4 milhões de unidades, uma queda de 8% em relação ao ano passado. Os números estão até mesmo abaixo das vendas de 2004, um dos piores anos para as HQs.

Investigando o TOP 10, o desespero da Marvel fica mais evidente e escancara o motivo das mudanças: a editora, que domina o mercado americano há mais de uma década, só conseguiu emplacar um título regular entre os mais vendidos, sendo ele “Amazing Spider-Man”, com a volta do Peter Parker que todos conhecemos depois do período negro como "Superior" –a minissérie “Original Sin” é o outro título da Casa de Ideias na lista. E só.

Isso mostra como nem sempre o sucesso nos cinemas tem reflexos nos gibis. A Marvel hoje é poderosa no cinema, mas suas raízes no papel estão cada vez mais abandonadas criativamente, sujeitas a apelações de mudanças de gênero, sexo, raça, religião, time de futebol para poder atrair a atenção.

Como o especialista do ComicBookMovie.com escreveu: "o problema é que estão agindo como se fosse uma grande coisa, quando, na verdade, não é". O trabalho de igualdade nos quadrinhos, inundados desde sua criação por heróis brancos, musculosos e machos, não passa por mudanças temporárias em títulos famosos, mas com revistas consistentes e personagens fixos -como fez, por exemplo, Brian Michael Bendis e sua Jessica Jones de "Alias".