Marvel arrisca prestígio com “Guardiões da Galáxia” e entra (com honras) no universo dos filmes B

Talvez eu seja um dos poucos fãs de quadrinhos e cinema pop a não gostar de “Os Vingadores”, de Joss Whedon. Achei a primeira metade confusa, enquanto a segunda é séria demais para um épico de super-heróis coloridos.

“Guardiões da Galáxia” veio provar que eu estava certo: o novo filme da Marvel, que estreou nesta quinta-feira (31), vai fundo na galhofa, trazendo um bom humor que o universo controlado pelo produtor Kevin Feige só resvalava.

Não se engane. “Guardiões da Galáxia” é vagabundão, filme B da melhor estirpe. Não tem vergonha de evocar cenas quase copiadas de “Os Caçadores da Arca Perdida” e os efeitos especiais transitam entre a perfeição (Rocket Racoon, um guaxinim falante, e Groot, um alien que parece uma árvore) e o tosco (o planeta da Tropa Nova, uma espécie de polícia intergaláctica da Marvel, parece ter saído direto de “Nosso Lar”).

Mas essa é a delícia da comédia interestelar de James Gunn, “jovem” cineasta criado nos corredores da produtora de filmes trash Troma (“Tromeu & Julieta”, a série “O Vingador Tóxico”). Em nenhum, mas nenhum momento “Guardiões da Galáxia” acha que está mudando a história do cinema. O objetivo é divertir e rir de si mesmo. E consegue com honras.

O filme é baseado em um grupo obscuro dos gibis da Marvel, reformulado há seis anos – tendo em mente essa transição para o cinema. Chris Pratt (especialista em papeis de bobocas, surpreendentemente está bem no papel de protagonista e anti-herói, o Han Solo canastra) interpreta Peter Quill, um bandoleiro espacial que foi raptado por mercenários das estrelas quando era criança, pouco depois da morte da mãe. Quill, ou o Senhor das Estrelas, como gostaria de ser conhecido, comete o erro de roubar uma esfera que não interessa apenas ao vilão Ronan (Lee Pace), mas também ao esperado semi-Deus-amante-da-Morte Thanos (que apareceu em uma cena extra em “Os Vingadores”, mas agora finalmente surge com diálogos e a voz e as feições de Josh Brolin).

Ronan ordena que Gamora (Zoe Saldana), uma das filhas de Thanos, parta em busca do objeto, mas a guerreira tem outros planos e se une a Quill depois que os dois são presos ao lado de Rocket Racoon (voz de Bradley Cooper) e do monotemático Groot (voz de Vin Diesel, que apenas pronuncia “Eu sou Groot”) –na prisão, o grupo ganha a adição do estúpido e musculoso Drax (Dave Bautista).

Como você pode perceber, a trama não é o forte de “Guardiões da Galáxia”, mas a interação entre os personagens, que não se suportam, é o grande combustível do filme, confortável em seu estilo autodestrutivo. No fim, eles parecem um grupo muito mais verdadeiro que Os Vingadores de Tony Stark -e os Marvetes irão se deliciar com as peças em exposição do Colecionador (Benicio Del Toro), que vão de Howard The Duck (estrela da cena pós-créditos) a um elfo negro de Thor.

A aposta da Marvel Studios não foi baixa. US$ 170 milhões jogados em um diretor sem nenhum sucesso, um roteiro que beira à parodia, nenhum astro famoso para puxar a audiência genérica e, principalmente, um gênero que nunca é certeza de grandes bilheterias.

No entanto, a Disney investiu em uma campanha de marketing poderosa (os atores passaram por quase todos os talk-shows dos EUA, programas matinais e eventos para fãs). A ousadia coordenada compensou. “Guardiões da Galáxia” amplia consideravelmente o Universo Marvel cinematográfico (a sequência já está marcada para 2016), tem previsão de bater todos os recordes de bilheteria de agosto e tudo isso sem perder a personalidade.

Isso me faz pensar no que diabos aconteceu para Edgar Wright ter desistido de “Homem-Formiga”. Se James Gunn conseguiu escapar com um filme Bzão de altíssimo orçamento, por que o diretor de “Todo Mundo Quase Morto” e “Scott Pilgrim” não teve o mesmo tratamento?