Documentário "Citizenfour" é a versão cyberpunk de "Todos os Homens do Presidente"

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Edward Snowden e o jornalista Gleen Greenwald

Citizenfour.

Era assim que Edward Snowden, em seus dias de anonimato, costumava se identificar para a cineasta Laura Poitras.

Laura, conhecida por seus documentários críticos ao governo norte-americano, passou a ser contatada pelo Citizenfour com a promessa de ter acesso a um dos maiores escândalos de vigilância orquestrados pela Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.

A americana questionou, assim que começou a trocar mensagens criptografadas: "Por que você me escolheu?"

Citizenfour respondeu sem pestanejar: “Eu não escolhi você. Você me escolheu”.

Snowden explica que a cineasta estava sendo parada e questionada nos aeroportos dos Estados Unidos em todas suas viagens, tendo a bagagem revistada e suas andanças averiguadas.

Laura seria perfeita para seu plano de divulgação de um esquema que envolveria governos de diversos países, espionagem do alto escalão político e invasão de privacidade de milhões de pessoas.

Foi com ela que Edward Snowden, ao fugir do Havaí, onde trabalhava como diretor terceirizado de sistemas da NSA, encontrou-se em Hong Kong e começou sua maratona secreta de entrevistas aos repórteres Glenn Greenwald e Ewen MacAskill, na época trabalhando para o jornal inglês “The Guardian”.

Esses encontros estão todos em vídeo e mostrados pela primeira vez no documentário “Citizenfour”, o mais completo filme sobre o caso Snowden já lançado no cinema.

Nele, Laura Poitras não esconde seu lado na briga entre o homem comum e o estado de George Orwell. Documentaristas podem torcer o nariz para a parcialidade, mas foi a decisão mais correta. Laura estava envolvida até o pescoço com a exposição de Snowden e, sozinha, já investigava o aumento da vigilância da NSA e a “parceria” com operadoras de celulares, provedores de internet, sites e redes sociais.

Não é preciso ir muito longe para ver que nem sempre a imparcialidade funciona no cinema quando o caso é compreender essa área cinza que virou a Internet e seus heróis e anti-heróis -"O Quinto Poder" (2013), por exemplo, falhou profundamente ao tentar analisar Julian Assange e seu WikiLeaks. O próprio Snowden, na solidão do quarto no hotel Mira, em Hong Kong, fala, triste: “Sinto saudades da época em que a internet era livre.”

"Citizenfour", por muitas vezes, comporta-se quase como um thriller hollywoodiano dos bons. Impossível não entrar na paranoia de Snowden quando, ao transferir alguns dados em seu computador (embaixo de uma coberta para que ninguém veja sua senha), para Greenwald, o alarme de incêndio do hotel em Hong Kong começa a disparar de 10 em 10 segundos.

Ou quando advogados dos Direitos Humanos começam a organizar sua saída do país.

Ou quando David Miranda, companheiro brasileiro de Greenwald, chega emocionado ao Rio, após passar por uma revista ilegal no aeroporto Heathrow, em Londres.

Ou quando Snowden explica o quão profunda é a raiz de espionagem dos EUA com a simples compra de um bilhete de metrô.

O documentário não apenas serve para mostrar Snowden como um geek de certeza inabalável e preparado para as consequências, mas como a melhor análise do jornalismo no cinema desde “Todos os Homens do Presidente” (1976).

Viajando por Berlim, Londres, Bruxelas, Hong Kong, Rio e Washington, “Citizenfour” mostra a importância de um filtro jornalístico nas informações “vazadas”, o bullying do governo britânico no “Guardian” e Greenwald, o segundo protagonista do longa, dando entrevistas, ajudando a fechar matérias em “O Globo” e até mesmo testemunhando em Brasília.

Arrisco a dizer que uma ficção com a mesma trama talvez não alcançasse um efeito tão desesperador -lembre-se, não há fim ainda, já que Snowden está exilado na Rússia- ou globalmente relevante. Tem a espionagem frenética de um “Bourne”, a inteligência de um “O Informante”, a vontade política de um Michael Moore, as tecnicidades de um “Neuromancer” e personagens tão cativantes quanto interessantes.

Não por acaso, “Citizenfour” está em algumas listas de melhor filme para o Oscar 2015 e acabou de ser indicado ao Spirit Awards, o Oscar do cinema independente americano. Independente de gênero, o documentário é um dos grandes longas de 2014. Mas não há previsão de estreia no Brasil.