Senhas compartilhadas, uma boa ideia?

Carol Patrocínio
Preliminares

Ah, como é gostoso se apaixonar, querer dividir cada instante da sua vida e mostrar que não há segredos entre você e a pessoa amada. Ah, que delícia saber que se pode confiar em alguém ao ponto de não precisar usar máscaras. Feliz mesmo é quem encontra um relacionamento em que tudo isso acontece, não? Não!

Confiar, amar, se entregar... É tudo muito lindo, mas limites precisam existir. Assim como uma planta não vive sem ar, você não vive sem espaço. Você precisa ter espaço para ser você, lembrar do que é estar sozinha, nem que por alguns minutos, saber que algumas pequenas - ou grandes - coisas são suas e de mais ninguém.

Manter a individualidade é o desafio da maior parte dos casais. Ter um tempo para ficar sozinha, mesmo que seja para não fazer nada. Dar uma volta no quarteirão e suspirar só porque o céu está lindo, sem ter ninguém perguntando o motivo. Para ser feliz é preciso respirar.

E aí você luta para ter uns momentos seus e divide a senha do seu e-mail e redes sociais com o gato. Não dá, né? E se você quiser conversar com uma amiga sobre a briga que teve com ele? E se sua amiga quiser te contar um segredo? Ela é sua melhor amiga, não dele, lembre-se. E se sua mãe achar que deve dividir apenas com você algumas das coisas que pensa? Ele poderá ler?

Não ter segredos é como asfixiar o amor. E não são segredos que fariam o outro mudar de ideia em relação a você, mas coisas que não fariam diferença na vida do outro. Coisas que são suas e podem parecer extremamente importantes, mas só pra você.

Conversar com os amigos, dar risada de besteira, trocar fotos de caras gatos com as amigas, ficar sabendo daquela fofoca inacreditável... Guardar textos que você achou lindos, fotos que a fazem derreter - sejam de gatinhos, casais, crianças fofas, imagens de guerra ou de desastre... o que importa é que, por algum motivo, você quis guardar. E tudo isso é só seu, você não precisa dividir.

Manter um pouco do mistério faz bem a você, a ele, ao relacionamento. Mas se você acha que apenas isso não a faria mudar de ideia, vamos para a parte trágica da coisa.

Esse tipo de ideia sempre vem no começo do namoro, quando você ainda não conhece tão bem a pessoa com quem está começando a se envolver e tem apenas seu instinto, totalmente embriagado pela paixão, para confiar. Vale mesmo a pena colocar tudo em risco?

Agora você pergunta: "tudo o quê?". Vamos lá, o bonito pode ter uma crise de ciúme e apagar todos os seus amigos das suas redes sociais, por exemplo. E se você acha que eles são seus amigos e vão entender, está muito enganada. Seus amigos de verdade ficarão extremamente magoados com isso, afinal, eles vão estar sempre do seu lado, já o novo amor ainda não se sabe.

Ou então, numa briga, ele pode enviar mensagens no seu Facebook falando coisas horríveis, coisas que você nunca diria, colocar fotos com poses impensáveis dizendo que é você... São tantas as possibilidades de coisas más que alguém pode fazer, que não dá nem pra escrever tudo aqui. Essas aí de cima são apenas algumas das coisas que já vi acontecer com amigos e pessoas próximas.

E o pior é de tudo isso é quando você vira um monstro porque tem a senha dele em mãos. Você pode achar que isso não vai acontecer, mas naquele dia em que você acordar insegura, se sentindo um lixo, a primeira coisa que vai fazer é entrar no e-mail dele e procurar. Procurar o que? Ninguém sabe, mas você vai encontrar - nem que seja uma troca de mensagens com a mãe dele, com um tom que você não gostou.

Prova de confiança não é dar acesso total a tudo que é seu, prova de confiança é não dar esse acesso. Confiar é fechar os olhos e se deixar guiar, é acreditar no que não se vê. Isso é confiar.

Trocar as senhas é só se permitir ser controlada. E quando uma pessoa se descobre controladora, nem o céu é o limite.