Os abortos que não fiz me tornaram a favor da descriminalização do aborto

carol_patrocinio

Sou mãe de duas crianças. A primeira delas eu tive aos 18 anos. Engravidei e tive meu primeiro filho aos 18 anos. Naquele momento de positivo no teste de farmácia eu sabia que tinha escolhas. Eu poderia optar por um aborto ou por ter o bebê. As duas teriam consequências, mas ambas seriam feitas de forma segura e tranquila. Se eu decidisse terminar a gravidez teria acesso a uma clínica de qualidade, com médicos melhores do que aqueles que atendem a maior parte da população. Se eu decidisse ter a criança meus pais estariam ao meu lado, não me julgariam e me dariam todo apoio do mundo.

Eu tinha o poder de escolher. Eu podia sentar no meu quarto e pensar por quanto tempo fosse necessário em qual seria a melhor decisão para aquele momento. Eu estava segura. Tudo estava ao meu favor. Eu escolhi ter o bebê, mas nem imaginava como seria passar por isso sozinha. Para o dono do espermatozoide que fecundou meu óvulo – porque esse é o único papel desse homem nessa história – nada mudou. Para mim…

Velhinhas se sentiram no direito de me parar na rua e me xingar. Só eu sei como doeu acompanhar meus amigos organizando a primeira viagem depois da formatura do colégio enquanto eu amamentava. Desconhecidos passaram a comentar a minha vida como se minha barriga de grávida desse essa abertura. Meu corpo mudou e eu não estava preparada para lidar com isso. Eu tive que parar meus estudos – apesar de ter tido uma ajuda incrível de professores que se esforçaram para que eu não perdesse um semestre na universidade. As pessoas passaram a me tratar de maneira diferente só porque eu era uma mãe tão jovem. A relação com o meu filho não foi exatamente exemplar desde o começo porque eu não estava madura para lidar com diversos pontos da maternidade. E isso só para elencar as coisas do dia a dia.

Hoje, quase 12 anos depois, consigo olhar para trás e ver como essa caminhada foi difícil. Chegar no momento em que estou hoje não foi simples, ainda mais carregando um bebê comigo. A dor de ser mãe solteira é imensa, a responsabilidade sem fim, as noites sem dormir, os medos de nãoe star fazendo um bom trabalho. E se foi difícil para mim, que tive ajuda da minha família, quão difícil é para mulheres que estão totalmente sozinhas no mundo? Mulheres que lhes tem negada todas as oportunidades por serem pobres? Ou negras?

Quando falamos de mulheres que seguem com gravidezes indesejadas no Brasil falamos, em maior número, de mulheres pobres e negras. Elas não perdem festas ou semestres na universidade, elas perdem a chance de transformar suas vida, de serem as primeiras em suas famílias a completar estudos, mudar de profissão correr atrás de sonhos. Para o homem, nada muda. Ninguém vê uma barriga imensa e lhes nega trabalho, ninguém pergunta na entrevista de emprego se eles têm alguém para ficar com a criança caso ela fique doente, ninguém deixa de lhes dar chances porque são pais.

Métodos contraceptivos não são totalmente eficazes. Usar métodos combinados não garante a somatória de sua eficácia. Abortos são feitos todos os dias. Por mulheres ricas e pobres. A diferença é que as ricas podem pagar clínicas de aborto que mais parecem spas e as pobres vão tentar métodos prosaicos em casa e morrer de infecção ou serão criminalizadas e violentadas em hospitais lotados.

A questão não é mais se o aborto deve ser feito. Ele continuará sendo feito. A questão é quantas mulheres verão suas chances de transformação sendo tiradas de suas vidas porque a camisinha furou, a pílula falhou ou na empolgação do momento ela e o dono dos espermatozoides esqueceram de se proteger. Um bebê é feito por duas pessoas e apenas uma delas carrega essa responsabilidade por toda a vida. Essa pessoa merece ter a chance de escolher. Assim como eu tive.

Aborto não é questão da vida de um embrião que poderá se tornar um bebê, é questão da vida de uma mulher que já existe e é negligenciada por todos nós.

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