O que a retirada dos seios de Angelina Jolie tem com sua vida?

Preliminares

O câncer de mama é uma das doenças que mais mata mulheres no mundo. A doença não tem prevenção, a única coisa que se pode fazer é detectá-la no começo e fazer o tratamento de forma rápida e certeira. A chance de cura é alta – chega a 95% - para mulheres que descobrem a doença no início.

A doença, além do peso na saúde, assusta as pessoas como nenhuma outra. Uma pesquisa divulgada pelo Data Popular em setembro de 2012 mostra que 60% das mulheres e 56% dos homens veem o câncer como a pior doença que se pode ter, à frente de enfarte, derrame, depressão e aids. Os motivos são a crença popular de que a doença mataria rápido, não teria cura e causaria muita dor.

Leia também:
Violência contra a mulher: chega!
Plástica vaginal antes dos 15 anos. O que está acontecendo com nossas garotas?
De onde vem a obsessão pela virgindade?

O mapeamento genético é o exame da moda. E é realmente algo incrível. Seu DNA é estudado, quer dizer, um pequeno grupo de gens que já conhecemos, e você pode saber se tem predisposição de desenvolver alguma doença. É claro que as chances não são 100% e é por isso que uma parte da comunidade científica se preocupa com a realização desse mapeamento. Muitos especialistas acreditam que as pessoas não conseguirão entender que é apenas uma pista e não uma definição de que a doença se manifestará.

E é aí que entra Angelina Jolie. Ela é uma atriz famosa de Hollywood. É linda, casada com Brad Pitt, adotou diversas crianças, presta assistência a milhares de família em estado de miséria pelo mundo todo, é bem sucedida, culta e acabou de contar ao mundo que retirou as duas mamas porque seu mapeamento genético disse que ela teria 87% de chances de desenvolver a doença.

Bem, ela teria 87% de chances dentro dos gens conhecidos e estudados, os outros milhares de gens que foram deixados de lado poderiam dizer outras coisas. Mas quando você viu sua mãe lutar contra o câncer e morrer jovem, esses dados dizem coisas totalmente diferentes. O medo toma conta de você. E isso não há como não entender.

Os casos hereditários da doença representam apenas entre 5% e 10% dos casos da doença. Esse dado é tão importante porque mostra que qualquer mulher pode desenvolver a doença, não importa se alguém na família teve caso da doença ou não.

Tendo isso em vista, somado ao medo cada vez maior que temos das doenças, surge o ponto que acredito ser crucial: foi irresponsável escrever um artigo tratando a mastectomia preventiva como uma opção.

A retirada das mamas não é algo simples, deixa marcas físicas e emocionais, a recuperação é dolorosa e mexe com todos os sentidos da mulher. Eu não tive câncer, mas pessoas muito próximas a mim tiveram e nota-se a mudança em suas posturas, física e frente a vida, em sua relação com o corpo e com si mesmas. Muitas desses mulheres nunca mais se deixam ser vistas sem roupa, serem tocadas sexualmente ou bloqueiam a proximidade do parceiro.

O peso da retirada das mamas é tão grande que o fotógrafo David Jay criou uma série de imagens para fortalecer a autoestima de mulheres que passaram por essa cirurgia. Chamado de The Scar Project, ele retrata mulheres e suas cicatrizes como marcas da vitória sobre a doença.

O que mulheres ao redor do mundo todo guardarão na cabeça desse texto divulgado por Angelina Jolie é que mulheres fortes podem tomar esse tipo de decisão, que uma famosa retirou as mamas e não deixou o câncer chegar, que prevenção, de verdade, é retirar o órgão que pode vir a ficar doente. E quando você tem medo, todos esses pontos fazem sentido.

No fim do dia de ontem, o ministro da saúde, Alexandre Padilha, se pronunciou sobre o caso pedindo cautela. "Existem algumas abordagens mais radicais e outras abordagens, apoiadas em estudos, que demonstram que talvez seja melhor acompanhar a paciente para não ter que fazer uma cirurgia. Uma mastectomia não é uma cirurgia qualquer: prevê riscos, pode ter infecção, a mulher que retira o seio pode ter impacto psicológico", disse.

Não podemos julgar a decisão de uma pessoa. O corpo só pertence a cada um de nós e apenas nós mesmo sabemos como a sombra de uma doença atrapalha nossa vida. Mas precisamos repassar a informação de que não é tão simples assim, de que o mapa genético não fala do seu corpo integralmente e que uma cirurgia, seja ela qual for, só deve ser feita quando muito necessário e de que, por toda a vida, Angelina terá de lidar com reposição hormonal e outros remédios indicados para quem passa por esse tipo de procedimento.

Existem médicos incríveis, mas também existem aqueles que não escolheram salvar vidas, apenas enriquecer e é deles que devemos ter medo. Uma mastectomia é uma cirurgia cara e deve dar algum dinheiro para a equipe que a realiza. Para ilustrar como as coisas podem ser tristes quando pautadas pelos motivos errados – a ganância, no caso -, temos o exemplo dos partos no Brasil.

A maior parte deles é feita por meio de cesáreas eletivas - com dia e hora marcada, sem que haja uma real necessidade disso – e a luta para mudar essa realidade é intensa - e para acabar com a violência obstétrica também. Grande parte dessas escolhas por uma cesárea eletiva são feitas baseadas em dinheiro. Não queremos virar um exercito de mastectomizadas com a desculpa de prevenção quando os interesses podem ser outros, queremos?

Cada caso é um caso, claro. Há mulheres que, sim, vão escolher esse caminho e sentir-se muito mais tranquilas, mas é importante lembrar que traumas e medos podem ser tratados com terapia, que prevenção é feita com exames periódicos e que seu corpo não precisa passar por intervenções agressivas sem uma real necessidade, comprovada 100%.